| OPINIÃO | ||
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José Cláudio Mota Porfiro * |
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De outrora lembrava um tempo em que retirantes de todas as áridas plagas, morrendo de sede, acorriam rumo à capital em busca de ar, água, vida, sobrevida, morte e vida... Ânsia de ir e não voltar. Vontade extrema de vir e ficar, aqui, sorvendo o ar adocicado da mata levemente cortada por rios caudalosos, lindos, como se um pintor clássico em tênues pincéis houvesse caprichado tanto. Deus! E como gostaram do cheiro verde que se esparrama a partir da árvore de onde jorra o látex que criou a mim e toda a raça lá de casa. Os ancestrais vieram do alto sertão do Brejo Santo, ali não tão perto da Meruoca, onde o homem nasce macho e o carcará bota quebranto no cavalo velho, para que morra logo e lhe mate a fome aquilina. Arrastaram-se por dias e findaram por subir altitude impressionante. Era o Baturité. Lá em cima da serra, tudo era verdejante e fazia um friozinho bom demais. Arrearam as tralhas poucas e rotas, beberam água limpa que há muito não viam e, de tardezinha, observaram nuvens e depois chuva... E tome-lhe chuva! Então, ergueram moradias, fizeram filhos e ficaram abastados em fins do século dezenove. E ali Maria nasceu, no Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1896. E a vida já era boa. Poucos anos mais tarde, em 1906, aos dez anos, Maria arranjou um tal que lhe queria por esposa. Ela o queria, mas a família, já arrogante, o tinha por gente de pouca ou nenhuma qualidade. E haja encrenca. Certo é que, por causa da discórdia, veio com a mãe, o pai e um irmão, José, para Belém do Pará, onde se fixaram até 1911. No ano seguinte, houveram por bem partir rumo ao desconhecido da floresta densa, em busca de nova fortuna, visto que no Ceará haviam deixado o que tinham aos cuidados de tios e primos inescrupulosos - os Mota - depois tornados senadores e governadores de lá... E arribaram para o Acre. Para cá trouxeram, sim, dignidade, vergonha na cara e vontade de trabalhar. De Belém, Maria tinha pouca lembrança. Contou-me que, em certa ocasião, já garota comprida, vinha dos primeiros dias na escola, com um bando de crianças menores, ao que alguém disse que parecia ela ser a mãe do grupo. Envergonhada, nunca mais estudou. Não aprendeu a ler. Depois, numa noite, entraram em um navio, no Cais do Ver-o-Peso. Zarparam. E as luzes da cidade brilhante foram ficando cada vez menores e cada vez piscando mais, até desaparecerem sob o manto da escuridão. Disseram ao pai que, em Xapuri do Acre, moravam uns turcos e uns portugueses, bons empregadores, principalmente de mão-de-obra barata. Aqui chegaram em janeiro de 1912. Na atual Rua 24 de Janeiro, Zé Calixto, o pai, construiu um barracão imenso, de mais ou menos cinqüenta de frente por uns treze de fundos, paralelo ao passeio público, com a ajuda de Maria, a mãe. Depois, dividiu-o em cinco casas de parede-e-meia, escolheu uma e vendeu as demais, a preço de banana, para outros sertanejos que cá chegavam para não morrer de fome. Um desses cearenses recém chegados era Arcelino, homem de quarenta anos que, em seguida, desposou Maria, de vinte e dois, em quem fez sete filhos. Aos sessenta anos, já fraquinho de tanto sol e chuva, morreu o marido, de pneumonia, ficaram os filhos e Maria, prontos para enfrentar as asperezas do destino. As três meninas mais velhas foram trabalhar numa usina de beneficiamento de castanha que havia na Batista de Moraes. Depois, a mais velha casou com um cearense de nome Vicente Ivenção. A do meio casou com outro cearense de nome Raimundo. E a mais nova esperou um pouco mais. Dos filhos homens de Maria, dois morreram de febres palustres, ainda crianças, o outro contraiu o tétano e um quarto a hepatite. Foram-se e ficaram as moças. Contava Maria que, no início da década de sessenta, havia em Xapuri um aspirante a prefeito chamado Jorge Kalume. Moço novo, rico, bonito, de idéias brilhantes e atitudes um tanto inconseqüentes, fez campanha política em estilo pesado. Um dia, Maria estava em sua máquina Longlife a costurar o presente e o futuro dos seus. Eis então que, numa tarde calorenta, chega à velha casa o candidato que, em tom autoritário, disse que precisava falar-lhe, ao que Maria, na sua infinita afoiteza cearense, sequer levantou os olhos, e continuou a trabalhar. Ela sempre quis votar no PTB de Getúlio mesmo sem conhecer uma letra do alfabeto. O moço era autoridade, se ofendeu e colocou o pé na pisadeira. De pronto, a máquina parou. E Maria, já com o sangue pelas ventas, levantou rapidamente e meteu a mão nos peitos do aspirante que foi parar no pé da parede, sentado. Agrício, um apaniguado, ajudou-o a levantar-se. À noite, Sabiá, um menino de nome João, a mando do candidato, veio soltar rojões que batiam na parede frontal da casa de Maria. Um desrespeito pra quem veio do Ceará e não gosta de desaforo. Maria, então, pegou de um terçado e saiu correndo pela rua atrás do moleque que se enfiou em baixo das saias de Maria Meira, madrinha do sacana. Esta, ao saber do acontecido, aplicou-lhe uma sova da qual ele jamais se esqueceu. E Maria já se foi, mas não deveria ter ido, em vista de tantos exemplos de vida e persistência. Aos noventa e cinco anos, cega, ainda tecia crochê e contava casos reais de uma vida concreta. Esta não é uma homenagem a uma mulher em particular, mas a todas quantas atravessaram tantos sertões na busca pela construção da dignidade dos seus... Maria era Das Dores. Maria era minha avó matriarca cearense cheia de fibra. Obrigado por tudo, Maria! |
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