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Ponte da integração latino-americana

Presidentes do Brasil, Peru e Bolívia se encontram na fronteira para dar início ao projeto de integração que se inicia com a contrução de ponte

Marcos Vicentti
Na foto que entra para a história a partir de agora, os presidentes Lula, Mesa e Toledo, ao lado do governador Jorge Viana e do ministro Celso Amorim


Juracy Xangai

Mais do que uma ponte, a construção de 240 metros de comprimento passando sobre o rio Acre para unir a cidade brasileira de Assis Brasil e a peruana de Iñapari consolida uma nova fase marcada pelo entendimento entre os povos latino-americanos.

Essa foi a tônica dos discursos dos presidentes Lula, do Brasil, Alejandro Toledo, do Peru, e Carlos Mesa, da Bolívia, em seus discursos durante a cerimônia de lançamento da pedra fundamental daquela obra. Nesse momento o presidente Lula e o ministro dos transportes Luiz Fernando Furlan assinaram convênio liberando um repasse de R$ 8,5 milhões para a construção, que deverá ser concluída em 14 meses a um custo total de R$ 25 milhões.

Assim que pousou no aeroporto de Assis Brasil, o governador Jorge Viana e os presidentes Lula, Mesa e Toledo foram recebidos e homenageados com presentes regionais numa recepção simples e rápida, na qual alguns dos mais antigos moradores da cidade agradeceram pela realização de seu sonho de integração que era acalentado há dezenas de anos.

Centenas de pessoas, em sua maioria de peruanos, aguardavam sob grandes tendas a cerimônia de lançamento da pedra fundamental da ponte. Os peruanos não escondiam a esperança de que com a ponte haja uma maior integração comercial, econômica e cultural entre os dois povos. Por isso compareceram em suas roupas de gala portando bandeirolas em vermelho e branco, cores da bandeira de seu país.

O Brasil começa aqui

Atuando como anfitrião, o governador Jorge Viana agradeceu pelo prestígio que o Acre vem recebendo em suas reivindicações e propostas feitas aos três governos com o objetivo de integrar e promover o desenvolvimento da região. “Esse canteiro de obras tem um valor especial, até porque nesses cem anos de convivência entre nossos povos nunca houve um ato como este, que tem como objetivo selar a união de nossa gente. Nós, que sempre fomos tratados como aqueles que viviam no final do país, agora moramos onde o Brasil começa”, declarou.

Sem fronteiras

Aproveitando o ensejo da ocasião, o presidente Lula anunciou: “Além da ponte que começa a ser construída aqui, concretizando nosso sonho de integração latino-americana, nós, presidentes, acabamos de assinar um tratado para pôr um fim à exigência do passaporte, para que os cidadãos de nossos três países possam visitar uns os outros e até mesmo morar num país e trabalhar no outro. Queremos que, com isso, as fronteiras passem a ter apenas significado simbólico e deixem de separar povos irmãos”. Ele disse também que pretende voltar para inaugurar a ponte em dez meses, embora o prazo para sua conclusão esteja previsto para 14 meses.

O presidente lembrou que quando se lançou candidato pela primeira vez, em 1989, percebeu o quanto conhecia pouco o país. “Por isso, só entre os anos de 1991 e 1994, percorri 91 mil quilômetros por terra. Uma dessas viagens de ônibus eu iniciei aqui em Assis Brasil e fui até Campo Grande, no Mato Grosso. Eu hoje conheço o Brasil e, por isso mesmo, sou mais sensível aos problemas de nossa gente.”

DERRUBANDO FRONTEIRAS - O presidente do Peru, Alejandro Toledo, afirmou: “Estamos aqui, três presidentes, armados para derrubar as fronteiras que teimam em separar nossos povos. Para mim, a integração só tem sentido se vier para combater a fome e a miséria que atingem nossos pobres. Além dessa ponte, que permitirá a nossos filhos e filhas uma maior integração em todos os sentidos, também estaremos iniciando o funcionamento regular de linhas aéreas entre os dois países”.

