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Amigos relembram casos e causos alegres de Aloízio Maia


Juracy Xangai

Foto: Américo de MeloUm bonachão para o qual não havia tempo ruim, homem cujo prazer era bater um bom papo, jogar carteado, ajudar os amigos e até os nem tão amigos. Assim passou pela vida o advogado Aloízio Macedo Maia, que com dona Alzira teve os filhos Airton, Isaura Maria e Alzira Maria, os quais lhe renderam sete netos.

“Na hora que Deus me chamar eu vou. Ele é meu dono, como também de todo esse rebanho que está aí pastando neste mundo”, recorda Francisco Assis Costa, do Salão Rio Branco, onde além de cortar os cabelos e aparar a barba, era parada sagrada quando vinha do interior. Ali se inteirava das últimas nos bastidores políticos e até daquele compadre que acabava de descobrir a “bidongada” traiçoeira. Uma das frases ditas por ele sobre a morte e que não sai da lembrança de Assis é: “No dia que eu for, vou alegre!”

“O Aloízio gostava de falar com todo mundo, não tinha cerimônias e o pessoal gostava muito dele. Dizia que barbearia era o melhor lugar para saber das coisas porque aqui passa gente do povo, da justiça, deputado e até senador. Assim dá para descobrir o que é que o povo está pensando”, recorda Assis, lembrando sua queda especial pelas mulheres, mesmo com a avançada idade. “A gente tem que admirar as coisas boas da vida porque a natureza é muito bela.”

Quanto à sua invenção mais conhecida, a balsa que acabou sendo transformada em destino irremediável dos políticos políticos derrotados em cada pleito acreano, Assis lembra: “Um dia ele explicou que estava com o jornalista Edilson Martins e alguns amigos discutindo onde é que os políticos derrotados na eleição iriam se esconder. Então sugeriu que fossem passar umas férias em algum lugar esquecido do Amazonas, bem longe da gente. Nasceu aí a história da balsa levando os derrotados para Macapuru, que, segundo dizem, na época era um lugar muito triste e esquecido”.

Do piano ao acordeom

“Aloízio me ensinou a tocar acordeom quando eu tinha 17 anos. No piano é que ele era fino mesmo. Nunca montou um conjunto, mas animava qualquer festa em que chegasse”, garante Everaldo Mendes de Assis, 70, surpreendido com a notícia da morte do mestre, que acabara de ser sepultado. “Quando a gente saía para farrear, dona Zita, a mãe dele, dizia para eu cuidar do Aloízio. Cuidar como, se ele era mais velho que eu, que ainda estava aprendendo com ele?”.

Revoltado com os aumentos de preço quase diários impostos pelos comerciantes que abusavam da população, Aloízio teria cunhado a frase: “Agora é mais 500!”, afirma Everaldo, lembrando os tempos em que com dinheiro curto iam fazer visita de “afago” ao Joaquim Pinto, um português dono de mesas de bilhar. “Chegava animado dizendo; ‘Seu Joaquim, trouxemos aqui um biribá para o senhor’. O português agradecia e dizia que estava à disposição para o que a gente precisasse dele. Ele pedia as bolas, a gente jogava durante horas. Quando o Raimundo Dunga, que era funcionário do português, cobrava pelo pagamento da mesa, ele respondia que seu Joaquim tinha dito que ele estava à disposição deles para o que precisassem. O português tinha uma pensão que colocava à disposição para a gente comer lá, mas a gente queria era jogar, só não tinha dinheiro.”

Sempre irônico, quando decidiu fixar residência em Brasiléia, área que já era atendida por seu amigo e também advogado Foch Jardim, ele dizia. ‘Foch, vou penetrar na sua área, mas não leve a mal”.

Pioneiro da TV

Em 1979, Aloízio Maia era o editor de texto do primeiro telejornal acreano. O Jornal do Acre, que ia ao ar todas as noites pela TV Acre, era o único canal de televisão no Estado. Entre os membros de sua equipe estavam Campos Pereira, José Simplício, Nilda Dantas, Mauro Modesto, Roberto Vaz e Dulce.

“Com ele não havia figura de linguagem, tinha um texto simples e claro, vaca era vaca, pronto. Dizia que para contar uma notícia só era necessário o nome da pessoa entrevistada, o resto acontecia. Eu tinha muita vontade de aparecer e na primeira vez que gravei uma passagem onde aparecia falando ele me disse: ‘Filho, não se preocupe que só vou usar o entrevistado. Quando você estiver pronto para aparecer eu aviso’”, relembra Roberto Vaz.

Ele também não se esquece do espírito sempre solidário de Aloízio, que não evitava correr riscos para ajudar os amigos. “Havia uma lista de pessoas que o Tufic Assmar proibia de aparecer na TV, mesmo assim ele mandava preparar notícias com elas. Quando o jornal começava ele ia conversar com o Tufic para distrair o patrão a fim de que ele não visse as notícias.”

