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VARIEDADES

Em nome da sétima arte

Cine Ceará: uma sinfonia cinematográfica que mistura sotaques e tendências latinas

 


Nelson Liano Jr.
Enviado especial a Fortaleza
Fotos Wanessa Malta

O cinema ibero-americano encontrou nas belezas naturais de Fortaleza com suas praias luminosas e na hospitalidade do povo cearense um porto seguro para aportar com a exibição de 131 longas e curtas metragens durante os últimos dez dias. Os filmes, procedentes das Américas do Sul e Central e Península Ibérica, apresentados nas mostras competitivas de longas e curtas e em mais nove mostras paralelas mobilizaram os moradores e visitantes que chegaram à bela Fortaleza. Este ano o festival que terminou na última sexta-feira homenageou a Escola de Cinema de Cuba, através de um dos seus fundadores, o cineasta Fernando Birri, e o ministro da Cultura, Gilberto Gil. Ingrediente perfeitos para dar um tempero político acentuado às jornadas do Cine Ceará.

O fato é que um festival como esse pode ser considerado um bom empreendimento para a cidade e o estado. Além de mostrar cultura à grande massa ainda gera cerca de 100 empregos diretos, centenas de outros indiretos, atrai turistas, alegra o coração e faz muita gente sonhar com o mundo mágico do cinema.

Quem coordena toda a organização dessa festa é o cineasta cearense, formado pela escola Cubana, Wolney Oliveira. Ele é um apaixonado pelo Acre. O cineasta acredita tanto na importância da integração cultural, por razões históricas, entre o Acre e o Ceará, que realizou o filme Borracha para a Vitória, sobre a imigração de cearenses para trabalhar nos seringais acreanos durante a Segunda Guerra Mundial. Em breve, a história vai se tornar um longa metragem. Assim, Wolney fez questão que a sua assessoria de imprensa convidasse um jornalista do Acre para cobrir o festival. E mais: Wolney que é amigo do Governador Jorge Viana falava com orgulho “que o Acre se transformou num canteiro de obra, graças à competência do seu amigo”. Ele se identificou com a população durante o tempo em que filmou no Acre. Tanto que Wolmey garantiu que no próximo festival pretende fazer uma mostra com os Super 8 mm produzidos por aqui. Ë quem sabe a gente possa levar parte do festival para Rio Branco, Cruzeiro do Sul e Brasiléia”, afirmou ele.

O cineasta Wolney Oliveira, foi estudante da Escola Internacional de Cinema e Vídeo, em Santo Antonio de Los Baños, em Cuba. Por isso, além de homenagear a Escola dos Três Mundos, criada há duas décadas nas imediações de Havana, em Cuba, para atender estudantes das Américas, África e Ásia, o 16 Cine Ceará, se tornou pela primeira vez Ibero Americano. Foram incluídos no festival produções cinematográficas de países como Argentina, Cuba, Peru, Portugal, Espanha, México, Equador, Venezuela, Paraguai e Brasil. Uma mostra que dá uma noção da evolução do cinema produzido nos idiomas português e espanhol.

Talvez pela influência do socialismo “caliente” cubano, o festival do Ceará mostrou filmes com temáticas sociais e políticas. A própria publicidade para atrair o grande público afirmava que o festival era “como no socialismo em que ninguém paga entrada para ter acesso a cultura”. E de fato foi isso que aconteceu. As projeções eram abertas para o público mediante credenciamento trocado por um quilo de alimento. Os espectadores podiam assistir tanto a competição oficial dos filmes que concorriam aos prêmios, como as diversas mostras paralelas espalhadas em outras salas de Fortaleza (CE).

A literatura que inspira o cinema

Mas além das mostras cinematográficas o 16* Cine Ceará abrigou o Seminário Fortaleza pela Diversidade Cultural que teve a participação de grandes mestres da cultura brasileira como o escritor Ariano Suassuna e o poeta Tiago de Melo. Aliás, os dois literatos roubaram a cena do festival cinematográfico com sabedoria e bom humor.

O paraibano Ariano Suassuna que teve a sua obra O Auto da Compadecida adaptada com sucesso para as telas destacou a interação criativa entre a literatura e o cinema. Ele ressaltou a importância da linguagem visual como uma das formas de reflexão da nossa realidade. Seguindo a tendência do festival, Suassuna não evitou em falar de política e foi bem taxativo: “Tenho a honra de ter votado no Lula quatro vezes e vou votar a quinta.” O escritor aproveitou a ocasião para fazer críticas a senadora Heloísa Helena(PSOL-AL). “Ela é uma pessoa séria e bem-intencionada, mas está fazendo o jogo da direita,”disse ele.

Quando perguntei ao escritor octagenário sobre o segredo de envelhecer com tanta energia e criatividade ele foi suscinto: “Sou um homem feliz e bem-humorado, mas o acho que o segredo da minha vitalidade está no fato de ser casado com uma mulher bonita”.

