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Osmarino Amâncio, o ilustre convidado do presidente
Ontem, em Brasiléia, com o sol do meio dia lhe batendo na testa, ele estava no meio da multidão que se acotovelava para ver de perto o presidente Luis Inácio Lula da Silva e seus convidados para a solenidade inauguração da ponte que liga o município a Cobija, na Bolívia. Mas quem foi notado primeiro foi Osmarino. O presidente o reconheceu no meio do povo, fez um sinal à segurança para que permitisse sua subida ao palanque e assim que ele subiu, o saudou com um afetuoso abraço e segredou-o algumas palavras a seus ouvidos. Quando o presidente foi embora e os repórteres quiseram saber do sindicalista o que Lula lhe dissera ao pé do ouvido, ele respondeu? “Ele disse-me que ia pedir que o Jorge Viana me levasse a Brasília, para uma visita a sua casa. Se me levarem, eu vou”, disse. O sindicalista concedeu a seguinte entrevista ao Página 20: O que você está fazendo da vida, Osmarino? Osmarino Amâncio – Eu estou trabalhando na minha colocação e fazendo coisas que nunca imaginei fazer como, por exemplo, escrever um livro. Publiquei na Europa, em Roma, com o título de “O Grito da Floresta”, com um histórico do movimento do qual participamos, contando um pouco do que aconteceu na época e falo um pouco das tradições e do folclórico das nossas florestas, e estou fazendo outro. E como é que foi a aceitação dessa publicação na Europa, já que aqui, no Brasil, ninguém nunca nem ouviu falar... Osmarino Amâncio – Pois é... A aceitação foi boa. Se ninguém tomou conhecimento no Brasil é porque aqui ninguém também não quis publicar na época em que eu ofereci. É uma insistência de mais de quatro e anos e agora, depois de publicado, estou informado de que já foi vendido mais de 12 mil e eu até já ganhei dinheiro, imagine. Já me enviaram, por exemplo, mais de R$ 8 mil, o que significa que estão me pagando praticamente a média de R$ 1 por livro, o que é muito interessante. Então você saiu de seringueiro para escritor? Como é possível um cidadão praticamente semi-alfabetizado se tornar escritor? Osmarino Amâncio – Que coisa, não é? Na verdade, eu não escrevi. Eu ditei, gravei, contei as nossas histórias e tive ajuda na transcrição dessas fitas e eu escrevi algumas coisas. O livro então é sua memória. Você participa dessa luta desde muito tempo, não é? Osmarino Amâncio – Eu tenho 46 anos e de 1973 para cá estou metido no movimento. Não tive juventude. Fui de menino, com 12 anos, para o meio do movimento. Foi nessa época e que participei da primeira organizada numa época e que não existia nem sindicato. Lembro-me que o movimento foi porque alguém fechou o nosso caminho de passagem da colônia Fontenele para vender as coisas que produzíamos para a Bolívia e o pessoal de lá fechou a estrada e nós fomos lá e arrebentamos a cerca. Foi um movimento organizada inclusive por meu pai, Bernardo Amâncio, que está vivo e que continua na luta. E como foi que você travou contato com esse movimento e com o sonho de criação de resistência à expansão da pecuária encabeçada pelo Wilson Pinheiro, pelo Elias Rozendo, pelo Chico Mendes e que desembocou em tudo isso? Osmarino Amâncio - Com o Chico Mendes eu travei contato ainda pequeno, através do Raimundo Barros, quando ele da Sucam e percorria os seringais. Com o Chico Mendes começamos a discutir essas coisas nas comunidades eclesiais de base, das quais participávamos, lá por volta de 72 e 73. O Chico tinha algumas idéias revolucionárias e a gente começou a estreitar o relacionamento nesta questão ideológica, como a gente dizia antigamente. A gente queria a revolução, pensava em guerrilha e em todas as coisas que pudessem mudar o sistema de repressão em que a gente vivia na época da ditadura militar, quando havia todo um aparato de idéias atrasadas sobre as quais a gente ia para cima porque tínhamos uma idéia de reforma agrária e achávamos que isso tinha que acontecer. Nessa época, o líder do movimento já era então Wilson Pinheiro? Osmarino Amâncio - Ele era um dirigente que tinha todas as qualidades de um grande líder. Quais são essas qualidades? Osmarino Amâncio – A principal delas, com certeza, era a capacidade de mobilização na floresta em rádio e sem a força e qualquer meio de comunicação. Imagine o que significava naquela época juntar duas ou três mil pessoas nessas condições... E como o Wilson Pinheiro conseguia fazer isso ? Osmarino Amâncio – Ele ficava a média de seis meses andando pela floresta, de casa em casa, em todos os seringais, fazendo o trabalho formiga como a gente chamava. Os outros seis