Quando Tufic decidiu demitir Roberto Vaz porque ele usava o carro da TV para fazer suas matérias, Aloízio saiu em sua defesa propondo ao patrão que o castigassem proibindo de usar o carro, assim tinha que dar seu jeito para acompanhar a equipe. “Chegou para mim e disse: ‘Você vai ter que correr atrás do carro!’. E eu corria mesmo. Não podia sair da TV dentro da komby, por isso encontrava a equipe onde eles iam ou eles me pegavam em algum lugar. O acordo era para que não saísse no carro de dentro do pátio da TV. Ele ajudava muitoa gente e eu não podia perder aquele emprego.”

Feliz nas cartas e no amor

Jogar gamão e cartas eram apenas duas das muitas paixões de quem buscava aproveitar plenamente cada momento da vida. Entre uma e outra visita ao Fórum para ver como andavam seus processos, ele aproveitava as horas vagas para bater baralho com os taxistas que fazem ponto em frente ao Hotel Rio Branco. “Quando chegava de Brasiléia tinha dois lugares que ele não deixava de passar: aqui na parada de táxi e ali na barbearia do Salão Rio Branco. Falava e brincava com todo mundo, não tinha burocracia nem tempo ruim. Estava sempre sorrindo e tornando as coisas engraçadas. Passava horas jogando aqui com a gente. Era uma figura divertida que vai fazer muita falta para a gente”, declara o taxista Raimundo Nonato, o “Nato”, como é mais conhecido.

Pai e amigo

Airton Macedo Maia Sobrinho, filho de Aloízio, guarda muitas e boas recordações da hiperatividade e bom-humor do pai que nem no tribunal do júri perdia sua capacidade de ironizar os fatos do dia-a-dia. Ele só fazia a defesa de clientes, mas atuou como advogado de acusação da mulher que tinha matado o Falzer Ayache. Fez isso a pedido da irmã dele, sua amiga Yacut. A mulher teria matado Falzer por ciúmes quando descobriu que ele também tinha um caso com a filha dela.

“O advogado de defesa apelou usando aquela poesia ‘ser mãe é padecer no paraíso...’. Quando chegou a vez de atacar, ele declamou: ‘To be or not to be? That is the question’. O juiz protestou pedindo que se explicasse e ele explicou: ‘Meu colega declamou um poema de quinta categoria e todo mundo ouviu calado; agora, quando eu declamo Hamlet no original vocês reclamam’. Os jurados condenaram a mulher por cinco votos contra dois.”

Mestre do direito

Foto: Américo de MeloA vereadora Maria Antônia de Assis foi sua aluna no curso de direito civil da Ufac. “Aprendi muito com ele, tanto porque tinha um amplo conhecimento das leis e de casos jurídicos interessantes quanto pela forma irônica como ele apresentava as coisas e usava isso para pegar no pé da gente. Às vezes era desconcertante. Aquelas lições de ironia também me são bastante úteis hoje em certas situações no dia-a-dia da política”.

Outro aluno é o advogado Emanoel Mendes França. “Embora Aloízio fosse ligado à Arena, que então havia se transformado em PDS e é o atual PP, nunca direcionou politicamente suas aulas. Tido como pessoa de direita, ele era um progressista que respeitava os diferentes pontos de vista, mesmo que discordasse deles. Depois de formado tivemos oportunidade de atuar em parceria, eu em Xapuri e ele em Brasiléia.”

Tudo pelo Galo

Atleticano “doente”, Aloízio, mesmo enquanto atuava como cronista esportivo na Rádio Difusora ou fazendo comentários na TV Acre, não escondi sua preferência pelo Galo. “Certa vez aconteceu um jogo entre o Atlético e o Independência, ele então fez uma crônica pedindo à sua eterna Madame Janete que lhe desse a graça de ver o Galo vencer a Raposa. No dia do jogo o Independência venceu o jogo e ele lamentava que nem a Madame Janete conseguira impedir que o Galo fosse depenado pela Raposa”, declara o radialista Zezinho Melo, lembrando que ele também fora membro fundador da Associação dos Cronistas e Locutores Esportivos do Acre (Aclea) e da Associação dos Jornalistas do Acre (AJA).

Bom papo, bom prato

O subcomandante da Polícia Militar do Acre, coronel Célio Rocha, conviveu desde a infância com Aluízio Maia, que vez em sempre aparecia para visitar sua prima, mãe do militar, a fim de ter um dedo de prosa que se estendia por horas que pareciam minutos. Nesse meio-tempo, tomava alguns pratos de sopa, muito café e fumava um cigarro após outro.

“Apesar da grande diferença de idade a gente gostava muito dele porque era um bonachão, sempre sorridente para o qual tudo estava sempre bom. Como advogado, um dia oficializou pedido na PM para que protegessem uma terra do Jimmy Barbosa que estava ameaçada de invasão. Marcamos a hora e ele me disse: ‘Nesse horário vou estar jogando carta com os taxistas ali ao lado do Cerb, pode passar lá’. Passamos e em seguida fomos resolver o problema. Ele aproveitava cada minuto da vida.”

 
 
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Rio Branco-AC, 12 de junho de 2005
   GIRO GERAL
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Com Roberta Lima
   PORONGA
Com Leonildo Rosas
 
 
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