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O início de profundas mudanças na fronteira

Presidentes do Brasil, da Bolívia e do Peru dão os primeiros passos para transformar América Latina numa “grande nação”

Regiclay Saady
Lula, Mesa, Toledo e Jorge Viana cortaram a fita que marcou a inauguração da ponte


Tião Maia

O que era um sonho acalentado ao longo de mais de cem anos de história, a integração brasileira com os países com os quais o Brasil faz fronteira na região do Acre - Peru e a Bolívia - começou a ser concretizado a partir de ontem pela manhã, quando os presidentes das três nações, ao inaugurarem a ponte “Wilson Pinheiro”, iniciaram uma caminhada que parece ser irreversível na consolidação de políticas que deverão pôr fim à burocracia e outros entraves alfandegários. Além da livre circulação de cidadãos dos três países pela fronteira sem a exigência de passaportes, brasileiros, bolivianos e peruanos poderão trabalhar num país e viver no outro, segundo os protocolos assinados ontem, em Cobija (Bolívia), entre os presidentes Luís Inácio Lula da Silva, do Brasil, Carlos Mesa, da Bolívia, e Alexandro Toledo, do Peru.

Foi a primeira vez que três presidentes se reuniram em território acreano para discutir problemas comuns às três nações fronteiriças. A reunião foi uma iniciativa do Ministério das Relações Exteriores, através do ministro Celso Amorim, a pedido do governador do Acre, Jorge Viana, cujo governo foi o executor da ponte sobre o rio Acre e que liga Brasiléia a Cobija, na Bolívia, e que se prepara para a construção de uma outra, a 111 quilômetros de distância, entre as cidades de Assis Brasil, no Brasil, e Iñapari, no Peru, que tem previsão de inauguração - com o custo da obra estimado em mais de R$ 25 milhões -para o final do ano de 2005. “Estamos realizando o sonho da integração do presidente Luis Inácio Lula da Silva, cujo governo, desde seu primeiro dia, o que mais tem trabalhado é para unir o Brasil, diminuir as desigualdades, mas também para unir os vizinhos e unir aos semelhantes ao Brasil no mundo”, disse Jorge Viana em discurso para uma multidão estimada em pelo menos dez mil pessoas que saiu às ruas da pequena Brasiléia para ver de perto os fatos que deverão ter fortes repercussões em toda região.

Ao discursar durante a inauguração da ponte, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou, por exemplo, que seu governo vai priorizar o desenvolvimento de uma política de complementação entre os países da América do Sul. Segundo ele, por ser o maior país da América do Sul, sendo também a maior economia da América Latina, “o Brasil tem mais responsabilidade, tem que ter mais solidariedade, tem que ser mais companheiro e ser mais generoso na sua política de integração”. Essa política, segundo o presidente brasileiro, vai permitir maior integração entre os países latinos e ampliar as negociações econômicas com o restante do mundo. “Eu não me conformo em saber que todos os países pobres são da América do Sul. Sempre estivemos de costas para este continente, olhando apenas para os Estados Unidos e a Europa. Precisamos parar com discursos teóricos e construir uma aliança entre nós”, disse Lula, ao participar, em Assis Brasil (AC), da solenidade de lançamento da pedra fundamental das obras da ponte que ligará Brasil e Peru.

Antes, em Brasiléia, ele afirmou que os governantes latinos não podem mais querer que seus países cresçam, do ponto de vista econômico e comercial, mais do que já cresceram, se não tiverem a ousadia de fazer política novas nas relações externas. De acordo com o presidente, até agora, nem 10% do potencial comercial da América Latina foi utilizado. “Ficamos sempre subordinados às grandes potências. Nunca olhamos para as nossas fronteiras. Quando concluirmos a integração da América do Sul, faremos mais comércio, geraremos mais emprego e desenvolvimento”, disse ele.

A Ponte “Wilson Pinheiro” custou ao governo brasileiro R$ 7,3 milhões. Sua construção faz parte de uma estratégia do Ministério do Desenvolvimento e Comércio Exterior, através da Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus), visando estimular o comércio e o turismo na região).

Wilson Pinheiro foi o primeiro sindicalista a falar em “empate”

O homem cujo nome passa a ser emprestado à ponte sobre o rio Acre inaugurada ontem, em Brasiléia, nasceu em Careiro, no interior do Amazonas. Wilson Pinheiro de Souza ficou órfão de pai ainda jovem e, com ajuda de mais dois irmãos, passou a sustentar a família trabalhando como lixeiro da Prefeitura de Manaus. As dificuldades levaram a família a sonhar com a vida de garimpeiro em Porto Velho, em Rondônia.

