ESPECIAL
   ESPECIAL

Jovens com uma missão: dignidade aos excluídos

Grupo atua em 134 países ajudando jovens e crianças a superar os traumas da violência e da marginalização

Divulgação
Missionários do Jocum em parceria com militares do pelotão de trânsito


Juracy Xangai

Meninos e meninas em situação de risco de marginalização ou por haverem sofrido exploração ou abuso sexual dentro ou fora de suas famílias vêm sendo atendidos pelos missionários do movimento Jovens Com uma Missão (Jocum).

Com presença em 134 países, a Jocum é uma organização que funciona em parceria com igrejas evangélicas de todas as denominações, que se unem como missionários enquanto participam da Escola de Treinamento e Discipulado (Eted). Como missão voluntária, mantém em Rio Branco a Casa Resgate e o Lar Éster. A primeira abriga os meninos e a segunda, as meninas, mas ambas recebem crianças encaminhadas pela Justiça e Conselho Tutelar da Infância e da Adolescência como medida de segurança e ali permanecem até que haja condições de retornar ao convívio de suas famílias.

Embora sejam apenas crianças, a maioria já esteve envolvida com álcool e drogas, bem como a prostituição, enquanto outras foram seduzidas e até mesmo violentadas por parentes ou pessoas próximas que freqüentavam suas casas.

Retrato da tragédia

Oficialmente, em cada dez estupros ou abusos sexuais registrados no Acre oito foram cometidos por parentes ou pessoas que gozavam de total confiança da família. “Elas chegam aqui em pedaços, houve casos em que meninas agredidas sexualmente só voltaram a falar três meses depois. Elas se recusam a falar do assunto, precisam de ajuda médica para enfrentar um fato que não aceitam e vai marca-las pelo resto de seus dias”, explica a missionária Kenia Fernandes de Moraes, 36, mãe de um filho que junto com a missionária Ângela coordenam a casa Lar Ester.

Neste último final de semana mais três meninas, todas vítimas de abuso, foram encaminhadas para o Lar Éster. “Quando elas finalmente passam a ter confiança e se abrem conosco descobrimos que muitas foram seduzidas em troca de um bom-bom ou violentadas à força por quem confiavam. Outra circunstância é quando se submetem a manter relações com homens adultos para agrada-los como forma de não contrariar as pessoas ou satisfazer carências emocionais e materiais. Estas levam muito tempo até entender que aqui no lar vivemos outro mundo e que não precisam se submeter a humilhações e abusos para receber benefícios. Algumas levam meses para compreender que este é o mundo correto”.

Seja qual for a condição em que tenha acontecido o abuso sexual ou estupro, as conseqüências futuras são totalmente imprevisíveis, adverte a missionária. “Os estudos da psiquiatria e o nosso próprio trabalho do dia demonstram que os efeitos negativos destes eventos atingem a criança tanto do ponto de vista físico quanto emocional afetando desde seu aprendizado quanto no relacionamento com as pessoas, já que depois de ser agredida por alguém em quem confiava, todas as demais passam a representar perigo. Aqui mesmo elas vão se entendendo entre elas, brincam, se ocupam, mas sem qualquer motivo aparente sofrem crises de depressão e há casos em que ficam extremamente agressivas. Todas, sem exceção, sofrem de uma carência emocional terrível”.

Reconstruindo sonhos

Juntar os pedaços de uma criança e refazer dela uma pessoa é a árdua missão de Kenia e Ângela, cuja casa é mantida graças a algumas doações voluntárias esporádicas de pessoas que se sensibilizam com a situação, pois o Lar Éster não recebe qualquer repasse de convênio ou assistência dos poderes municipal ou estadual. Mas esse é outro problema.

“Aqui nós trabalhamos com a verdade, conversamos francamente e oramos juntas, vamos construindo uma relação de confiança em que cada uma das meninas passa a sentir-se responsável pela segurança das demais. As que chegam percebem isso e aos poucos se integram às atividades. É um trabalho de reconstrução das suas personalidades, de redesenhar sonhos de um futuro que a princípio foi destruído no momento em que elas foram agredidas”, afirma Kenia, que faz um desabafo: “Fico decepcionada ao ver nossa sociedade tratando esses fatos com tanta naturalidade, pois são atos cometidos por monstros que precisam estar atrás das grades para segurança de nossas crianças”.