Já o poeta Tiago de Melo, que vive em Barreirinha, no Amazonas,destacou dois temas na sua conferência: a necessidade da preservação da Floresta Amazônica e a integração latino-americana. O poeta destacou que estão explorando comercialmente a floresta e destruindo antes de se ter conhecimento da sua verdadeira riqueza.”Estão colocando fogo e queimando pelo dinheiro antes de se estudar a riqueza genética da nossa floresta que poderá curar bilhões de pessoas”, disse ele.

Também em relação a necssidade uma maior troca e conhecimento entre os latino-americanos o poeta afirmou: “Não é possivel que vivamos tão próximos sem sabermos o que acontece culturalmente com os nossos vizinhos”. Tiago de Melo destacou ainda que a diferença de idiomas do Brasil não pode servir de desculpa para o nosso isolamento em relação aos outros países sul americanos. E dá a receita para a mudança do quadro: “Cada um tem que fazer a sua parte. Eu por exemplo tenho me dedicado a traduzir poetas latino americanos como o peruano Cezar Vallejo, entre outros”, finaliza.

Os filmes: um retrato sócio-cultural das Américas

Quase todos os filmes apresentados durante a mostra competitiva do 16* Cine Ceará tinham como fundo um tema social marcante. Iluminados pelo Fogo, do argentino Tristan Bauer, mostra os horrores da guerra das Malvinas, do ponto de vista de um jovem soldado argentino. Já o documentarista mexicana, Natalia Almada, mostrou o interessante Ao Outro Lado, que descobre um estilo de música mexicana, o “corrido”, que narra em suas letras situações sociais dramáticas como a imigração ilegal para os Estados Unidos e o narcotráfico que custam vida de muitos mexicanos.

Mas na minha opinião o melhor longa metragem exibido foi o da cineasta peruana Claudia Llosa, Madeinusa. Uma sinfonia de imagens surpreendentes amarradas por um roteiro que lembra a literatura do fantástico na melhor fase do escritor colombiano Gabriel Garcia Marques. Atuações convincentes das atrizes e atores e um ritmo filmico agradável determinado por uma excelente trilha sonora. O filme peruano com produção espanhola ganhou os prêmios de melhor roteiro e melhor fotografia.

O grande vencedor do juri do festival foi a produção argentina O Guardião, dirigido por Rodrigo Moreno. Uma obra que denota o domínio técnico da arte do cinema do seu diretor ao contar a história de um guarda-costas do ministro do planejamento argentino. O Guardião levou os prêmios de melhor filme e melhor direção faturando dez mil dólares.

Também vale destacar o filme cearense As Tentações do Irmão Sebastião, do cineasta José Araújo, que ganhou o prêmio da crítica e o venezuelano, Maroa, que lembra muito Pixote de Hector Babenco.

Na competição de curtas metragem a competente animação do jovem paulista, José Guilherme Hiertz, realizador de Para Chegar Até Lua, mereceu muitos elogios e um prêmio Especial do Júri. Os curtas mostraram o talento de jovens cineastas no começo de carreira. E dá até vontade de começar a fazer cinema.

Ministro Gilberto Gil: Um show a parte

O ministro da cultura nem precisou cantar os seus sucessos da MPB para ser a principal atração do 16* Cine Ceará. Com muita tranqüilidade e transparecendo a sabedoria característica dos grandes mestres, conversou com a imprensa que cobriu o festival por cerca de uma hora desfilando as realizações e os novos planos do seu ministério. Apesar das conquistas como o aumento de cinco vezes das verbas e a democratização da cultura brasileira além da revitalização do setor áudio visual com a produção de 80 filmes anuais, o ministro ainda espera conseguir mais. “Eu quero que o governo destine 1% do orçamento à cultura, como é recomendado pela Unesco. Já chegamos a 0,6% mas ainda tenho a esperança de chegar a meta ideal. Também quero conseguir a aprovação da liberação da loteria cultural que teria a sua arrecadação revertida para o setor, assim como acontece em países como Suécia, a Holanda e Alemanha”, diz ele.

Em relação a pergunta que fiz se a liberação recente de R$ 35 milhões para as produções cinematográficas poderia chegar ao Acre, foi preciso: “Trabalhamos com o sistema de editais. Então, qualquer produtora de qualquer parte do país que tiver um bom projeto poderá ser contemplada com o financiamento”’ afirmou. Ele revelou ainda que projetos como DOC TV e Revelando Brasis estão permitindo que a indústria áudio visual cresça além do eixo Rio-São Paulo.

Perguntado se numa eventual reeleição do presidente Lula ele continuaria no Ministério da Cultura, berto usou toda a sua baianidade: “Ainda não decidi. Mas posso afirmar que tenho muito mais motivos para ficar do que para sair. Claro que as vezes me sinto cansado e gostaria de dedicar mais tempo à família e às minhas composições. Mas, por outro lado, iniciamos um processo de transformação da cultura brasileira que precisa ser complementado. Costumam dizer que quem começou tem que acabar. Além do fato que as pessoas na rua por onde passo se manifestam positivamente pela nossa atuação no ministério. Mas decidir eu ainda não decidi”, finaliza .

 

 
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Rio Branco-AC, 11 de junho de 2006
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
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