| OPINIÃO | ||
| CRÔNICA | ||
Stella Galvão |
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Sob controle Ele se julgava calmíssimo, uma pessoa muito controlada e sem rompantes. Fazia disso uma bandeira pessoal e se dedicava diariamente a trazer alguma paz aos que o cercavam. Podia ser em casa, com mulher, filhos e cachorros, no trabalho, com os subordinados, o diretor e o pessoal da portaria e até mesmo no trânsito, onde respondia com sorrisos cordiais ao gesto obsceno de algum motorista. Essa cruzada tinha raízes na infância do nosso herói, quando ele tinha sido fã incondicional de um seriado no estilo Nacional Kid cujo personagem, meio zen, meio alternativo, repetia todas as manhãs: “a minha paz é a sua”. Sentia, porém, que precisava fazer mais, especialmente nesses tempos de violência urbana, estresse generalizado, descontrole emocional. Não bastava espalhar pílulas de sabedoria e gotículas de bom senso entre os mais próximos. Urgia tomar providências enérgicas, mas com calma, é claro. Virou o tema preferido no jantar, em frente à TV, no almoço com os colegas de trabalho e até na cama. A mulher e os filhos davam de ombros e o deixavam sozinho, fartos de ouvir o plano grandioso do homem calmo. Na empresa, sempre que ele se dirigia ao café havia uma escapada geral. Era o excesso pacificador em figura de gente e já despertava raiva, tremenda incoerência. Um dia, esse d. Quixote de tempos coléricos descobriu, a caminho do escritório, uma praça com capim alto e sinais de abandono. Não pensou duas vezes. Muitas petições à prefeitura depois, recebeu autorização para usar o espaço público para fundar um grupo novo, dos Descontrolados Anônimos. Lançou-se com disposição à tarefa de reunir voluntários, gente disposta a reeducar os loucamente ansiosos e estressados. Psicólogos, terapeutas corporais, e professores de ginástica acorreram diante da promessa de ganhar o horário nobre pelo ineditismo da experiência. Distribuiu papeletas de convocação, deu entrevista a rádios. No dia marcado para a primeira reunião, um sábado ensolarado, ele chegou bem cedo à praça com várias mantas arrematadas na véspera em uma liquidação. Seria ali, bem debaixo daquela claridade, que os descontrolados assumiriam as rédeas do auto-controle. As crianças da vizinhança já estavam a postos, como os cachorros vira-latas das redondezas. Nenhum terapeuta apareceu, nenhum movimento de tai chi chuan foi sequer ensaiado. Nesse momento ele se deu conta. Muitos anos perdidos com uma bandeira esfarrapada. Então ele se deu o direito de explodir, e gritou a plenos pulmões, assustando e afastando os curiosos que já se amontoavam. Correu gritando a praça inteira e saiu dali com a alma mais leve. |
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