Lula anunciou que ainda neste mês de agosto equipes multiministeriais dos três países estarão reunindo-se em Brasília para buscar uma solução financeira para a conclusão da estrada que liga Iñapari aos portos peruanos do Oceano Pacífico. O presidente Lula aproveitou para oferecer uma resposta imediata ao questionamento de Toledo: “Caso seja necessário, o Brasil está disposto a financiar a construção dessa estrada, que é de suma importância para o desenvolvimento e a integração de nossos países”.

O governador Jorge Viana presenteou Toledo com uma maquete eletrônica da ponte em construção.

Parceria para o desenvolvimento

O presidente Carlos Mesa, da Bolívia, destacou a importância da ponte inaugurada em Brasiléia como elo de integração entre a Bolívia, Peru e Brasil, já que toda essa região do Acre, Pando e Madre de Dios forma um grande triângulo estratégico unido não apenas pela fronteira, mas pelos rios Acre e Madeira, que lá recebe o nome de Madre de Dios. “Estamos aqui não apenas como três presidentes, mas, e sobretudo, como amigos que estão trabalhando em parceria pela integração e o desenvolvimento comum de nossos povos.”

Nas alturas

O presidente da Câmara de Integração do Comércio Brasil Peru, Mateo Salinas Lovon, entregou pessoalmente ao presidente Lula uma caixa de madeira entalhada contendo uma pena de Condor, a maior ave do mundo, tendo em sua biqueira uma caneta de ouro. “Nossa esperança é de que, além da ponte, o governo instale aqui os serviços alfandegários e sanitários necessários para viabilizar a integração comercial. Também nosso presidente Toledo providencie a licitação internacional para o asfaltamento dos 450 quilômetros entre Iñapari e Iñambari, que irão facilitar o tráfego de veículos pela região. Nós, peruanos, preferimos comprar mercadorias do Brasil, que é um país latino-americano, a comprar da China ou dos Estados Unidos.”

Vencendo dificuldades

O comerciante Jorge Barbosa da Silva, 40 anos, pai de dois filhos, montou seu Mercantil Barateiro exatamente junto ao local onde peruanos e brasileiros cruzam a fronteira através do rio Acre. “Aqui, 95% de minhas vendas são feitas para os peruanos, que vêm buscar de tudo, mas especialmente frango e açúcar. Como vivemos na fronteira, as compras são feitas sempre utilizando o dinheiro dos dois países porque os governos, queiram ou não, já estão integrados.”

Dono de um pequeno restaurante na praça central de Iñapari, Royce Fonseca Marim, 31 anos, pai de dois filhos, comprava uma caixa de frango de Jorge Barbosa no momento que foi entrevistado. Logo depois, mostrava orgulhoso a placa em que anunciava a venda de caldo de galinha “brasileira”. “Compro quase tudo de que necessito aqui mesmo no Brasil e levo para Iñapari. Nossa esperança é de que, com a construção dessa ponte, todos nós sejamos beneficiados com desenvolvimento e maior movimentação de dinheiro.”

Símbolo de resistência

Lucídio Ferreira Mendonça, 53 anos, pai de quatro filhos, nasceu e sempre viveu na fronteira onde mora, na colônia Santa Lúcia, seringal São Francisco, localizado três horas acima da cidade de Assis Brasil. “Perdi a conta de quantas vezes gastei três ou quatro dias para ir a pé de Assis Brasil até Brasiléia em busca de tratamento de saúde. Muita gente morreu aqui sem ter condição de chegar lá. O asfaltamento da estrada mudou muito a nossa vida e a esperança é de que a ponte traga mais progresso e empregos para o povo de nossa cidade.”

Esperança no futuro

O comerciário Otonoel de Souza Martins, que trabalha no Comercial JB, o maior supermercado de Assis Brasil, estava vendendo por R$ 4,5 mil os três terrenos de 36 por 12 metros cada um a fim de usar o dinheiro na conclusão da obra de alguns quartos que seu pai está fazendo para alugar. “Desisti da venda porque sei que, com a abertura da ponte, nossos terrenos e casas vão valorizar. Por isso estou preferindo continuar com o terreno e esperar uma melhor oferta. Sei que vou ganhar mais com isso”, destacou.

 
 
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Rio Branco-AC, 12 de agosto de 2004
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