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| Armazéns garantem qualidade da castanha Embrapa desenvolveu sistema de estocagem que o governo constrói beneficiando mais de seis mil famílias da floresta |
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Juracy Xangai Maior produtor de castanha-do-brasil, o Acre está sendo obrigado a adaptar-se às novas exigências do mercado. Para isso, está treinamento os seringueiros em boas práticas no manejo da produção, além de construir um verdadeiro sistema de armazéns para secar e estocar a castanha nos seringais durante o inverno, mudanças necessárias para poder garantir a qualidade desse produto a fim de que possa ser vendido a qualquer país do mundo. Tudo isso faz parte da luta para vencer um inimigo, invisível a olho nu, o fungo aspergilus, que, estimulado pelo calor e a umidade, desenvolve-se na castanha contaminando sua amêndoa com o veneno da aflatoxínam, que causa câncer. Por isso as regras nacionais e internacionais de comércio da castanha estão cada vez mais rígidas. No último sábado, a secretária da Produção Familiar (Seprof), Denise Garrafiel, inaugurou no seringal Macapá o armazém construído para atender as 80 famílias da Associação Sorriso, à qual se chega entrando no ramal à esquerda no quilômetro 55 da rodovia Transacreana e seguindo mais uma hora de carro para chegar até a margem do Riozinho do Rôla. Investindo na produção O armazém da comunidade Sorriso foi construído com R$ 70 mil, financiados pelo Ministério da Agricultura através do Banco Nacional de Desenvolvimento social, e é um dos dez já construídos sob a coordenação do governo do Estado nos municípios de Brasiléia, Xapuri, Epitaciolândia, Sena Madureira, Assis Brasil, Rio Branco e Capixaba. Utilizando recursos do Ministério da Integração o governo do Estado pretende construir mais seis desses armazéns ainda neste ano. Já a prefeitura de Brasiléia usou recursos do Programa Nacional da Agricultura Familiar (Pronaf-Infraestrutura) para construir mais seis armazéns com capacidade para estocar 30 mil quilos de castanha, cada um. Enquanto o Sebrae defende junto à Agência de Desenvolvimento da Amazônia projeto para a construção de 37 armazéns individuais medindo 4 por 6 metros a fim de secar e armazenar r a produção de colocações vizinhas. Controle total A exemplo do que hoje acontece com a carne de gado, para a qual se exige a rastreabilidade, ou seja, a criação de um sistema que permita descobrir quem foi o produtor da carne que tiver dado algum tipo de problema, as novas regras internacionais e que estão sendo aplicadas também pelo Ministério da Agricultura, Produção e Abastecimento (Mapa) a partir deste ano exigem a rastreabilidade e o controle da qualidade da castanha que sai do Acre ou ela não encontrará mercado. Castanha da salvação
Premiado como o segundo melhor seringueiro do Macapá por ter conseguido extrair 700 quilos de borracha no anbo passado, Antônio José esclarece. “A borracha só remedeia porque nela trabalhei oito meses para ganhar R$ 1.400, já com a castanha trabalhei mês e meio e recebi R$ 1.280, essa deixa resultado, é a salvação do seringueiro”. O mundo quer castanha A castanha do Acre é considerado o alimento mais rico em fósforo, tem altas doses de selenium que reforça o sistema de defesa do organismo e evita o envelhecimento, vitamina E para estimular o crescimento das crianças, além do fato de ser o único alimento do mundo, além do ovo, que contém todos os aminoácidos essenciais, mas sem o colesterol do ovo. Essas são algumas das qualidades nutritivas e funcionais que fazem da castanha um produto desejado no mercado internacional. Mas há um porém que está prejudicando seu comércio como explica a secretária da Produção Familiar, Denise Garrafiel: “O ministério da Agricultura exige que a partir de 2006 seja apresentada a certificação de origem da castanha, por isso, se queremos continuar no mercado precisamos nos adaptar à novas regras. Para isso estamos orientando os seringueiros para que realizem boas práticas desde a colheita até nossos armazéns construídos nos seringais onde a castanha seca fica estocada até que chegue o verão para ser escoada”. Oferecendo a safra Com armazéns cheios de castanha e a fábrica pronta para entrar em funcionamento, Manoel explica que a Cooperacre já começou uma série de viagens de contato comercial para colocar sua produção no mercado nacional e internacional. “Estamos trabalhando em parceria com o Sebrae que nos orientou para conquistar o mercado brasileiro para que a gente não fique tão dependente das oscilações do mercado internacional. Fizemos uma primeira viagem a Mato Grosso onde o pessoal queria castanha para agora mesmo, fizemos contatos com outros estados e empresas internacionais e, então deixamos os negócios engatilhados para começarem a acontecer no ritmo de produção da fábrica. Para o ano que vem queremos descascar pelo menos 200 mi latas porque o mercado está esperando o produto de nossa floresta”. Cooperativa extrativista Manoel Monteiro de Oliveira é o superintendente da Cooperativa de Comercialização Extrativista do Estado do Acre (Cooperacre) acompanhou pessoalmente o primeiro embarque de castanha do armazém da Associação Sorriso no Seringal Macapá. Atuando em parceria com a associação, a cooperativa comprou 20 mil latas de castanha, das quais 5 mil já haviam sido escoadas durante o inverno pelo riozinho do Rola. “Este armazém e a abertura do ramal para o caminhão poder chegar até