| OPINIÃO | ||
| CRÔNICA | ||
José Cláudio Mota Porfiro * |
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O edifício foi sendo erguido por séculos a fio. Trouxeram, não se sabe exatamente de onde, vergalhões da espessura de árvore mediana. Tijolos feitos de argila nobre foram mandados vir talvez do oco do mundo. Argamassas e pedras, azulejos e louças, enfim, deram moldura fantástica à imponência do saber. Malgrado, porém, é observar hoje que os alicerces foram assentados sobre bases de areia pura, ou lama densa. E tudo está desmoronando, fatidicamente, como ruem os impérios montados a partir da arrogância de déspotas ineptos que desconhecem a real validade do labor científico. Fora um dia perguntar sobre quem poderia pagar dívida antiga que ainda quero receber, apesar da década que vi passar célere, como é próprio da era da cibernética. Nada havia mudado. O patrão ainda é o mesmo. Deve a mim e a milhares de outros. Deve ainda às viúvas de uns tantos que morreram na esperança de ter casa própria, ou tratar o câncer que lhes corroeu as entranhas. Coitados desses irmãos desafortunados. Dada a época do ópio nacional, em que o povo brasileiro esquece as agruras da vida e só pensa em bola, rapidamente fiz analogia barata. No campeonato nacional de futebol, o maior do mundo, quando os jogadores não são pagos, ou os patrões lhes devem, os times jogam mal e vão para o inferno das divisões de acesso. Da mesma forma está, agora, o nosso serviço público federal, indo já para o ralo de um terceiro estágio, onde as almas só ficam vendo o tempo passar, à espera de que Deus lhas tire desse limbo lancinante em que estão jogadas desde a época do Prof. Dr. Cardoso, F. H. Não existe melhor incentivo que o dinheiro, é claro, uma vez que este é um tempo em que o capital se sobrepõe aos caprichos do destino. Aumento salarial é sempre motivo de júbilo. Contudo, o funcionário público federal dos dias atuais, vergonhosamente - para ele e para os seus - passa por mau pagador, uma vez que as perdas salariais foram tantas que o nível de vida veio aos rés do chão e o traste não consegue pagar o que deve. Uma parte considerável está sob os pés de um agiota que lhes cobra juros escorchantes e atende pelo nome de Banco do Brasil. Pior é notar que a velha carroça rota anda cheia de tralhas, monótona, sem saber onde parar. Somos os maiores pagadores de impostos, apesar de pobres. Não logramos merecer direitos notoriamente constitucionais. Na Justiça, as causas são ganhas, mas o Governo as protela e não as paga, como é o caso do processo relativo à URP, do outro relativo à GAE, dentre milhares de processos individuais que demoram anos para a solução final, embora as leis desta terra de caolhos digam que as pequenas causas deverão ser pagas em, no máximo, dois meses. E me vem à memória essa balela que são as câmaras recursais. Vi a senhora Ellen Gracie, atual presidente do STJ, dizer que são os recursos que fazem a morosidade da justiça brasileira, e com razão. Resta-me saber, entretanto, se a Meritíssima terá punhos suficientemente fortes para lutar contra a casta de enganadores que lucram porque são protegidos por este estratagema capitalista que esconde os verdadeiros maus pagadores, como o Governo Federal. Uma almofadinha que atende pelo nome artístico de Fernando Hadad, o elegantíssimo Ministro da Educação, deitou palavreado no Bom Dia Brasil da última quinta-feira. Disse o belo que, agora, logo após a aprovação do Fundeb - que já está no Congresso há um ano - a reforma universitária passaria pelo crivo da análise da Câmara dos Deputados, como se aquela coorte espúria tivesse condições de analisar o algo mais que não sejam os seus interesses domésticos e particulares, com raras exceções. Falou o Ministro, ainda, sobre a questão da melhoria da qualidade do ensino que estaria no bojo da dita reforma. Comentou sobre as quotas para negros pobres e pobres brancos. Esqueceu, todavia, de fazer referência mínima à questão salarial. Nada comentou sobre a realidade pulsante que é um professor-doutor ganhar três mil reais líquidos, para dar aulas e fazer pesquisas, enquanto um vereador de um vilarejo qualquer, sem nenhuma preparação, vai para muito além dessa merreca. Tão somente para legitimar este argumento, devo asseverar que as universidades públicas são as responsáveis diretas por noventa por cento da pesquisa científica levada a efeito no Brasil. O Hadad sabe, com certeza! A qualidade do ensino superior brasileiro foi avaliada pelo Paiub (Programa de Avaliação Institucional das Universidades Brasileiras), à época de Itamar Franco. Observou-se que havíamos regredido a níveis do início dos anos cinqüenta do século passado. As instituições particulares, na sua maioria, tropeçam na arrogância dos alunos e na ambição dos capitalistas que, ávidos, mordem tão suculentos nacos de carne. E o estado das instituições públicas é precário porque os agentes maiores da transmissão do conhecimento científico, os professores, têm sido tratados, desde sempre, como a escória social que quer dar escada para os mais afoitos das classes despossuídas fazerem a revolução que temos buscado. E esta não é a falência das elites. É a falência de um sistema crasso que ainda não conseguiu enxergar que a transformação social deve, obrigatoriamente, passar, antes, pela valorização dos que fazem da ciência e da transmissão do conhecimento a razão e o sentido das suas vidas. * Pesquisador do Depto. de Filosofia |
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