ESPECIAL
   ENTREVISTA

 

Osmarino Amâncio, o ilustre convidado do presidente

Regiclay SaadyAos 46 anos de idade, o seringueiro Osmarino Amâncio Rodrigues passa despercebido como um homem qualquer no meio do povo de Brasiléia, cidade onde nasceu e em cujas matas aprendeu, ao lado de Wilson Pinheiro, Chico Mendes e outros sindicalistas, a militar num movimento que, mais de duas décadas depois, começa a mostrar resultados políticos concretos. Ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, suplente e deputado estadual pelo PT, o sindicalista Osmarino Amâncio, que já foi apontado como sucessor de Chico Mendes, pode até ser um homem comum em Brasiléia, mas, fora do Acre, atinge ares de celebridade política.

Ontem, em Brasiléia, com o sol do meio dia lhe batendo na testa, ele estava no meio da multidão que se acotovelava para ver de perto o presidente Luis Inácio Lula da Silva e seus convidados para a solenidade inauguração da ponte que liga o município a Cobija, na Bolívia. Mas quem foi notado primeiro foi Osmarino. O presidente o reconheceu no meio do povo, fez um sinal à segurança para que permitisse sua subida ao palanque e assim que ele subiu, o saudou com um afetuoso abraço e segredou-o algumas palavras a seus ouvidos. Quando o presidente foi embora e os repórteres quiseram saber do sindicalista o que Lula lhe dissera ao pé do ouvido, ele respondeu? “Ele disse-me que ia pedir que o Jorge Viana me levasse a Brasília, para uma visita a sua casa. Se me levarem, eu vou”, disse.

O sindicalista concedeu a seguinte entrevista ao Página 20:

O que você está fazendo da vida, Osmarino?

Osmarino Amâncio – Eu estou trabalhando na minha colocação e fazendo coisas que nunca imaginei fazer como, por exemplo, escrever um livro. Publiquei na Europa, em Roma, com o título de “O Grito da Floresta”, com um histórico do movimento do qual participamos, contando um pouco do que aconteceu na época e falo um pouco das tradições e do folclórico das nossas florestas, e estou fazendo outro.

E como é que foi a aceitação dessa publicação na Europa, já que aqui, no Brasil, ninguém nunca nem ouviu falar...

Osmarino Amâncio – Pois é... A aceitação foi boa. Se ninguém tomou conhecimento no Brasil é porque aqui ninguém também não quis publicar na época em que eu ofereci. É uma insistência de mais de quatro e anos e agora, depois de publicado, estou informado de que já foi vendido mais de 12 mil e eu até já ganhei dinheiro, imagine. Já me enviaram, por exemplo, mais de R$ 8 mil, o que significa que estão me pagando praticamente a média de R$ 1 por livro, o que é muito interessante.

Então você saiu de seringueiro para escritor? Como é possível um cidadão praticamente semi-alfabetizado se tornar escritor?

Osmarino Amâncio – Que coisa, não é? Na verdade, eu não escrevi. Eu ditei, gravei, contei as nossas histórias e tive ajuda na transcrição dessas fitas e eu escrevi algumas coisas.

O livro então é sua memória. Você participa dessa luta desde muito tempo, não é?

Osmarino Amâncio – Eu tenho 46 anos e de 1973 para cá estou metido no movimento. Não tive juventude. Fui de menino, com 12 anos, para o meio do movimento. Foi nessa época e que participei da primeira organizada numa época e que não existia nem sindicato. Lembro-me que o movimento foi porque alguém fechou o nosso caminho de passagem da colônia Fontenele para vender as coisas que produzíamos para a Bolívia e o pessoal de lá fechou a estrada e nós fomos lá e arrebentamos a cerca. Foi um movimento organizada inclusive por meu pai, Bernardo Amâncio, que está vivo e que continua na luta.

E como foi que você travou contato com esse movimento e com o sonho de criação de resistência à expansão da pecuária encabeçada pelo Wilson Pinheiro, pelo Elias Rozendo, pelo Chico Mendes e que desembocou em tudo isso?

Osmarino Amâncio - Com o Chico Mendes eu travei contato ainda pequeno, através do Raimundo Barros, quando ele da Sucam e percorria os seringais. Com o Chico Mendes começamos a discutir essas coisas nas comunidades eclesiais de base, das quais participávamos, lá por volta de 72 e 73. O Chico tinha algumas idéias revolucionárias e a gente começou a estreitar o relacionamento nesta questão ideológica, como a gente dizia antigamente. A gente queria a revolução, pensava em guerrilha e em todas as coisas que pudessem mudar o sistema de repressão em que a gente vivia na época da ditadura militar, quando havia todo um aparato de idéias atrasadas sobre as quais a gente ia para cima porque tínhamos uma idéia de reforma agrária e achávamos que isso tinha que acontecer.

Nessa época, o líder do movimento já era então Wilson Pinheiro?

Osmarino Amâncio - Ele era um dirigente que tinha todas as qualidades de um grande líder.

Quais são essas qualidades?

Osmarino Amâncio – A principal delas, com certeza, era a capacidade de mobilização na floresta em rádio e sem a força e qualquer meio de comunicação. Imagine o que significava naquela época juntar duas ou três mil pessoas nessas condições...

