OPINIÃO
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Romerito Aquino *

 

Salvem o nosso futuro

Nem bem se recompôs do escândalo nacional e internacional em que se meteu até há pouco tempo, com quadrilhas de extermínio de políticos retalhando pessoas, o Acre entra novamente para o noticiário nacional em maus lençóis com o resultado apresentado na quinta-feira pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Congresso Nacional que investigou a exploração sexual de crianças e adolescentes no Brasil.

O relatório final da CPMI apontou que o Acre participou com 10 dos 850 casos denunciados e investigados durante um ano em 22 dos 27 Estados do país. O detalhe é que os casos do estado, no contexto nacional, além de serem proporcionalmente em número maior em relação a população de cada estado, se destacam no topo da extrema gravidade com que o assunto foi ressaltado pelos deputados e senadores participantes da comissão.

Quem ler o relatório apresentado pela CPMI do Congresso, na parte que concerne ao Acre, vai ter a mesma tristeza de quem, por exemplo, leu há quatro anos o relatório final da CPI da Câmara que investigou o narcotráfico no Brasil e mandou indiciar no estado empresários, ex-governadores, desembargadores e deputados, tendo à frente o então deputado Hildebrando Pascoal e seu bando de traficantes e exterminadores, que acabaram sendo, por sinal, os únicos presos.

A gravidade deste novo escândalo acreano está em todas as páginas que a CPMI dedica ao estado, pedindo providências aos ministérios públicos federal e estadual para indiciar e punir os possíveis monstros que pegam crianças de até sete anos de idade para saciarem suas doenças e suas taras sexuais, aproveitando-se do dinheiro e das posições que desfrutam na sociedade para chegarem até a matar suas vítimas, geralmente pobres e miseráveis.

Vejamos alguns exemplos. Diz o relatório na parte que fala do “Buzão”, o ônibus descoberto em Rio Branco que servia de motel ambulante para empresários do estado saciarem as suas taras com crianças e adolescentes pobres, enquanto viajavam da capital acreana até Porto Velho (RO): “Empresários Fábio Pereira dos Santos, Diretor da ETCA, e César Tadeu Teixeira, Ex-diretor da Real Norte, são acusados de abusar sexualmente de meninas que eram levadas por eles em um ônibus que foi adaptado para favorecer as orgias dos empresários”.

E o relatório da comissão prossegue ao apontar fatos ainda mais graves em relação ao Acre. Ao falar de um tal de “Júnior Babaloo”, os deputados e senadores dizem que “se trata de homem apontado em depoimento como responsável pelo aliciamento de meninas e meninos para a realização de programas sexuais com fazendeiros, médicos, juizes, desembargadores”. Ou seja, pegou boa parte da casta que a população do estado respeita e licencia para ser exemplo de respeito, de caráter, de probidade, de honestidade, de bondade e de honradez.

Verdadeiramente, o filme de horror se repete quatro anos depois!

O que já é razão suficiente para que todos os setores organizados da população façam a mesma cruzada da “vergonha na cara” que fizeram para colocar fim aos crimes de extermínio, que jogaram na lama o nome e a história do Acre. Do governador ao gari, do servidor público ao médico, do vereador ao deputado, do senador ao empresário, do juiz à dona de casa, do fazendeiro ao desembargador, todas as pessoas de bem e que tenham ou não filhos e filhas crianças e adolescentes passam a ter, como tiveram em passado recente, a obrigação de formar uma nova cruzada para denunciar e colocar na cadeia os responsáveis por essa nova ameaça perversa que ronda novamente o bom nome do Acre. Sejam eles quem forem.

A cruzada pode começar, aliás, no debate que os jornalistas pretendem realizar em breve com os candidatos a prefeito de Rio Branco, indagando a eles o que cada um pretende fazer de concreto para colaborar com uma das principais recomendações feitas pela comissão de inquérito do Congresso. A de que o Juizado da Infância e da Juventude adote “as medidas de proteção cabíveis com relação às vítimas”.

Esse assunto poderia se transformar, inclusive, na base da pauta das eleições municipais deste ano, com todos os candidato a prefeito e a vereador do estado dizendo o que, efetivamente, pretendem fazer para acabar com a fome e outras carências da periferia de suas cidades.

Afinal, é de lá que vêm as crianças e adolescentes das quais falamos aqui.

*Jornalista

 

 
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Rio Branco-AC, 11 de julho de 2004
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