OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Augusto Fontes

 


Pescador de segredos

Ela não apontava o olhar para o pescador, seus olhos viajavam pelo céu, pelas águas largas, pelas matas de toda a moldura. O conjunto criava essa tarde amazônica exclusiva. Isso não era possível penetrar, ninguém poderia apossar a criação, essa tarde não poderia ocorrer em outro lugar, em outro dia, em outras vidas. Nem esse momento caberia em outra tarde. Só era possível percorrer, navegar, sentir. Enquanto isso, a canoa dava a proa ao vento que desfilava descalço, ao vento que indefinia os limites do instante. Sol sem arrodeios, espalhadas águas, fundas intenções. O vento que traz a mulher, desvia o calor. O vento que transporta o pensamento contagia o prazer, contagia a atitude de apreciar, apenas apreciar e imaginar, ao menos, enquanto o lado escuro da noite não vem ao encontro da isca.

Dentro da segunda moldura, os olhos da mulher viajavam para a paisagem, para águas e matas, para coisas além do pescador e do céu. Mas nem tudo era criação imponderável e é sempre possível fantasiar, adiante do verbo, dando uma mão à ilusão outra à mentira. Dando o verbo à vontade, o afastamento ao prazer, a viagem à chegada, em cujo destino reside a certeza da conquista, porque a noite, como em todos os outros dias, seria inevitável. E com ela, a beleza do grito, o prazer do silêncio seguinte. Foi assim. Toda a pintura, todo o tempo decorrido até a noite, tudo o que foi visto e sentido, tudo o que não foi dito, os peixes pescados, os mistérios abandonados, a isca que enfeitou o laço, tudo só servia para justificar o momento em que ela entregaria o beijo, abraçaria o corpo, revelaria o segredo do momento pescado.

Era uma pescaria que daria rumos aos peixes e às vidas, ao menos na noite próxima, no dia imediato Ela sabia que se entregaria ao laço ou ao anzol. E antes de dar-se ao lobo, dava-se ao que havia ao redor, sem sair do território dele, que é o mesmo do dia, enquanto a noite não vem, enquanto o lobo não saía de dentro do pescador . Enquanto isso, era ainda apreciar e sentir, deixar-se fisgar pela pintura do lugar, pelo contexto, por todas as cores e cheiros, por tanta água e mata, no mesmo banzeiro. A lua e a solidão, tensas e ternas, poderiam esperar pela noite, intenção posterior do pescador, para pescar o segredo e dar o laço com a isca ao gesto comprido desenhado na castanheira que definia a margem próxima do rio, nossa margem e porto seguinte, a estação definitiva da fisgada evidente que vararia aquela noite.

Pescar é esperar, deixando sempre visível a isca, deixando sempre oculta a fatalidade, deixando guardado o destino. Ela, a mulher, seguia viajando olhares para adiante do perto, para depois das águas, em outra profundidade. Aguardava e olhava. Longe da margem, longe de algum segredo afogado, as iscas só se davam ao rio e a mulher despedia-se da tarde que partia em rumo imprevisível. A tarde ia e ela não ficava em mim, que era ainda detalhe da paisagem próxima, por onde ela passava para navegar além, enquanto não se dava ao destino conhecido. A noite guardava-se para pescar o encanto das matas, dos rios, dos botos. E encantado, o pescador fisgaria a moça, dentro do segredo que os botos fingiam não saber, enquanto passavam à frente do barco resignado. Ainda quentes, os corpos subiam o barranco.

Pescar é fisgar, o ferro penetra, o corpo se retorce, agoniza, luta, dá saltos, há um movimento intenso que depois vai perdendo o ritmo, os olhos vão ficando revirados, há um visgo, há um esporão, a carne cede, tudo relaxa, o ferro é retirado, o corpo descansa, vai ficando sereno, inerte, assim saciado. Tudo dá prazer de castanheira ao pescador. A mulher já não era apenas olhar e esperar. Sem entregar-se à noite nem ao sereno, saiu do remanso e entrou no banzeiro, queria saciar o sentir e deu nova definição ao amor. Queria mais, queria o rio, queria continuar, estando no lugar, renovar o ciclo, viajar para longe, estando entre as margens de sempre. E assim foi. Entrou castanheira e saiu seringueira. Por entre as margens escorreu o látex. Com um grito, a mulher fez-se pescadora, fisgou o sentimento. E do grito fez-se o amor.

 

 

 
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Rio Branco-AC, 12 de março de 2006
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