OPINIÃO
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Raimundo Ferreira de Souza *

 

“Mais escolado que burro de comboieiro”

Na época do funcionamento e comércio intenso dos seringais nativos, o único meio de transporte no interior da selva, através dos estreitos varadouros, transportando mercadoria para os seringueiros (sistema de aviamento) e borracha para os patrões era os comboios de burros. Esse sistema de transporte era comandado por dois ou três homens, dependendo da quantidade de burros, denominados de comboieiros, que dominavam a tropa montados em animais adestrados, denominados burros de sela.

Esses animais escolhidos para montaria, além do porte físico destacado, eram treinados para caminharem com passo diferenciado (“marchar”), de forma a proporcionar maior conforto para o cavalheiro. No entanto, além do treinamento para melhorar o desempenhar no trabalho, em alguns casos, eles aprendiam também um pouco de esperteza para se livrar do trabalho.

Próximo ao final do mês, um empregado do patrão, denominado de noteiro, entrava montado em um burro e percorria todas as colocações do seringal, anotando as mercadorias que os seringueiros estavam necessitando. Depois de alguns dias, o comboio saia do barracão conduzindo as mercadorias que os seringueiros haviam solicitado e na volta traziam as borrachas que eles haviam produzido.

Para fazer essa viagem de ida e volta, até o final das “linhas” (varadouros que passa por várias “colocações”), as vezes, o comboio demora dois dias e, nessa noite que dorme na colocação do seringueiro, não existe muitas condições de pastagens, locais cercados para acomodar e garantir a segurança da tropa, entre outras deficiências, ai, se faz necessário tomar algumas precauções para manter os burros reunidos e na manhã seguinte, no momento de juntar os animais para seguir viagem, não haver transtorno, ou seja, não está faltando algum burro, não haver lesão em algum animal etc.

Para amenizar essas questões, a primeira providência consiste em fazer uma barreira com várias árvores de espessura média na saída do varadouro por onde comboio veio, pois, a primeira tentativa de fuga dos animais após soltos, é tentar retornar; outra é procurar vedar, também com madeira, todas as bocas de caminhos que saem da casa do seringueiro (colocação). Feito isso, os comboieiros se acomodam para repousar, porém, atentos a qualquer movimentação estranha da tropa.

Muito cedo do dia seguinte, os primeiros burros a serem pegos são os de sela, pois, boa parte dos outros são pegos pelos comboieiros utilizando a montaria. Para facilitar essa localização dos burros mais importantes para o trabalho, os homens do comando, no dia anterior, antes de soltar o seu animal de sela, colocam o guiso no pescoço, pois dessa forma, onde ele estiver pastando será facilmente localizado pelo tilintar da sineta.

No entanto, os muares condutores desses sinalizadores, que são burros, mas, não são bobos, logo, logo, percebem que se mexerem as sinetas, serão localizados com facilidade e isso implica no inicio do trabalho. Assim sendo, eles passam a noite inteira pastando e mexendo a cabeça normalmente, tilintando a sineta a vontade, no entanto, ao amanhecer, quando se aproxima a hora do comboieiro lhe pegar para o serviço, ele se esconde atrás de uma moita e fica mexendo apenas a calda para espantar os mosquitos, mas a cabeça, fica mais parada que estátua de praça pública.

Existem então um ditado popular no “meio seringueiro”, objetivando “tirar sarro” ou fazer “gozação” das pessoas que sempre procuram levar vantagens sobre as outras, que afirma: Fulano é mais escolado que burro de comboieiro.

 

 
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Rio Branco-AC, 11 de agosto de 2004
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