| OPINIÃO | ||
| MIOLO DE POTE | ||
Marcos Vinícius Neves |
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Rumos da Arqueologia Acreana Neste dia 12 de novembro, a coluna Miolo de Pote completa um ano. Por isso, a edição de hoje é especial e faz um balanço dos atuais desafios da história, da arqueologia e do turismo cultural no Acre Países amazônicos debatem o turismo arqueológico O I Seminário Internacional de Gestão do Patrimônio Arqueológico Pan-Amazônico, promovido pelo IPHAN-MinC (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), aconteceu em Manaus, no período de 05 a 09 de novembro, reunindo autoridades governamentais e pesquisadores da Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Peru e Brasil. Reconhecendo a importância da participação acreana no debate, estiveram presentes no seminário Dra. Sueli Melo, chefe do Departamento de Patrimônio Histórico da FEM, e o historiador e arqueólogo Marcos Vinícius Neves, que foi relator da sessão temática sobre Turismo Arqueológico e Socialização de Sítios e ministrou palestra sobre o assunto. De acordo com o historiador, o Acre, por sua característica trajetória histórica e cultural, é uma região diferenciada da Amazônia. “No Acre a principal modalidade de turismo a ser desenvolvida é o turismo cultural, e não o ambiental ou paisagístico como em outras regiões amazônicas. Assim, é preciso atentar para as especificidades regionais das diferentes Amazônias na definição de diretrizes para as políticas públicas. Estas devem ser direcionadas pela realidade sócio-cultural de cada região e não o contrário. Felizmente o turismo no Acre está apenas iniciando, o que possibilita que possamos evitar muitos erros que já foram cometidos em outros lugares”. Além disso, Marcos Vinicius deixou claro em sua palestra que “todas as vezes que se tentou implementar no Acre investimentos e políticas estabelecidas de fora para dentro, os resultados foram desastrosos, a exemplo da crise dos anos 70 e 80 que resultou no assassinato de Chico Mendes e de outras lideranças locais. Por isso o turismo arqueológico no Acre deve ser definido de dentro para fora, a partir da ótica de suas comunidades tradicionais e não determinado apenas pela poderosa Industria do Turismo.” Corroborando essa visão acerca da arqueologia acreana, muitos arqueólogos brasileiros e estrangeiros expressaram sua preocupação uma vez que o turismo é, muitas vezes, um dos maiores fatores de destruição de sítios arqueológicos. Por outro lado, se conduzido de forma responsável, o turismo pode se constituir em uma grande oportunidade de desenvolver a sustentabilidade dos sítios e das comunidades de seu entorno, sendo fundamental para que isso ocorra associar o turismo arqueológico e a educação patrimonial. (XL)
Perspectivas da arqueologia acreana Apesar da pesquisa arqueológica no Acre ter se iniciado no final da década de 70, existem ainda grandes lacunas que devem orientar os próximos passos dos pesquisadores na região. Enquanto as pesquisas realizadas pelo IAB (Instituto de Arqueologia Brasileira) no âmbito do PRONAPABA (Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas na Bacia Amazônica) cobriram diversos vales acreanos, muitos deles tiveram apenas uma pequena parte do curso dos rios pesquisados, que foi o caso dos rios Purus, Iaco, Tarauacá e Juruá. Enquanto que em outros vales nenhuma pesquisa foi até hoje realizada, situação dos rios Muru, Jordão, Xapuri, entre outros. Por outro lado, nos últimos anos, toda a divulgação e pesquisa tem sido direcionada para os sítios geométricos (também chamados de geoglífos) que se constituem apenas num tipo de sítio arqueológico dentre muitos outros presentes no estado do Acre. Nesta semana mesmo, por exemplo, foi noticiada a descoberta de dois importantes sítios com urnas funerárias próximos de Cruzeiro do Sul, revelando a grande riqueza e diversidade da pré-história local. Para promover avanços consistentes no campo da pesquisa arqueológica no Acre é necessária, portanto, a