Nas idas e vindas pelos garimpos, Wilson contraiu malária e exauriu sua juventude sem melhorar de vida. Anos depois, sem noticias da mãe, enfiou-se nas matas acreanas, tornando-se seringueiro. Casou com dona Maria Tereza Pinheiro, teve oito filhos e morou por 20 anos no Seringal Sacado. Na década de 70, a Confederação dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) o encontrou, aos 42 anos de idade, sofrido e amargurado pelo temor de perder o único pedaço de terra que havia conquistado diante do avanço da pecuária que ameaçava os seringais, principalmente na região do Alto Acre.

A debilidade, no entanto, não tirou de Wilson Pinheiro a energia que o transformou num sindicalista capaz de mobilizar milhares de trabalhadores sem o uso de qualquer meio de comunicação. “Ele chegava a ficar até seis meses dentro da floresta, indo de colocação em colocação, mobilizando seus companheiros”, conta Osmarino Amâncio, seringueiro, ex-sindiclaista, companheiro de Wilson Pinheiro. De acordo com Osmarino, foi Wilson Pinheiro o primeiro a falar em “empate”, o termo que ficaria famoso por se constituir num movimento pacífico pelo qual os seringueiros e seus familiares simplesmente “acampavam” na floresta a ser derrubada e impediam que o desmatamento ocorresse. O termo foi popularizado por Chico Mendes mas quem o criou teria sido Pinheiro. “Ele usou uma linguagem de futebol para nós, a seringueirada. Ele disse: olha, eles querem derrubar e nós vamos empatar, como no futebol. Só que neste empate a gente vai ganhar porque eles não derrubam a floresta e nós também. E se a floresta fica em pé, nós ganhamos o jogo”, diz Osmarino, citando o sindicalista.

Wilson Pinheiro, se não perdeu o jogo, perdeu a vida: ele foi assassinado na noite do dia 21 de julho de 1980, dentro da sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, na frente de companheiros seus que assistiam ao seu lado mais um capítulo da novela global “Água Viva”. A tábua no qual estão cravada as balas que vararam o corpo do sindicalista é guardada, 24 anos depois do crime, pela diretoria do sindicato, como uma lembrança amarga dos tempos em que o Acre, principalmente naquela região, viveu dias de absoluta conflagração na luta pela posse da terra.

Os amigos, como o próprio presidente Luís Inácio Lula da Silva, têm de Wilson Pinheiro lembranças de um homem calmo, generoso. Alguém de fala mansa, que parecia medir exatamente cada palavra que dizia. Sua coragem, no entanto, animava os companheiros do seu e de outros sete sindicatos criados sob sua influência. Estava no segundo mandato de presidente quando assassinatos até hoje não identificados o mataram com três tiros pelas costas.

Jorge Viana: “Um dia especial para América Latina”

“Quero, com o carinho dos meus irmãos de Brasiléia, saudar com todas as honras possíveis o presidente do Peru, Alejandro Toledo, esse grande presidente que está transformando a vida dos nossos irmãos peruanos. Da mesma forma, quero saudar o presidente da Bolívia, Carlos Mesa, que graças a Deus, conseguiu unir o povo boliviano e agora está trabalhando pela união do povo boliviano ao povo brasileiro. Mas se recebemos com entusiasmo os nossos visitantes, é fato que a gente ainda não recebeu do jeito que a gente quer e como gosta o povo daqui porque foi aqui que ele veio pela primeira vez logo após ficar sabendo que aqui havia sido cometida uma injustiça, quando ele ficou sabendo que uma pessoa havia sido sofrido uma agressão brutal e covarde. Ao saber que, em função dessa violência, Brasiléia e os trabalhadores haviam ficado triste, ele largou tudo o que fazia, quando era só um sindicalista no ABC de São Paulo, ele veio aqui chorar conosco. É por tudo isso que eu quero uma grande salva de palmas para o presidente do Brasil, Luis Inácio Lula da Silva.

“Ainda acho que a onça deve beber água porque senão ela morre de sede”, diz Lula

“Minha querida Maria Terezinha Pinheiro; Quando mataram Wilson Pinheiro de Souza, eu vim a essa cidade e o clima era muito tenso porque o Wilson era um sindicalista e havia sido morto dentro de sua casa, a sede de seu sindicato. E quando cheguei aqui havia uma assembléia de trabalhadores, com um clima muito tenso e com muita gente armada andando pelas ruas. O nosso companheiro Osmarino, que está aqui do nosso lado, estava aqui e lembra bem disso. Então me chamaram para fazer um pronunciamento e eu não lembro bem o que disse. Só lembro ter dito que estava cansado de fazer discursos na beira de caixões de companheiros assassinados. Lembro que utilizei uma frase que é muito usual aqui no Brasil dizendo que estava chegando a hora da onça beber água. Eu disse essa frase e voltamos para Rio Branco pela estrada totalmente de terra, numa poeira muito grande, e para a minha surpresa, alguns dias depois, quando eu já estava em São Paulo, eu fui comunicado que estava sendo processado porque um delegado da Polícia Federal tinha entendido que aquela frase que utilizei era uma senha para que os trabalhadores se vingassem. O que aconteceu é que, no dia seguinte em que eu fui embora, os trabalhadores mataram uma pessoa que eles consideravam suspeito de ter matado o Wilson Pinheiro. Por conta disso, eu fui julgado em Manaus e condenado a três aos e meio de prisão – obviamente que não cumpri a pena porque era réu primário, mas o fato é que, na acusação, diziam que eu não estava sendo condenado porque tivesse matado qualquer pessoa, que estava sendo condenado não por usar armas. Diziam que eu tinha que ser preso porque a minha arma era minha língua que, na interpretação deles, era muito ferina e eu não podia andar por aí dizendo que a onça tinha que beber água, mas o pior é que ainda acho que a onça tem que beber água porque senão ela morre de sede.