aqui permitiu que a gente baixasse o custo do transporte de R$ 1,50 a lata para apenas R$ 0,50 e essa diferença está sendo repassada aos seringueiros. Tanto que aqui nós compramos a castanha a um preço médio de R$ 12,50 a lata”, explicou Manoel. A cooperativa que recebeu no mês passado do governo do Estado a concessão para tocar a fábrica de castanha de Brasiléia, administra ainda quatro armazéns através dos quais foram compradas mais de 120 mil latas de castanha neste ano. A compra foi feita com R$ 1,2 milhão da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). “Nós temos até 30 de outubro para devolver o dinheiro emprestado da Conab, mas como vendemos 60 mil latas de castanha para usinas da Bolívia, já temos R$ 1 milhão em caixa e vamos pagar antes do tempo porque assim poderemos receber novos empréstimos para comprar produtos como sementes, copaíba e outros extraídos da floresta”, garante Manoel. Depois da venda, a cooperativa ainda tem três armazéns cheios de castanha que serão descascadas na fábrica de Brasiléia que deve entrar em funcionamento até o final deste mês de julho. “Já devíamos estar trabalhando, como pegamos o a fábrica a apenas um mês, ainda não chegaram as embalagens para colocar a castanha descascada”. A fábrica vai iniciar com 20 quebradeiras e a previsão é de que consigam descascar as 60 mil latas restantes até novembro. Para isso, cada uma delas terá de trincar a casca de pelo menos 60 quilos do produto. “Antigamente as mulheres tinham de quebrar e retirar as amêndoas da casca, agora elas só tem de trincas a casca, o restante é feito em máquinas automáticas, o que apressa em muito o serviço”. Quanto aos armazéns construídos pelo governo, Manoel declarou : “Nossa castanha é um produto valorizado no mundo inteiro, mas perdeu muito mercado por causa dessa aflatoxína. Com estes armazéns elas ficam estocadas em ambiente arejado e limpo garantindo sua qualidade além de reduzir muito as perdas. Ou seja, não entendo porque os governantes de nosso Estado nunca tinham investido na nossa castanha, porque com isso o Acre só tem a ganhar”. Produção caiu Chegando ao Acre ainda menino para acompanhar o pai que veio do Amazonas para cortar borracha no Acre, Manoel Margarido Barbosa da Silva, 64 anos e 23 filhos, vagou pelos seringais do Yaco, Macauã e Purus até assentar morada, há 22 anos, na colocação Dois de Ouro, seringal Macapá onde continua a cortar borracha e coletar a castanha. “A vida no seringal é dificultosa, mas a gente gosta, quase todos os meus 23 filhos formaram família e vivem aqui no seringal cortando borracha e colhendo castanha”. Seu relato segue descrevendo o dia a dia: “Neste ano colhi só 360 latas, devia ter sido mais de 400, mas a produção foi menor, principalmente nas áreas onde o fogo correu por baixo da mata. Ali morreram muitas seringueiras e a castanheiras deixaram cair os ouriços ainda pequenos, outros ouriços seguraram, mas deram castanha chocha. A seca e aquele fogo terrível prejudicaram muito a mata”. Em sua colocação que tem 12 estradas de seringa, Manoel conta com mais quatro ajudantes que trabalham de abril a novembro no corte da borracha. Produzem uma média de 1.500 a 2.000 quilos de borracha que no ano passado lhe renderam pouco mais de R$ 3 mil, enquanto as 360 latas de castanha colhidas em um mês renderam R$ 3.600. “A castanha dá mais dinheiro porque dá menos trabalho, com ela a gente tira num mês, mais dinheiro do que trabalhando o ano inteiro na borracha”, esclarece. Aldenora de Souza Oliveira, 27 anos, mãe de uma filha é uma dessas mulheres valentes que se embrenham pela floresta cortando borracha e coletando castanha, mas em sua colocação não há castanheiras, por isso se obriga a colher de meia nas colocações dos outros. “Neste ano nós conseguimos quebrar 315 latas de castanha, ficamos com 156, vendemos 80 a R$ 15,50 e 76 a R$ 17,00. No resto do ano trabalho eu mais meu marido no rolado e nas quatro estradas de seringa onde colhemos 400 quilos de borracha. A borracha dá muito trabalho e pouco dinheiro, na castanha o trabalho é bem ligeiro e o dinheiro compensa”. Além do roçado, dos porcos e galinhas do quintal, o xodó de Aldenora é a vaca que comprou já prenhe e que lhe rendeu bezerros gêmeos. “Ela é uma lindeza, troquei os dois bezerros num tourinho para enxertar ela, pois já perdi dois cios porque não tinha touro. A gente precisa do gado para ter leite, ajudar no serviço e, de qualquer jeito é mais um recurso na hora que precisar de dinheiro”. Nascido e criado no seringal Macapá, o seringueiro Hermando Teixeira da Silva, 46 anos, pai de cinco filhos, é o presidente da Associação Sorriso. “Este armazém é um benefício muito grande que o governo fez pra gente. Gerou emprego para quatro pessoas durante três meses com a vantagem de que agora as famílias não tem que ir pra cidade levar sua produção que é vendida aqui mesmo com pagamento a vista”. Já o seringueiro Jean de Souza, 21 anos morador da colocação Limão, além de vender sua castanha ainda conseguiu um dinheiro a mais trabalhando como carregador de caminhão para a Cooperacre. “A gente está recebendo R$ 25 por dia para carregar os caminhões. Aqui no seringal, quando aparece algum serviço, não tem um que dê uma diária dessas. Como a borracha não dá grande coisa, a gente se obriga a ir trabalhar 15, 20 dias por mês nas fazendas da região, pega o dinheiro e volta cuidar da família na colocação. Assim a gente vai levando”. |
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