E como o Wilson Pinheiro conseguia fazer isso ?

Osmarino Amâncio – Ele ficava a média de seis meses andando pela floresta, de casa em casa, em todos os seringais, fazendo o trabalho formiga como a gente chamava. Os outros seis meses tirava ara fazer política sindical na cidade, convencendo o pessoal a vir de suas colocações, gastando o seu próprio dinheiro, para a sede do sindicato para discutir as coisas de seus interesses. As pessoas davam seu jeito: viajavam por conta própria, trazendo galinha e outros bichos para fazer dinheiro na cidade, trazia seu próprio rancho, sua própria farofa. Não havia comida para ninguém. O que avia era uma proposta. O Wilsão chegava e dizia: olha, pessoal, ou nós vãos conquistar a terra para permanecermos nela ou então vamos com a boca cheia de formiga nas periferias das cidades, como marginais. Naquela época, ele já tinha essa visão, mesmo sendo um seringueiro que vivia no meio do mato e tinha uma essa visão muito interessante. O Wilson conseguia assimilar a questão conjuntural do momento e conseguia passara isso para a gente de forma tão simples que nos convencia da necessidade da luta. São poucos os sindicalistas que conseguem isso sem a imposição. O Wilson Pinheiro conseguia.

E como se deu o contato de Wilson Pinheiro com o então sindicalista Lula?

Osmarino Amâncio – Foi de uma forma muito bonita. O Lula inclusive conta e suas memórias que um dia estava na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo quando lhe anunciaram que na ante-sala estavam um pessoal do acre querendo falar sobre a fundação de um partido de trabalhadores, coisa que ele andava pensando. O Lula os atendeu meio desconfiado porque julgou o pessoal dedos-duros da Polícia Federal, do SNI, gente que vivia perseguindo os sindicalistas como o Lula. E o pessoal era o João Maia, o Pedro marques, um advogado já falecido, e o próprio Wilson. Acho que o Lula ficou impressionado com o tamanho do Wilson, que tinha quase dois metros de altura e impunha respeito só pelo jeitão. Do susto que o Lula teve acabou que, ao invés de vir ao Acre fundar o PT, o Lula veio ao Acre a primeira vez para chorar a morte do Wilson.

Pois é, o Wilson é assassinado. Mais de 24 anos depois, não se tem a menor pista dos assassinos Quem é que assassinou Wilson Pinheiro?

Osmarino Amâncio – O que a gente sabe é que houve várias reuniões de seringalistas e fazendeiros que estavam se instalando aqui, na época. Existiam muitos encontros desses grupos aqui em Brasiléia e Xapuri discutindo o incômodo causado pelo nosso movimento e seus líderes Chegaram a publicar uma lista, no jornal “O Rio Branco” na época, das pessoas que eram contra o desenvolvimento do Acre. Logicamente que aquelas pessoas, sindicalistas como o Wilson, o Chico Mendes, o bispo dom Moacyr, advogados como Pedro Marques, que chegou a sofrer um atentado á bala, jornalistas como Élson Martins da Silveira e o desembargador Arquelau de Castro Melo, passaram a constar de uma lista de gente marcada para morrer.

Quer dizer que, apesar do tempo, não surgiu a menor pista da identidade dos assassinos?

Osmarino Amâncio – Os assassinos mesmos, aquelas pessoas as quais a gente atribuía como as pessoas que mataram, conhecidos como “Paraguai” e Manezinho, que faziam questão de não esconder de ninguém que eram pistoleiros da região, a gente identificou. Eram pessoas que trabalhavam para os fazendeiros como Crispim Reis, Coronel Chicão Madeireiros Joaquim Madeiros, um certo Euzébio e para o capataz Nilo Sérgio de Oliveira, o “Nilão”. Essas pessoas a gente identificou e apontou mas a polícia não se interessou em prender, talvez por medo ou conivência. O que a gente sabe é que os pistoleiros, o Paraguai e o Manelzinho, já foram inclusive mortos, também á bala. O Paraguai morreu em Rio Branco e o Manelzinho apareceu morto aqui em Brasiléia.

Qual seria o envolvimento no crime do Nilo Sérgio, aquele que foi justiçado pelo movimento como mandante da morte de Wilson Pinheiro?

Osmarino Amâncio – Na verdade, na época, o Nilo assumiu uma postura muito arrogante na época e relação à gente. Batia na cara de peão e seringueiro de chicote e se declarava o pior inimigo da gente. Isso fazia o pessoal ficar muito nervoso porque era ele, junto com o Darli e com o Alvarino Alves, mais um tal Benedito Rosas e sua turma de uma série de pessoas, quem organizava as reuniões visando destruir nosso movimento, o que para eles era correto, a pecuária como começo de tudo. Para nós, o correto era não derrubar as florestas. Mas, apesar de tudo isso, saímos vitoriosos porque chegamos até aqui e, 23 anos depois, temos no Brasil um presidente que é herdeiro dessa luta. No Estado, temos um governador que a gente pode dizer que é do nosso meio, que está do lado do mais fraco. Isso é muito importante.

 

 
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Rio Branco-AC, 12 de agosto de 2004
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