Mas quero dizer da alegria de estar aqui inaugurando essa ponte. Uma ponte como disse meu companheiro Jorge Viana, não é uma nenhuma Rio-Niterói, não tem treze quilômetros de cumprimento nem cem metros de largura. Ela é uma ponte pequena no tamanho e no custo. Mas, possivelmente, o significado de sua inauguração, em função daquilo que nós acreditamos que está reservado para América do Sul, quero dizer que essa ponte não tem tamanho, essa ponte não tem preço, porque as coisas de muito valor para dois ou mais povos não se mede pela quantidade de cimento nem pela quantidade de dinheiro e sim pela quantidade de simbolismo que tem sua construção. Essa ponte vai permitir que homens e mulheres possam transitar livremente daqui por diante entre os dois países vencendo alguns impasses da burocracia, para que um menino de Pando possa namorar uma menina do Acre e o menino do Acre possa namorar uma menina do pando sem que haja problema e que possamos, além de namorar, trabalhar, estudar e comercializar.

Eu não vou sequer fazer o pronunciamento que havia preparado para esta ocasião, meu caro Jorge Viana. Eu acho que o que vale aqui para nós é o que nós estamos vendo. É olhar na cara de cada um de vocês, estudantes, homens, mulheres e perceber que essa ponte é uma coisa simples e que por ser simples deveria ter sido feito a 90, a 80 ou há 40 anos atrás. Eu dizia em 89, em 94, em 98 , em 202 e continuo dizendo: um dos problemas dos governantes deste país é que eles não conhecem o país que eles governam. Então muitas vezes as pessoas ficavam presas em suas capitais, atendendo apenas a demanda da burocracia, e não se dão conta de que com gestos simples como esses você une dois países e dá uma força extraordinária para a economia, tanto do Pando quanto do Acre. As pessoas, que parece, não tinham interesse em fazer esse trabalho da periferia, porque seria muito mais cômodo ir para a Capital, ir para a cidade de 300 mil ou de um milhão de habitantes, muito mais cômodo, como no meu caso, ir para São Paulo, para Brasília, para o Rio de Janeiro ou Belo Horizonte – é muito mais cômodo, eu sei disso. Mas eu sei também que é muito mais necessário eu vir a Brasiléia ou ir a outra cidade pequena deste país, como estou indo agora a Ji-Paraná, em Rondônia.

Nós vamos sair daqui, os três presidentes, para iniciarmos os trabalhos de uma outra ponte, entre o Brasil e o Peru. Fazemos isso porque creio que não tem nenhum sentido a gente morar tão perto, olhando de um lado e vendo um outro país e a gente não ter uma passarela para atravessar. A integração da América do Sul, a construção de uma nação sul-americana, na construção de uma grande nação latino-americana, passa por sua integração física e nós, se Deus quiser, iremos dar essa contribuição para que isso aconteça. É importante que todo mundo tenha claro que, como o Brasil é o maior país da América do Sul, como o Brasil tem a maior economia da América do Sul, por conta disso o Brasil tem mais responsabilidade, tem que ter mais solidariedade, tem que ser mais companheiro e tem que ser mais generoso na sua política de integração.

Portanto, meu querido Jorge Viana, eu sou testemunha do trabalho que você fez para essa ponte sair. Eu sei do carinho que você dedicou a essa obra e também sei da emoção a cada vez que você ia a Brasília conversar comigo sobre essa obra. Ultimamente, ele estava me ligando preocupado com o tamanho da ponte e dizia, como que me prevenindo de alguma decepção, que a ponte não era tão grande. Pois se enganou, meu caro Jorge. Mesmo que fosse aqui uma pinguela, um eucalipto fazendo a travessia, eu viria do mesmo jeito porque sei do carinho com que faz as coisas.

Me despeço abraçando aos amigos de Brasiléia e os meus companheiros presidentes Carlos Mesa e Alejandro Toledo, companheiros do Brasil e de seu presidente, certo de que estamos fazendo a história acontecer. Que Deus abençoe a todos.

 
 
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Rio Branco-AC, 12 de agosto de 2004
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