OPINIÃO
   UM OLHAR FILOSÓFICO

Paulo Pinheiro da Silva

 

 


Desserviço à filosofia

Para alguns a filosofia nada mais é do que ideologia. Um sistema filosófico, um autor de filosofia, para esses incautos leitores, só valem como um certo número de afirmações que devem ser assumidas e defendidas ou refutadas e afastadas. Estudar filosofia equivaleria ao prosélito trabalho de auto-convencimento, de preparação para pregação. Ensinar equivaleria a uma pregação. Claro que grande parte do desinteresse e descrédito da filosofia frente a um maior número de pessoas instruídas no Brasil se deve a esses maus advogados que na verdade querem a condenação de seu cliente!

A ausência de um curso público de filosofia em Rio Branco (existe lugar mais apropriado para a reflexão filosófica do que na universidade pública?) não seria um sintoma grave de que os possíveis defensores e propagadores da reflexão filosófica atuam na verdade em sentido contrário? O estado do Acre antes mesmo de se tornar uma potência econômica (a matriz energética que será gerada no rio madeira e a rodovia transoceânica vão trazer grande impulso econômico para o Acre), desponta no Brasil como fonte de uma forma de pensar única, que inverte um sentido que estava incrustado na concepção de desenvolvimento desde a colonização.

O preservacionismo existe na Europa muito antes do que aqui, mas aqui é o único caso em que a preservação se torna um imperativo de governo sem que grande parte dos recursos naturais tenha desaparecido. Em outras palavras, aqui a preservação tem um sentido próprio, pois na Europa a preservação é mais recuperação do degradado que preservação. Aqui, pelo contrário, há muito o que preservar e por isso o Acre se torna um caso único em que se tenta preservar e desenvolver, em que se pensa duas coisa opostas na forma tradicional de pensar, mas que podem ganhar outro significado que não implique a contradição.

Esse modo de pensar faz com que, aqui, existam condições excepcionais para o aparecimento de uma filosofia própria, mas alguns trabalham de forma febril contra isso, pois, acreditam eles, “se um curso de filosofia surgisse na universidade pública se tornaria transparente o mal que se tem feito, o desserviço à filosofia que se tem prestado”. Que importa a eles que o desenvolvimento intelectual do estado do Acre seja prejudicado! O que importa é preservar o espaço político e institucional para que eles possam continuar detratando a filosofia com sua péssima docência!

A filosofia é sintética por natureza! Mas o que significa isso? Ela cria valores, conceitos, formas de ver para alguns no presente, para muitos no futuro. Mas eles pensam que a filosofia se aprende e se ensina apenas com manuais, ou seja, analiticamente de forma de se parte de algumas afirmações dogmáticas que devem ser memorizadas. A síntese é a formação do novo, a análise é a compreensão do velho. A filosofia passada tem um valor inestimável quando procuramos nela a origem de síntese, de formas de ver com a mente e depois com os olhos. O importante no estudo e ensino de filosofia é um certo rearranjo dos conceitos, é o surgimento de outros significados que a articulação de conceitos nos permite ver. Os conceitos em filosofia estão sempre numa malha de conceitos.

Da mesma forma que hoje nós sabemos que os animais só vivem dentro de um ecossistema, em relação com outros animais, com a flora, com um regime de chuvas, de seca, ou seja, que aquilo que uma espécie é não pode ser apreendido pela simples dissecação do corpo morto e isolado num laboratório, da mesma forma, os conceitos filosóficos não podem ser entendidos de forma isolada, pelo seu significado de dicionário, de manual de vulgarização. Esses conceitos são justamente a tentativa de fornecer um outro significado novo, mais preciso e útil. Retirar esses conceitos da malha em que foram forjados e onde preservam um sentido próprio, para colocá-los isolados num manual ou num dicionário equivale a considerar biólogos aqueles que guardam bichos empalhados.

O Brasil ainda é um grande indeterminado. Para aquilo que somos, para aquilo que estamos sempre sendo e não sendo não há ainda conceitos. Quando os europeus conheceram pela primeira vez uma anta, eles não tiveram formas de pensar apropriadas para dizer o que era aquilo e procuraram traduzir o que viam através de formas anteriores de pensar, ou seja, “é um animal entre o elefante e o boi”. Conosco acontece algo parecido, pois quando queremos nos reduzir às nossas influências passadas e nos consideramos como um composto e não uma mistura, ou seja, quando acreditamos que somos apenas a sobreposição entre as três influências étnicas fazemos algo de parecido. Reduzimos o que somos ao que nossos antepassados eram. Não somos nada de determinado porque somos e não somos muita coisa, porque temos diante dos nossos próprios olhos tanto pudor e auto-ilusão que nos recusamos a ver o que somos e preferimos muitas vezes uma aparência bem forjada e decorada do que esse saco sem fundo que na verdade somos. Todos os povos são misturas, pois a semelhança é apenas fornecida pela distância e pela falta de acuidade no olhar (no limite nada é idêntico a nada), talvez todos os povos sejam também sacos sem fundo, mas para nós aquela ilusão de substância e de identidade absoluta é um preconceito mais nefasto. Muitas forças puxam o Acre para trás (dizendo o contrário naturalmente), mas as pessoas sabem que isso não é mais possível e que as velhas formas de pensar devem ficar na lembrança...

Mestre em Filosofia
@: ppinheirodasilva@yahoo.com.br

 
© Copyright Página 20 todos os direitos reservados    -      Imprimir       -       TOPO
Rio Branco-AC, 11 de junho de 2006
 COTIDIANO
 COLUNAS
 EDITORIAL
 ENTREVISTA
 ESPECIAL
 ESPORTE
 POLÍTICA
 OPINIÃO
 VIA PÚBLICA
 VARIEDADES
 EDIÇÕES
 EXPEDIENTE
 E-MAIL
 
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
P E S Q U I S A