OPINIÃO
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Florentina Esteves *

 

Arraial como antigamente

Como antigamente.

No arraial que aconteceu na Gameleira, semana passada, não faltava nada. Estava lá o pau de sebo, a igrejinha, a prisão do amor, os jogos de pescaria e tiro, bingo, e comilança. O que se possa imaginar em matéria de quitutes: rabada ao tucupi, tacacá, saltenhas, e infinidade de doces. Imperavam as barracas de alimentação, quase que a chamar o acreano de guloso. E faltavam fregueses? Faltava não.

Defronte à arquibancada armada para maior conforto dos que quisessem assistir à quadrilha, largo espaço, permitindo espalhadas evoluções. E a graça das meninas? Sua roupa típica, o gingar bem a gosto de nosso “carizá”, aquilo que chamamos de autenticamente regional, nosso.

E podem consultar o noticiário policial dessas quatro noites que durou o arraial, para conferir que houve uma sensível redução das ocorrências de crimes, assaltos ou bebedeiras. Diversão sadia. E só podemos parabenizar a quem teve essa feliz idéia, ao governo do Acre.

E a freqüência? Gente e mais gente de todas as idades, especialmente crianças. Difícil até de se caminhar entre o povo. Mas consegui uma mesa, e lá nos abancamos confortavelmente, só a assistir ao movimento, e a lembrar daquela rua “da frente” de antigamente, daquele cenário onde desfilaram nossa infância e adolescência, e que hoje, restaurada, nos traz a lembrança das lojas e seus proprietários. Alguns a torrente do tempo levou: Bachir, Osmar Satut, Sapha, Said e Rachid Duck, Zeque, Assmar, Diógenes Oliveira, e tantos outros que nos escapam à memória. Outros com pessoas da família ainda entre nós, são o testemunho de uma época: Fecury Lavocat, Manasfi, Paes, Chalub, Abud, Jarud, Farhat, quantos mais?

E se começo a falar daquela Rio Branco de antigamente, me empolgo. Disse-me uma amiga que isso é saudosismo. Que seja! Mas alguém tem que levantar a memória de nossa história, de nossas famílias. Tarefa que cumpro com prazer. Prazer de trazer para hoje o relato de como as coisas aconteciam naquele tempo sem carros, sem avião, sem rádio nem TV, e tudo acontecia lentamente. Só vínhamos a saber dos acontecimentos do resto do Brasil e do mundo, através de ansiosos telegramas. Os dias eram longos, as noites, infindáveis, e as diversões limitavam-se a algum baile da Tentamen ou no Rio Branco, visitar a comadre nos aniversários, ver embarcações chegar ou sair, e as festividades da igreja. Sim, essa eram as mais esperadas. Afora o ato piedoso de rezar, na missa ou na novena, havia os arraiais que geralmente aconteciam no mês de maio e dezembro. No Segundo Distrito, era na gameleira, em frente à igreja de Nossa Senhora da Conceição, e atraia todas as famílias da época. Moças elegantes ostentavam sua boniteza, galantes rapazes as cortejando, não era raro daí saírem casamentos, certamente abençoados pela Santa Madre Igreja. E todos se divertiam sadiamente.

Terminado o calendário do mês mariano (maio) e de Nossa Senhora da Conceição (dezembro), acontecia a esperada procissão. Maria Ferrante, nossa avó, preparava o andor com flores que ela mesma confeccionava. Havia, também, a banda de música que, à frente da procissão, dava um ar épico ao piedoso desfile das irmandades e do povo. E no fim de tudo, a procissão se encerrava com crianças vestidas de anjo que, do alto do altar, ao som de músicas sacras entoadas pelo órgão e os fiéis, coroavam Nossa Senhora. Lembro de eu mesma ter tido esse privilégio, uma vez, junto com Cidália Nunes.

E assim era.

Lembrar daquele tempo nos deixa nostálgica, mas, ao mesmo tempo, nos conforta ver que alguém se preocupa em reviver nosso passado, trazendo diversão sadia à nossa gente.

Que idéias boas como essa frutifiquem.

* Professora e Escritora

 

 
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Rio Branco-AC, 11 de julho de 2004
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