construção de um Plano de Arqueologia para o estado. Estabelecer um zoneamento delimitando áreas prioritárias para conter a destruição de sítios é tão importante quanto à definição das áreas com pouca ou nenhuma pesquisa que deve servir para direcionar os novos projetos a serem desenvolvidos. Além disso, é preciso levar em consideração ainda que o Acre é uma região de fronteira, impondo outros desafios que também precisam ser superados. Afinal, as fronteiras políticas estabelecidas pela história recente não correspondem às fronteiras culturais da pré-história regional. Culturas identificadas nos sítios arqueológicos do Acre possuem relações com culturas pré-históricas de outros estados e países, como no caso dos sítios geométricos. Isso demonstra claramente a necessidade de promover ações conjuntas com pesquisadores da Bolívia e do Peru, além é claro de Rondônia e do Amazonas. Para tanto, será necessário estimular a atuação de diversas equipes de pesquisa no Acre nos próximos anos. Outra questão muito relevante diz respeito à atuação do Iphan no Acre. Até muito recentemente este órgão federal (ligado ao Ministério da Cultura) encarregado de monitorar, controlar e conservar os sítios arqueológicos era um ilustre ausente no Acre. Cabia a 1ª Superintendência Regional do Iphan situada em Manaus cuidar do Amazonas, Acre, Rondônia e Roraima. O que, evidentemente, se mostrou impossível, por mais boa vontade que os gestores do Iphan tivessem. Esta situação só começou a mudar com a ênfase dada pelo governo do Acre, a partir de 1999, sobre a proteção e a promoção do patrimônio histórico e cultural local. As ações estaduais alavancaram parcerias com o Iphan, como foi o caso do seringal Bom Destino, mas continuavam insuficientes para dar conta da demanda crescente. Por isso em fevereiro de 2005 foi, finalmente, instalada no Acre uma representação do Iphan. Entretanto, de forma incompreensível, essa representação no Acre não se constituiu em uma Superintendência autônoma, mas numa sub-regional ligada à Superintendência de Rondônia. Curiosamente - 101 anos depois da criação do Território Federal do Acre que negou aos acreanos o direito a autonomia política e, portanto, ao pleno exercício de sua cidadania – o governo federal voltou a considerar o Acre indigno de receber a mesma atenção que os outros estados brasileiros, relegando-o a condição de um estado tutelado. Importante esclarecer que outros cinco estados brasileiros também foram submetidos a essa condição de descaso e desrespeito: Tocantins, Mato Grosso, Rio Grande do Norte, Roraima e Amapá. Talvez não por acaso, todos estados do norte e nordeste brasileiros, enquanto que o sul e o sudeste seguem recebendo o grosso dos investimentos públicos na área de patrimônio histórico, arquitetônico, artístico ou arqueológico. Esta é uma situação aberrante que precisa ser urgentemente superada. Só com o Iphan verdadeiramente instalado no Acre, através de uma Superintendência autônoma, será possível exercer efetiva fiscalização dos sítios arqueológicos e assim impor as punições previstas pela lei contra os que cometem danos contra nosso patrimônio arqueológico. Além disso, os benefícios advindos do fortalecimento do Iphan no Acre vão muito além das questões que dizem respeito à Arqueologia. Só com uma Superintendência do Iphan instalada aqui no estado, poderemos estabelecer as condições básicas essenciais para a proteção, não apenas de nossos sítios arqueológicos, mas de todo o vasto patrimônio material e imaterial acreano. (MV-XL) Notas avulsas sobre o tempo De miolos e de potes Para quem não leu o primeiro artigo publicado nesta coluna no dia 12 de novembro de 2006, um esclarecimento necessário: esta coluna possui o singular nome de “Miolo de Pote” por uma sugestão do grande “tituleiro” Toinho Alves, que vendo meu desespero para achar um nome adequado, sugeriu algo no rumo de Botija... (lembrando da lenda da botija de ouro enterrada que já encantou tantos seringueiros e ribeirinhos no Acre