COTIDIANO

Pirarucu de quintal

Só Peixes desenvolve tecnologia que viabiliza a criação de pirarucu por pequenos produtores familiares


Pirarucu pode atingir até três metros de comprimento e peso superior a 350 quilos de carne

Juracy Xangai

Podendo atingir até três metros de comprimento e peso superior a 350 quilos de carne nobre, saborosa e sem espinhos, o pirarucu é a nova opção econômica para a piscicultura, com o diferencial de que ele se adapta melhor ao clima e às águas da Amazônia, fato que favorece a produção regional.

Predador voraz adaptado à vida nos lagos é o peixe que consegue ter o maior ganho de peso, mas seus criadores sempre encontraram dificuldades para criar grandes quantidades de outros peixes a fim de alimentá-los, o que gerava muitas complicações em seu manejo.

Esse problema era um dos principais fatores que impediam os investidores de viabilizar sua criação comercial em cativeiro, mas eles adaptaram-se perfeitamente ao consumo de ração balanceada.

Animado com as expectativas comerciais oferecidas pelo pirarucu o advogado Elthon Maciel Lago instalou em Pimenta Bueno, Rondônia, a Só Peixes onde cria e vende alevinos de 18 variedades de peixes, a maioria deles típicos da Amazônia. Dentre eles ganha destaque o pirarucu dos quais tem 74 matrizes com mais de cinco anos, ou seja, já se reproduzindo, 300 com mais de dois anos e 1.500 com menos de dois anos.

Um dos diferenciais de seu criatório é o de que estas matrizes são certificadas pelo Ibama o que permite sua livre comercialização, ao contrário dos peixes capturados ilegalmente nos lagos da região.

“Nossa primeira safra de alevinos aconteceu na virada de 2005 para 2006 quando tivemos oportunidade de testar a eficiência de nosso laboratório. Com isso conseguimos formar um estoque de dois milhões de alevinos, os quais vendemos depois de usar uma técnica que os adapta a alimentar-se com ração balanceada”.

Os pirarucus só atingem a maturidade para começar sua reprodução aos cinco anos de idade. Até Elthon montar seu sistema de observação e cuidados com os peixes e as desovas, pensava-se que eles só produziriam uns 300 filhotes por ano, mas na Só Peixes estão conseguindo uma média de 1.500 e a meta é chegar aos 3.000 alevinos por desova.

As matrizes da Só Peixes já vieram de outros criatórios autorizados nos estados de Rondônia Amazonas e Acre. “Compramos matrizes de diferentes regiões porque existem variações genéticas que causam diferenciações como na cor, ganho de peso e resistência de cada peixe, pela observação podemos promover o cruzamento entre eles e assim conseguir uma nova geração de pirarucus com as características ideais para o mercado”.

Uma das maiores vantagens no manejo do pirarucu com relação aos demais peixes é sua respiração pulmonar, ou seja, embora isso exija que a cada 15 ou 20 minutos ele venha à superfície para respirar, esse fato também permite que seja criado em águas com menor oxigenação do que a exigida pelas outras espécies.

Mas, comercialmente, o que interessa mesmo é a qualidade de sua carne e como é essencial para qualquer criação animal, é a relação entre o que ele come e quanto peso ganha com isso e em quanto tempo. Essa característica determina o custo final do produto, mas também nesse item ele sagrou-se um campeão por ser o único que consegue converter dois quilos de alimento em um quilo de carne. Um exemplo prático disso é o de que atinge um peso médio de 20 quilos ou mais, já no seu primeiro ano de vida.

Opção de renda familiar

A Só Peixes integra a parceria do programa regional de piscicultura que está sendo realizado entre os Sebraes do Acre e Rondônia denominado Projeto Pirarucu. “Através deste projeto nós estaremos fornecendo alevinos de pirarucu e orientação técnica para os pequenos produtores. Isto porque já está comprovado que ele pode ser criado em açudes menores com o uso de ração para obter um excelente ganho de peso na produção de uma carne nobre que vai melhorar a renda dessas famílias rurais”.

Embora a criação de pirarucus viesse sendo pesquisada desde 1940, a inovação proposta por Elthon está no fato dele ter sistematizado sua reprodução e manejo com alimentação a partir de ração. A partir disso surgiu a idéia de, a exemplo do que fazem empresas como a Sadia e Aurora que fornecem pintos para que produtores familiares lhes entreguem os frangos, a Só Peixes vai fornecer alevinos para receber e comercializar a carne do pescado.

“Com as técnicas e o sistema que desenvolvemos nós temos condições de dominar toda a cadeia produtiva desde a reprodução dos pirarucus até a comercialização da carne que nós pretendemos industrializar para coloca-la na forma de filés ou cortes especiais no mercado brasileiro e, especialmente, no Japão”.

 

 
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