| VARIEDADES | |
De bom tom Sob a batuta do descompromisso da iniciativa privada, ONG reforça a necessidade de “afinar o gosto” de crianças em situação de risco |
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Em 1992, o publicitário Nizan Guanaes, então diretor de criação da agência de publicidade “DM9”, chocou os olhares paulistanos mais embrutecidos quando colocou frente a frente um refrigerante de sabor “cola” e outro de sabor “guaraná”. Separando as garrafas rivais, a incômoda frase “Gosto se discute”. Foi o bastante para se criar, em grande escala, uma celeuma em torno do gosto. O jornal Página 20 inicia uma produção de matérias com o objetivo de desvendar esse tema. Para isso, vai utilizar como instrumento de discussão a Música e todas as suas funções, por entender que nessa área a reflexão se torne mais concreta para muitas pessoas. No Acre, o embate sobre a relação entre o erudito e o popular pôde ser observado de forma latente a partir da criação, em 1997, da Organização Não Governamental Musicalizar. Teoricamente, nada há de excepcional na proposta de trabalho da Musicalizar: popularizar a música instrumental nas comunidades carentes. A diferença entre o trabalho coordenado pelo maestro Romualdo Medeiros e o sem número de outras organizações Brasil fora é o impacto social. Ouvir, mesmo que de forma imperfeita, uma parte de cantatas de Bach às margens do rio Acre, ou nos barrancos do bairro Taquari, promove uma mistura de sensações que transita sob extremos. Se Bach, Brahms, Dvorak, Mozart nada têm a ver com a realidade acreana, por que encanta um menino da periferia mais violenta de Rio Branco? Não seria mais lógico ele pegar de uma viola ou pandeiro e cantarolar as músicas de suas raízes nordestinas, para ser mais genuíno? Ou será que Bach é aceito em todo o mundo por sua música ser bela em essência e isso, em si, seja suficiente para que sua execução possa ser aceita em todos os lugares? Não se pode confundir, no entanto, essa busca sincera por aquilo que é Belo com as aventuras “kitsch” de Flávio Venturini ao ruminar a Cantata 156 de Bach para o público da novela “Cabocla”, exibida pela Rede Globo. A indagação de Leon Tolstói sobre a concepção de Arte é pertinente para a discussão, quando pergunta o que é arte, então, se destacarmos o confuso conceito de beleza. Para Leon, a arte tem uma conotação quase divina e não há uma obrigatoriedade, segundo ele, de ser a arte a incentivadora da Beleza. “A Arte”, conclui o autor de Guerra e Paz, “deveria servir para promover o bem estar de todos e não de uma única classe social”. Partindo dessa premissa, a natureza Política da arte é evidente. Só isso pode ser capaz de explicar a busca pela beleza em todos os lugares, classes, credos. O que é o Belo? E o “não-Belo”? Essas perguntas acompanham gerações e ainda não foi encontrada uma resposta definitiva. Em momento algum essa discussão é inócua, sobretudo pelo aspecto social envolvido no trabalho de ONGs como a Musicalizar. Em sete anos, centenas de jovens passaram pelas salas dessa escola. Hoje, são aproximadamente 80 alunos que encaram a rotina de um músico no Brasil. Eles tiveram uma mudança de perfil sócio-econômico. O drama, no entanto, é: os que mais precisam da música como meio de emancipação social não estão mais lá por falta de verba da Organização. O maestro Romualdo Freitas, graduado em Música pela Universidade Federal de Pernambuco, com especialização em violão, completou 13 anos de Acre. Contou com apoio de primeiras-damas, solidárias à causa, recursos do Fundo de Amparo do Trabalhador e teve divulgação nacional da Musicalizar, em um encontro promovido pelo Ministério do Trabalho em São Luiz. Na ocasião, Medeiros mostrou o impacto do trabalho com crianças em risco pessoal e social. “A iniciativa privada precisa acordar para a música de bom gosto ou, no mínimo, para projetos que já demonstraram ter aceitação popular”, alerta Medeiros. O maestro lembra que foi formada uma parceria com o Rotary Club, mas considera ainda tímida a participação de empresas no processo de compromisso social com a juventude por meio da música. “Pode ser melhorado porque há público para isso”. |
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