interior) e foi apenas questão de tempo para chegarmos ao Miolo de Pote, que em bom acreanês significa papo furado, conversa à toa, prestando-se ao objetivo de dar um caráter informal e despretensioso à coluna. Por outro lado, em bom arqueologuês, é no miolo (interior) do pote de cerâmica fabricado pelas culturas ancestrais que os arqueólogos encontram muitos vestígios (ossos, oferendas e adornos) reveladores das histórias que não estão contadas em nenhum documento escrito, constituindo-se em um dos vestígios mais importantes para a reconstituição pré-histórica. Um título que de forma indireta esclarece o foco principal da coluna que é o de traduzir para o grande público os aspectos mais controversos ou desconhecidos dessa ciência tão pouco corretamente difundida que é a arqueologia. Mas não só. Com o tempo, a coluna trouxe também artigos sobre histórias e lendas diversas que circulam nas memórias acreanas, além de ficções históricas construídas de modo a esclarecer aspectos pouco conhecidos dessa história, que se estende muito além dos últimos 150 anos de trajetória regional, e só pode ser compreendida através do conhecimento da milenar construção de uma característica identidade cultural no Acre. Ciúme e avareza Conta Levi Strauss, em um de seus livros clássicos chamado “A Oleira Ciumenta”, que de norte a sul das Américas multiplicam-se mitos e lendas acerca da fabricação de cerâmica que sempre conferem às mulheres ceramistas a nobre qualidade do ciúme. Do mesmo modo podemos encontrar também, nas narrativas míticas das oleiras, a presença de um pássaro noturno que ocorre em toda a América, entre outros elementos que revelam a recorrência de estruturas mentais básicas em regiões muito extensas. Através desses exemplos Levi Strauss afirma os conceitos centrais do estruturalismo. Lembrei-me então do mito Apurinã de surgimento da cerâmica que ouvi na Aldeia Kamicuã (Boca do Acre) dando conta do dia em que toda a aldeia revoltada pela extrema avareza de um velho resolveu castiga-lo pendurando-o no alto das arvores no exato momento em que se iniciava uma tempestade. E as arvores balançaram tão intensamente com a ventania que fizeram explodir o velho avarento em mil pedaços que se espalharam sobre toda a terra. Cada pedaço do velho avarento se transformou então na argila propícia para a fabricação da cerâmica, o que explica porque esse tipo especial de argila só aparece em pequenas porções. E da mesma forma que a mulher através de sua arte transforma terra, água e fogo em um produto de sua cultura (a cerâmica), é através da cultura que podemos transformar as piores qualidades humanas em algo que traga verdadeiros benefícios a todos. Como tento fazer na coluna “Miolo de Pote”, em uma ação nada estruturalista. Um ano e quarenta artigos depois... Como o tempo passa rápido. Um ano já! Nem parece. Afinal, assim são as coisas que dão prazer, seja um bom livro, um bom filme ou uma boa viagem. Quando abrimos os olhos o tempo passou ligeiro e nem nos demos conta. Com isso não quero ser pretensioso a ponto de achar que a coluna Miolo de Pote tenha sido algo tão excepcional assim. Apenas estou dizendo que me deu muito prazer voltar a escrever no jornal. Se é certo que dá trabalho (perdi o direito às manhãs de sábado há exatamente um ano), é certo também que o retorno é muito legal. Tanto na forma dos muitos e-mails que recebi com sugestões ou avaliações sobre os artigos publicados, seja em forma de comentários casuais nas esquinas da cidade. É impressionante o alcance que um jornal pode ter nesses novos tempos de internet (apesar de todos os perigos). Recebi correspondências até de Portugal, por parte de saudosos brasileiros que por lá vivem suspirando de saudade de nossa tropical e inigualável terra. E a todos esses leitores que se manifestaram, mas também aqueles que silenciosamente acompanharam a coluna durante este primeiro ano e exatos quarenta artigos, agradeço de coração. (MV) |
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