OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Augusto Fontes

 


O fim do mundo

Em instantes, faltarão uns poucos minutos para o fim do mundo. A notícia veio em cima da hora, não deu tempo para programar o tempo restante, para arrumar a bagagem, para derradeiras declarações. Nem para questionar a utilidade disso tudo. Sequer deu para tomar atitude, calmante, estimulante, decisão. Não deu para tragar um cafezinho, o último cigarro. Para escrever a tese da poesia de despedida, para uma música, um lamento, comemorações. Nenhum gesto, mudez, tiro. Já não era possível parar para avaliar idéias e esquecimentos, ninguém iria pensar nisso, estando tudo para ter fim!

Iniciar novo ciclo teórico sobre a razão de tudo, inclusive, da própria existência, não seria bom começo para o fim de todas as coisas, essas todas que vemos e ouvimos, saboreamos ou engolimos, pegamos ou nos levam, até aquelas que pensamos que vimos, que jamais conheceremos, que sempre estivemos para desejar, imaginar, cansados de saber ou não querer. Quase tropeçando em outras coisas, nos reflexos e nas saudades, despedir-se delas, coitadas, inocentes, sem acesso à notícia que acabaria com todas as outras, o furo essencial, por onde tudo escoaria, até não restar sequer a essência.

E o fim exato, por onde começa-lo? Deixar acontecer, ir vendo (e perdendo a visão), ir seguindo (e sumindo), até não poder mais. Ir parando. Ou não ir, recusar-se, só acabar-se se não der mesmo para resistir, se não desse. Mas, resistir para onde? Não há destinatário visível para a última súplica, não há rastro nem endereço eletrônico. Tocar os sinos ou recolher a emoção? Pelo que é possível definir, foram-se os conceitos, ficaram só alguns minutinhos, uns instantes, quase nada, e ainda haveria tanto a dizer e calar, a fazer ou deixar, nessa indefinição, ainda há o que esperar ou levar, que fim será?

No fim não há um deles, ele é único. Quem sabe, até pensar não seria, não é, nem era apropriado, adequado. Atos de desespero seriam perda de tempo, outra perda, antes da última, que o levaria de vez, o tempo e seu próprio conceito, e só em lembrar disso lá se vai quase todo tempo que resta, que restaria, que restava. Talvez fosse melhor parar e esperar, aceitar e não criar expectativas sobre o próprio fim, ou sobre o fim dos demais, das coisas, todas elas. Só que parar e esperar poderia ser puro fingimento, como se nada estivesse acontecendo para, exatamente, chegar-se ao nada total.

Logo mais, o fim absoluto, rumo natural, caminho sem volta, único possível, nessa realidade vista e anunciada, sabida e fantasiada. Nesse espaço, que sem espaço não há tempo, que não passa sem a convenção que o mede, essa ou aquela, tempo que trapaceia, que não se dá a pegar, a apossar, a guardar, que finge ir, mas todo dia volta, voltava. Mas não agora, que acabam convenção e salvação, teoria do arrependimento e ficção. Vão com ele a física, a astrologia, a teologia, a imaginação. Não haverá choro nem vela, sorriso nem revolta, que sem volta vai-se o tempo em que ainda seria possível ser útil.

Despede-se também o tempo que ainda haveria para dividir. Incrível isto não ter sido pensado antes, quando ainda era possível estender a mão, passar do não. Agora, rir, chorar, rezar, arrepender-se, querer ir, agarrar-se aos filhos, aos amores, à vida, tantas indefinições para ir ao nada. No fim, tudo conduzia a exatamente nada, nenhum tempo para avaliar a vida, a morte, a razão, o perder-se. Onde o sentido, ante inevitabilidade tão passageira? A constatação da origem do nada que se origina com o fim de tudo é rápida, ainda que leve vidas. Mas, a essa altura, que significado e para quem?

Não gostar de deixar tudo, de ir assim, sem jeito, ter lembranças, não ter inquietudes, certezas. Ou querer mesmo ir, quase logo, daqui a pouco, mas não assim, num outro ir. Não havia tempo para isso, nem haveria, eram muitas variantes para tamanho nada, seriam, se fosse possível lembrar, esquecer, agitar-se serenamente, afirmar, iludir-se, recordar, sem antes perder o horário, o tempo que acaba, a soma de tudo, o produto do nada. Não é possível adiar a passagem para este fim, mas, lá, quem sabe, lembranças seriam realidade, se algo ainda fosse possível, se tempo houvesse, se a ilusão seguisse.

Logo não haverá para onde ir, de onde vir, nem para quem o tempo fingir. O permanecer foi-se com a idéia mais recente de deixar pra lá o desconhecido, o que partiu, o que deixará de seguir. E é sem jeito ir, só resta um momento, ou outro, depois acabou, acabará. Pedir fim rápido não é possível. Também o tempo começa a não existir. Não há mais como medir a pressa, a demora. Só haverá inércia, mas ainda há um minuto, ou dois, por onde começar? Qual a melhor atitude no fim? Vai acontecer! Um pensamento, talvez o último. Se mais um pouco de tempo houvesse ... Se a vida não tivesse sido assim perdida em talvez, talvez tivesse havido mais tempo para viver.

 

 
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Rio Branco-AC, 12 de junho de 2005
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