As cadeiras de rodas
A agenda mecânica da vida, habitualmente, nos subordina à execução de ações práticas voltadas ao dito planejamento formal, com observações frias e apenas críticas dos afazeres partilhados. Em regra, torna-se incomum olhar o ambiente de trabalho a partir do sentimento, do olhar fraterno, das relações humanas no seu sentido amplo. Com freqüência, o olhar profissional é dirigido para cobrar desempenho e menos observação sobre a auto-estima e o como está a vida dos que estão ao nosso lado.
Tenho tido a ventura de procurar desenvolver uma agenda, junto aos colegas de trabalho, pautada em relação direta com o que julgamos ser a construção de atitudes coerentes e capazes de servir as pessoas a quem temos o dever de desenvolver ações comunitárias que digam respeito, de algum modo, à qualidade de vida, já que esse é nosso dever.
Assim, têm se destacado, entre nós, muitas atitudes, mas a experiência com as cadeiras de rodas, antes de ser um programa de ações, constitui-se num formidável caminho de crescimento espiritual. Ou seja, é muito mais do que simplesmente nos gratificar pelo resultado de ser o Acre o primeiro estado brasileiro a entregar cadeiras de rodas apropriadas para todos os seus deficientes físicos. Estamos aprendendo com eles, seus familiares e com todos que participam das entregas.
Foi a partir de uma emenda individual ao Orçamento Geral da União, no valor de 3,3 milhões de reais, ainda no ano de 2007, que conseguimos sensibilizar o governo federal, para uma justa parceria com o governador Binho Marques e a nossa Secretaria de Saúde, quando se iniciou a longa licitação para aquisição e posterior entrega. Simplesmente não havia empresa interessada em vender produtos para aquela finalidade.
A inspiração para essa finalidade ocorreu-me há alguns anos, quando fazendo pesquisa sobre a prevalência das hepatites, lá no humilde bairro do Cafezal, em Sena Madureira, entrevistando um cidadão, por volta das 13:00 h - estando eu na escada caída, de madeira, na entrada da sua casa, ele deitado sobre um envelhecido colchão de capim - ele informava que há pelo menos um ano e meio, estava ali, pois um acidente de carro, deixara-lhe tetraplégico, sem ter sequer a oportunidade de ir à calçada de sua rua, a alguns metros.
Não me foi, então, difícil, após tantos anos de militância nos corredores dos hospitais e nos bairros humildes, imaginar que milhares de deficientes físicos viviam situação semelhante. Carecendo, pois, de distinção quanto a um programa de saúde que os acolhesse melhor do que as ações formais em curso.
O mais motivante, e gerador de aprendizagem, foi constatar que eles são tantos no Acre e não têm tido a oportunidade de se reunirem para reivindicar (apesar de termos ajudado na consolidação da associação dos portadores de deficiência do Acre, a CADES – Central De Articulação das Entidades de Saúde). Portanto, vivem à margem dos avanços concretos e velozes para as políticas públicas desejáveis.
Nesses encontros, temos aprendido que o devido e o recebido por eles têm encontrado muito carinho e tem externado amplas reflexões silenciosas. É num olhar emocionado de alegria e gratidão de uma criança recebendo sua cadeira, de um adulto ao lado de sua esposa, de um idoso acompanhado de suas netas que nos permitimos refletir mais ainda sobre eles e suas vidas. Na verdade, esses encontros nos permitem relembrar os detalhes, ou seja, quantos estão ali em razão de terem sido vítimas de alguém dirigindo embriagado, de um ferimento por arma de fogo, de uma queda em ambiente sem a devida biossegurança, de uma criança vítima da precariedade do pré-natal, da precária assistência ao parto, etc.
É como se me voltasse à memória a lembrança dos primeiros contatos que tive , quando ainda estudante de medicina, em Belém do Pará, com os deficientes físicos que procuravam os serviços de saúde. Com a diferença de que, agora, a resposta depende de nós mesmos. Não há, portanto, espaço para lamentações, mas sim para agir.
Alegra saber que a relação tem sido absolutamente ética, não se pede o endereço ou o título de eleitor, mas apenas o fisioterapeuta orienta sobre o melhor manuseio da cadeira elétrica, da adequada aos tetraplégicos, aos paraplégicos, aos obesos e, sobre o seguimento ambulatorial.
É importante dividir a alegria com os depoimentos-lição advindo deles e dos seus parentes, ao perceber a possibilidade singela de poderem ir à uma praça ao entardecer, aos domingos, rever os amigos de infância, as apresentações culturais locais. Ir e vir com um mínimo de autonomia já lhes parece muito. Isso faz-nos até lembrar o poeta Camões, ao expressar que “... quem pede pouco tem tudo”.
Espero, por fim, que essa nova forma de caminhar de todos os beneficiados com o programa “Cadeiras de Rodas” signifique mais ainda: a possibilidade de um dia amanhecermos com a ciência correspondendo ao sonho de que “tenham vida plena e vida em abundância...”.
* Senador (PT-AC)
e vice-presidente do Senado Federal |