OPINIÃO
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Tião Maia *

 

 

Por que o Acre não aceita Marcio Bittar

Tenho a nítida impressão de que o ex-deputado Marcio Bittar deveria, e urgentemente, voltar para a escola. Não que eu defenda a necessidade de que aqueles que pretendem se tornar nossos governantes sejam exatamente portadores de diplomas e títulos. Muito pelo contrário. A prova de que diplomas e títulos não ensinam a governar é o próprio presidente Lula, o torneiro mecânico que, ao escapar da fome e da miséria à qual é condenada a grande maioria dos nordestinos, tornou-se um líder sindical que, ao chegar ao cargo máximo da nação brasileira, em que pesem os ataques da oposição, está muito próximo de se tornar o mais expressivo presidente da história da República deste país e, sem exagero, digno de figurar entre os grandes estadistas que emolduram a nossa contemporaneidade.

Se alguém duvida disso, tenho um argumento: as elites brasileiras, que governaram este país durante 500 anos, entregaram o poder a esse membro da classe trabalhadora com um salário mínimo da ordem de R$ 200. Ou seja, as elites brasileiras levaram 500 anos para chegar a um salário mínimo de R$ 200 e Lula, o trabalhador que gente como Marcio Bittar não hesita em chamar de ignorante, vai elevar essa quantia, já agora em maio, para R$ 350, quase 100% a mais em pouco mais de três anos dos R$ 200 que a elite brasileira construiu em 500 anos.

E o que tem isso a ver com Marcio Bittar? Tudo. Na TV - aliás, uma emissora e um sistema de comunicação construídos no mais autêntico estilo do gangsterismo da comunicação que reinou neste país até recentemente - ontem pela manhã, esse rapaz, que se apresenta como algo novo da política local e que na verdade representa o que há de mais retrógrado e atrasado neste Estado, deu demonstrações de que perdeu mais uma grande oportunidade de ficar calado e de que pouco ou quase nada sabe da história do Acre, de ética e daquilo que a população acreana defende. Aliado a seu desconhecimento - o que seria natural para alguém que não se cerca de quem sabe e não procura aprender de fato -, está o fato de que ele não é acreano, desconhece a história do nosso povo e a ética que ele aprendeu, tanto política como administrativa, foi aquela que o Acre conheceu dos governos que se revezaram no poder do início dos anos 80 até o fim da década de 90.

No afã de apresentar-se como único candidato das oposições, além de falar mal do governo local e das lideranças da Frente Popular do Acre, ele desceu o malho no presidente cujas pesquisas acabam de apontar como forte candidato à reeleição. Sinal de que a forma de fazer oposição tão duramente defendida por Marcio Bittar, tanto lá em Brasília como aqui, não tem surtido efeito. Muito pelo contrário.

Penso que quem foi uma espécie de office-boy da conta Flávio Nogueira, aquela que utilizou o Banco do Brasil para cometer o maior assalto da história deste Estado, não tem moral para dar lições de ética em ninguém. Aliás, quem se junta ao que de pior há na política local não tem também condições morais de falar de alianças políticas de seus adversários. O que ele deveria fazer, para arranjar um mandato e um emprego, era se preocupar em organizar seus poucos aliados numa coligação capaz de oferecer alternativas de poder e de governo a este Estado. Enquanto não faz isso, enquanto se preocupa apenas em fomentar a política do ódio, pregando a desconstrução de tudo de bom que este Estado está conhecendo, só merece mesmo o desprezo que ele vem conhecendo nas últimas eleições que disputou. De fato, como pregou Lincoln, ninguém consegue enganar a todos por todo o tempo.

É por isso que ele deveria voltar à escola. E ler bastante. De preferência, “Conselho aos Governantes”, uma reunião de textos que vai de Isócrates, Platão, Kautilya, Erasmo de Roterdã e outros que o ex-deputado já deveria conhecer, para aprender que, já na Antiguidade, era ensinado a quem desejava ser príncipe a necessidade de oferecer “a regularidade da sua vida como modelo para os seus concidadãos” sem “esquecer que os costumes dos povos se formam a partir dos costumes dos homens que os governam”. O Acre, definitivamente, não quer voltar aos tempos dos governos que geraram homens como Marcio Bittar.

* Jornalista

 
 
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Rio Branco-AC, 12 de abril de 2006
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