meses tirava ara fazer política sindical na cidade, convencendo o pessoal a vir de suas colocações, gastando o seu próprio dinheiro, para a sede do sindicato para discutir as coisas de seus interesses. As pessoas davam seu jeito: viajavam por conta própria, trazendo galinha e outros bichos para fazer dinheiro na cidade, trazia seu próprio rancho, sua própria farofa. Não havia comida para ninguém. O que avia era uma proposta. O Wilsão chegava e dizia: olha, pessoal, ou nós vãos conquistar a terra para permanecermos nela ou então vamos com a boca cheia de formiga nas periferias das cidades, como marginais. Naquela época, ele já tinha essa visão, mesmo sendo um seringueiro que vivia no meio do mato e tinha uma essa visão muito interessante. O Wilson conseguia assimilar a questão conjuntural do momento e conseguia passara isso para a gente de forma tão simples que nos convencia da necessidade da luta. São poucos os sindicalistas que conseguem isso sem a imposição. O Wilson Pinheiro conseguia. E como se deu o contato de Wilson Pinheiro com o então sindicalista Lula? Osmarino Amâncio – Foi de uma forma muito bonita. O Lula inclusive conta e suas memórias que um dia estava na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo quando lhe anunciaram que na ante-sala estavam um pessoal do acre querendo falar sobre a fundação de um partido de trabalhadores, coisa que ele andava pensando. O Lula os atendeu meio desconfiado porque julgou o pessoal dedos-duros da Polícia Federal, do SNI, gente que vivia perseguindo os sindicalistas como o Lula. E o pessoal era o João Maia, o Pedro marques, um advogado já falecido, e o próprio Wilson. Acho que o Lula ficou impressionado com o tamanho do Wilson, que tinha quase dois metros de altura e impunha respeito só pelo jeitão. Do susto que o Lula teve acabou que, ao invés de vir ao Acre fundar o PT, o Lula veio ao Acre a primeira vez para chorar a morte do Wilson. Pois é, o Wilson é assassinado. Mais de 24 anos depois, não se tem a menor pista dos assassinos Quem é que assassinou Wilson Pinheiro? Osmarino Amâncio – O que a gente sabe é que houve várias reuniões de seringalistas e fazendeiros que estavam se instalando aqui, na época. Existiam muitos encontros desses grupos aqui em Brasiléia e Xapuri discutindo o incômodo causado pelo nosso movimento e seus líderes Chegaram a publicar uma lista, no jornal “O Rio Branco” na época, das pessoas que eram contra o desenvolvimento do Acre. Logicamente que aquelas pessoas, sindicalistas como o Wilson, o Chico Mendes, o bispo dom Moacyr, advogados como Pedro Marques, que chegou a sofrer um atentado á bala, jornalistas como Élson Martins da Silveira e o desembargador Arquelau de Castro Melo, passaram a constar de uma lista de gente marcada para morrer. Quer dizer que, apesar do tempo, não surgiu a menor pista da identidade dos assassinos? Osmarino Amâncio – Os assassinos mesmos, aquelas pessoas as quais a gente atribuía como as pessoas que mataram, conhecidos como “Paraguai” e Manezinho, que faziam questão de não esconder de ninguém que eram pistoleiros da região, a gente identificou. Eram pessoas que trabalhavam para os fazendeiros como Crispim Reis, Coronel Chicão Madeireiros Joaquim Madeiros, um certo Euzébio e para o capataz Nilo Sérgio de Oliveira, o “Nilão”. Essas pessoas a gente identificou e apontou mas a polícia não se interessou em prender, talvez por medo ou conivência. O que a gente sabe é que os pistoleiros, o Paraguai e o Manelzinho, já foram inclusive mortos, também á bala. O Paraguai morreu em Rio Branco e o Manelzinho apareceu morto aqui em Brasiléia. Qual seria o envolvimento no crime do Nilo Sérgio, aquele que foi justiçado pelo movimento como mandante da morte de Wilson Pinheiro? Osmarino Amâncio – Na verdade, na época, o Nilo assumiu uma postura muito arrogante na época e relação à gente. Batia na cara de peão e seringueiro de chicote e se declarava o pior inimigo da gente. Isso fazia o pessoal ficar muito nervoso porque era ele, junto com o Darli e com o Alvarino Alves, mais um tal Benedito Rosas e sua turma de uma série de pessoas, quem organizava as reuniões visando destruir nosso movimento, o que para eles era correto, a pecuária como começo de tudo. Para nós, o correto era não derrubar as florestas. Mas, apesar de tudo isso, saímos vitoriosos porque chegamos até aqui e, 23 anos depois, temos no Brasil um presidente que é herdeiro dessa luta. No Estado, temos um governador que a gente pode dizer que é do nosso meio, que está do lado do mais fraco. Isso é muito importante. |
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