Para isso, os missionários do Jocum da Casa Resgate e Lar Ester mantêm as crianças permanentemente ocupadas. O dia é dividido entre o tempo de ir à aula, pequenas tarefas e cuidados pessoais, aulas de reforço sobre as matérias, orações e atividades de grupo, teatro, artesanato, Língua Brasileira de Sinais (Libra) para comunicar-se com surdos. Agora três delas estão recebendo aulas de flauta oferecidos por um professor voluntário.

Crianças esquecidas

Um dos principais esforços dos missionários quando recebem essas crianças é garantir que, apesar e tudo, elas não percam seu vínculo familiar, mas, por incrível que pareça essa é uma das etapas mais difíceis do trabalho conforme explica o missionário Silas Klein, um dos responsáveis pela Casa Resgate. “Parte destes meninos perambulava pelas ruas da cidade e aí se envolveram com tudo que vai do uso de álcool e drogas à exploração sexual, por isso nos foram encaminhados pela justiça, mas embora tenham suas crises de vez em quando, a partir do momento em que elas começam a receber atenção mudam totalmente seu comportamento. O problema é conseguir reatar sua relação com as famílias. Temos um garoto de seis anos que está com a gente há um ano e não conseguimos localizar seus parentes”.

Mais grave do que estar perdido é o fato de que muitas famílias preferem deixar os meninos onde estão e nem mesmo os visitam. “Há dois garotos, um deles com sete e outro com dez anos que estão conosco há um ano e a única visita que recebemos foi quando o juizado mandou um aviso de que eles seriam entregues à adoção. Vaio aqui para busca-los, mas nós não podemos entrega-los e explicamos que deveria ir falar com o juiz para poder resolver isso. Ela nunca mais apareceu”.

Preparar o futuro

Diante dessa falta de perspectiva com relação às famílias, todas as crianças são matriculadas em escolas da rede pública. Recebem estímulos para despertar seu gosto por atividades que possam garantir sua sobrevivência após completar seus 18 anos, quando estarão livres para tocar a vida por própria conta.

“Nós investimos no estudo destas crianças e buscamos parcerias para garantir sua profissionalização para que sejam auto-suficientes. Sabemos que muitas delas crescerão aqui dentro, mas sabemos que a institucionalização não é ideal, melhor seria se tivessem a convivência de seus familiares”, explica Silas lembrando que a Casa Resgate, além da ajuda de voluntários mantêm um convênio através da qual recebe ajuda financeira do governo do Estado via Secretaria de Ação Social (Secias) para sua manutenção básica.

Ampliar serviços

Mundialmente, os missionários do Jocum realizam trabalhos sociais, dentre os quais se destacam suas comunidades terapêuticas para o tratamento de usuários do álcool e drogas. “Temos pronto nosso projeto para a instalação de uma comunidade terapêutica no acre, até já solicitamos ao Incra que nos permita utilizar algumas casas e galpões da Alcoobrás que estão apodrecendo abandonados, mas até agora não obtivemos qualquer resposta. Esperamos poder ajudar a recuperar também essas pessoas para que voltem ao convívio das famílias acreanas”.

O trabalho de combate à dependência química foi iniciado no ano 2000 pelos missionários do Jocum numa ação conjunta com a Polícia Militar. Desde então não foram firmados outros convênios, mas eles continuam seu trabalho voluntariamente junto à juventude que é a principal vítima desse mal. Para isso realizam a distribuição de panfletos, palestras e debates em escolas públicas.

“Pessoalmente, eu não acredito que alguém tenha prazer em se auto-destruir moral e fisicamente até perder toda a dignidade. Por outro lado a família do usuário torna-se coodependente do problema já que sofreu não apenas as decepções, mas também os golpes aplicados por ele a fim de manter seu uso e por isso já não tem confiança. Esse conjunto de situações precisa ser bem analisado e tratado em conjunto para que se consigam resultados mais efetivos na recuperação deles todos”, adverte Silas.

 
 
© Copyright Página 20 todos os direitos reservados    -      Imprimir       -       TOPO
Rio Branco-AC, 11 de julho de 2004
 COTIDIANO
 COLUNAS
 ENTREVISTA
 ESPECIAL
 ESPORTE
 POLÍTICA
 OPINIÃO
 VIA PÚBLICA
 EDIÇÕES
 EXPEDIENTE
 E-MAIL
 
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Com Leonildo Rosas
   ANCELMO GÓIS
Com Ancelmo Góis
 
 
P E S Q U I S A