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A organização que transforma sociedades Família, trabalho, religião e apoio público mudam o dia-a-dia das famílias que vivem no Riozinho do Rôla |
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O nome “Sorriso” vem da origem da associação: “Tinha muita mulher quando da fundação e decidimos dar o nome de sorriso em homenagem a elas. Foram as mulheres que fundaram esta associação¨, relata Hermando Teixeira, presidente e líder da comunidade que viveu anos e anos no abandono e no mais completo isolamento, sofrendo com doenças como leishmaniose e a omissão generalizada do poder público. No começo dos anos 90, no entanto, a aproximação do Estado elevou a auto-estima da comunidade, conduzindo-a para reuniões e encontros que resultaram na criação de uma associação que se destaca: não faz muito tempo os moradores se organizaram e pediram um local para que as crianças pudessem estudar e o governo deu o material e a escola foi construída. Em seguida, a Secretaria de Educação remanejou, a pedido, o professor Raimundo Nonato da Silva Souza, conhecido como “Poeta”, o qual hoje tem dois outros colegas trabalhando diretamente na educação de crianças e jovens desde a primeira até a oitava série. Esse é um exemplo de organização. “Tenho aluno que caminha três horas e meia da colocação até aqui”, conta Arilson Leonel dos Santos, professor do turno da tarde e do programa Asas da Florestania na Escola Estadual Água Viva. Atualmente, os moradores construíram uma cabana improvisada que serve como sala de aula externa até que seja feita a ampliação da escola, obra anunciada recentemente pela Secretaria de Educação. No princípio, no fim dos anos 90, o Governo da Floresta enviou o extensionista Oderval José de Almeida Cavalcante, da Secretaria de Assistência Técnica e Produção Familiar (Seaprof), para apoiar a organização dos trabalhadores na região do Riozinho do Rôla. Orientando os extrativistas, Oderval ajudou na fundação de sete associações, sendo que algumas sucumbiram por falta de gerenciamento e organização comunitária. A Sorriso baseou-se na família, no trabalho e na forte religiosidade do povo para organizar-se e lutar pela melhoria de vida dos associados. Hoje, sete anos depois, o patrimônio da associação revela que o apoio do governo trouxe resultados. “Apenas com o dinheiro da mensalidade dos associados conseguimos comprar material completo para um galpão que será usado como local de reuniões e alojamento; e já temos quatro barcos - de 6,4, duas e uma tonelada - para o transporte da castanha desde as colocações até o armazém”, afirma Hermando. “Sem a família, jamais teríamos conseguido.” No ano passado, um único extrativista recebeu R$ 21 mil em dinheiro vivo da associação pela venda de castanha. No total, 80 dos 130 associados coletam castanha. A Sorriso vende para a Cooperativa Central do Acre (Cooperacre), de Rio Branco, que considera a castanha produzida no Riozinho do Rôla de excelente qualidade. O sentimento familiar há três anos vem sendo externado sempre no Dia da Criança, 12 de outubro, quando a comunidade festeja sua padroeira, Nossa Senhora da Aparecida. Sem cachaçada, a festa é marcada por torneio de futebol e muita comida. O ponto alto é o sorteio de novilhas dos padrinhos para os afilhados. Luz, telefone e saúde: estrutura vai chegando Os moradores lamentam que o Luz Para Todos ainda não tenha chegado com sua rede elétrica até a comunidade, mas ninguém cruzou os braços por causa disso. Muitos compraram placa solar e ao menos têm televisão com antena parabólica e duas ou três lâmpadas para clarear a casa à noite. Outros, devido à relativa proximidade com Rio Branco, captam sinal de telefone celular com uma antena. O conforto, ainda que pequeno, não descuida ações de saúde, reforçadas sempre pelo Saúde Itinerante, o programa que leva médicos às comunidades mais distantes do Acre. “Aqui não deixamos de tratar a água com hipoclorito”, afirma a esposa de Hermando, Geana, lembrando que essa é uma prática comum às famílias. Esse tipo de cuidado provocou uma derrocada em várias doenças. Outras ações derrubaram drasticamente a incidência da ferida braba, que assolava a região até pouco tempo. Armazenamento e ramais, os caminhos da redenção O apoio do governo veio com um conjunto de ações criando as bases para o desenvolvimento da comunidade. Até três anos passados, o escoamento da produção era feito exclusivamente pelo rio, algo nem sempre lucrativo devido à demora das viagens. “Carregado, o barco levava dez dias ou mais para chegar a Rio Branco”, conta Hermando. O extensionista Oderval propôs então a abertura da mata em alguns quilômetros para encurtar a ligação da Colocação Iracema, a sede da Sorriso, ao ramal Liberdade, que liga à Estrada Transacreana. O que era uma picada pela qual se transitava apenas em lombo de animal virou uma coletora por onde passarão, nos próximos dias, nada menos que mais de duzentas toneladas de castanha. “A castanha fica estocada no armazém construído pelo governo até a chegada do verão, quando o ramal é reaberto”, disse Oderval. Ramal e armazém elevaram a produção de castanha, que saltou de pouco mais de 13 mil latas em 2005 para 20.202 em 2006. Este ano o estoque é de 20.209 latas. Alguns extrativistas receberam R$ 18 pela lata, mas em geral o preço variou de R$ 14 a R$ 15 na safra passada. “Temos laudo atestando que essa é a melhor castanha do Brasil”, sustenta Hermando. Pode ser exagero, mas a manutenção da floresta primária, segundo ele, faz o diferencial. “Nesse sentido, as pessoas estão muito conscientes de que eles vivem dessa atividade e precisam da floresta”, observa Oderval, técnico agrícola formado no interior de São Paulo que há 16 anos trabalha na Seaprof. Problemas superados na luta diária Ainda forte na região, a borracha vive dias incertos. A extração é cada ano menor em decorrência de vários fatores, mas o produto ainda guarda grande importância econômica na região do Riozinho. Os filiados da Associação Vai-se-Ver I, no ramal Cachoeira, por exemplo, comemoram a reabertura da coletora pela qual irão escoar cerca de cinco toneladas de borracha in natura nos próximos dias. Com o subsídio estadual, os agricultores receberão R$ 2,40 pelo quilo dessa borracha, valor considerado bom pelo presidente da associação, Jorgenilson Nogueira da Costa. Isso tudo, de acordo com o técnico Oderval, tem um pano de fundo. “A organização é a base”, diz. Essa organização levou o Sebrae a apresentar um projeto para que as comunidades adjacentes tenham miniarmazéns de castanha, o que trará muito melhor condição de escoamento e comercialização. Por isso mesmo a luta dessas comunidades continua. O professor Raimundo, o Poeta, apresenta o casamento precoce e as distâncias como responsáveis pela redução da freqüência escolar. “Estamos buscando soluções”, garante Poeta, que leva o apelido porque é escritor de cordéis. Além de professor, ele é tesoureiro da Associação Sorriso e estuda Letras através do programa de formação superior mantido pelo governo e a Universidade Federal do Acre. “Os problemas são muitos mas vamos lutando e vencendo um a um. Se Deus quiser.” |
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