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VARIEDADES

Lago Amapá:
aquele abraço!

 

 

Elson Martins

Num texto manuscrito de 24 linhas, a estudante Alexandra Amorim da Silva fez comovente advertência em defesa do Lago do Amapá durante a Semana do Meio Ambiente: “Tudo isso tem vida e quer viver, como você que também tem vida e quer viver” - escreveu ela em uma redação foi lida na manhã de sábado, 3, à beira do lago na presença de aproximadamente 300 pessoas. Estavam lá colegas da escola rural Ruy de Azevedo, membros da ong Vertente, moradores, alguns jornalistas e autoridades do setor ambiental. “A natureza é a nossa casa e o coração do mundo”, disse em outro trecho. Alexandra ganhou uma bicicleta como prêmio e chorou emocionada. Outros três jovens - Roberto Júnior dos Santos, Francisco Amâncio Guerreiro e Érica Pereira Pessoa - também foram premiados. Cada um recebeu uma conta-poupança de 100 reais na Caixa Econômica. E a associação de moradores ganhou um computador doado pela Vertente.

Patrimônio ecológico

O lago é um nicho ecológico distante apenas 10 quilômetros de Rio Branco. Formou-se do estrangulamento de uma enorme volta do rio Acre ocorrido há cerca de 100 anos (e não 40 como se chegou a pensar). No meio ficou uma ilha de floresta virgem onde permanecem apenas duas famílias, já no entorno se fixaram outras 130.

Pela proximidade da cidade, nas últimas décadas o lago passou a receber a visita de predadores urbanos. Eles iam lá pescar e caçar, ou retirar madeira e areia para a construção civil. Alguns escolhiam o local para farrea nos fins de semana, deixando um rastro de poluição:garrafas, sacos plásticos, malhas de pesca etc.

O movimento em defesa do lago nasceu por iniciativa da Associação de Moradores (Amprea) liderada por um grupo de mulheres. Terezinha Santana, atual presidente da entidade, procurou e obteve apoio do militante Abrahim Farhat e da ong (organização não governamental) Vertente; depois, a parceria estendeu-se aos órgãos federais, estaduais e municipais.

Em dezembro de 2005 a área foi transformada em APA (área de proteção ambiental) por decreto assinado pelo governador Jorge Viana. A APA tem 5 mil hectares e abrange, além do lago, os terrenos ocupados por agricultores, a Estação de Tratamento de Água (ETA) de Rio Branco, o sítio histórico onde o herói Plácido de Castro foi assassinado e parte do Anel Viário da capital.

Ameaça persiste

Embora protegidos por lei, o lago e seu entorno ainda não estão garantidos. A construção do Anel Viário desperta interesse crescente de empresários que querem estabelecer condomínios, clubes de lazer e loteamentos na região.

Enquanto a pressão urbana avança, o movimento comunitário se defronta com a burocracia oficial para constituir o Conselho Gestor e priorizar projetos sustentáveis na APA. Essa é uma luta que depende muito da mobilização dos moradores envolvidos, mas também do apoio da população que não pode deixar destruir um cartão postal de rica biodiversidade tão próximo.

A Prefeitura trabalha com a informação de que sob o lago existe em lençol de água capaz de abastecer uma população de até 1 milhão de habitantes. Se, entretanto, a área não for preservada em suas condições naturais essa possibilidade tende a desaparecer.

No encontro de sábado os participantes simbolizaram um segundo abraço no lago (o primeiro aconteceu ano passado) orando por sua preservação. Antes, algumas pessoas fizeram breves discursos.

O secretário Edgard de Deus afirmou que quem vai cuidar da APA pela parte do governo é o IMAC, instituto que dirige. Ele prometeu formar o Conselho Gestor e discutir o que terá de ser feito daqui para frente.Anselmo Forneck, gerente regional do Ibama, aplaudiu o esforço da comunidade que transformou o “espaço da morte num espaço de vida”. Segundo explicou, no governo passado a região do lago era escolhida pelo esquadrão da morte para “desovar” suas vítimas.

A deputada federal Nalu Gouveia presenteou a associação de moradores com um requerimento de 2001, através do qual provando ela pedia a intervenção do Estado em defesa do lago. É portanto pioneira nessa luta e foi aplaudida. Mas existem outros nomes com atuação maior e mais recente: Abrahim, Célia Pedrina, Elmira, Rodrigo, Tasso, seu Jesus, entre outros que figuram como parceiros preferenciais.

Na contramão

O único empresário que participou da festa de sábado, Noel, não pareceu muito à vontade, apesar do representante da Prefeitura, José Otávio, tê-lo apresentado como filho da terra. Não era para menos seu constrangimento: contrariando a expectativa da comunidade da APA, ele afixou uma placa anunciando as “futuras instalações” de sua empresa, Noel Veículos, na beira do ramal que dá acesso ao lago.

 

 
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Rio Branco-AC, 11 de junho de 2006
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
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