OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Augusto Fontes

 

Idas e voltas

Se viver é sempre voltar, as idas são repetição do mesmo destino, fantasiado de partidas, disfarçado em novos rumos. A razão de partir estava aqui, sem mostrar-se ao querer, despido de vontades para entender. O amor estava aqui o tempo todo, enquanto perdia-se o tempo procurando amar, voltar a amar, entender a vida. Bobagens, meu bem. Bastava continuar.

Se o rumo é sempre o próprio pé (ou umbigo), o que há além disso é diversão para o tempo, enquanto todos os ventos fazem a curva, certos de que nenhuma reta existe. Voltar para o pé das coisas é a razão de partir. Por isso, agora, é bom partir sem grande bagagem, partir para o sério, enganando o riso de tudo, porque disso tudo só resta achar graça. E perder-se seguindo.

Rotas traçadas, palavras deixadas, o tempo gasta a vida, enquanto olhares passageiros acham tudo normal. Olho vai, olho vem, cá te espero, meu bem. No calor do amor, as palavras partem cedo e voltam sem aviso de recebimento. Palavras que voltam, como tudo que um dia foi. De volta ao começo da dor que faz nascer a paixão. Bastava ficar, permanecer.

O pó que os pés preparam para a volta, desenha o mapa da viagem inevitável. O embarque está marcado para depois do beijo no amor de ontem. O de hoje não voltou e foi sem despedidas. Esqueceu o que iria dizer e os ventos apagaram suas marcas. Deixou de estar, e o que aqui ficou, deixou passar, deixou estar. Outra noite chegou, mas vai passar. Deixa estar.

Se viver é sempre voltar e as idas são repetição do mesmo destino, disfarçado em novos rumos, peguei a paixão de um vento que soprava dor, enquanto fazia redemoinho com outro, que sussurrava prazer. A razão do redemoinho já estava aqui, fantasiada de amor, enquanto tudo ia e voltava, sem tempo para estar e sentir. E bastava sentir, para querer estar.

Palavra é rumo, viver é sentir, amor é redemoinho. O prazer da razão está no vento que conduz o destino, enquanto cada um vive o momento. Voltar é bom em fantasia, projetar é agradável em disfarce. Melhor é estar e sentir, compreender o rumo da tempestade, a voz da calmaria, perder-se no amor. Enquanto isso, a vida vai mostrando a parte visível.

Já de volta, sem lembrar da despedida, ao menos da mais recente, e sem tempo para perder com a atual chegada, ocupada em preparar-se para seguir, a vida perde-se em viver adiante, quando seria importante estar. É este o final do texto, a razão das idas, o sentido das voltas, sem repetir a fantasia de ontem nem disfarçar o rumo do amanhã. Importante é estar.

 

 
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Rio Branco-AC, 11 de julho de 2004
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