ESPECIAL
   ESPECIAL

Encontro dos Povos da Floresta vai fortalecer entidades indígenas e extrativistas

Cedida
Secretário dos povos
indígenas Francisco Pianko


Flaviano Schneider

O III Encontro dos Povos da Floresta vai acontecer em Cruzeiro do Sul, de 23 a 27 de setembro. Ontem foram acertados os últimos detalhes no Ministério do Meio Ambiente e há a possibilidade de a ministra Marina Silva participar do encontro. No Vale do Juruá é grande a expectativa em relação ao encontro que reunirá os povos indígenas, seringueiros e agroextrativistas, já que se considera que é o momento de esses segmentos mostrarem o seu valor, analisarem suas conquistas históricas e os resultados dos encontros anteriores, mas principalmente, como equaciona o secretário dos Povos Indígenas, Francisco Pianko, formalizar uma agenda na qual os povos da floresta participem de forma dinâmica e independente no desenvolvimento do Estado baseados no tripé desenvolvimento sustentável, valorização da biodiversidade e da etnodiversidade.

O encontro deve reunir sete associações de seringueiros e extrativistas, 16 associações indígenas, 15 associações de produtores rurais e cinco sindicatos de trabalhadores rurais do Vale do Juruá. Segundo o secretário-geral de um dos proponentes do encontro, a Associação dos Seringueiros e Agroextrativistas da Bacia do Rio Croa e Alagoinha (Asaebrical), Davi Nunes de Paula, a proposta da programação do encontro prevê que nos cinco dias do encontro sejam discutidos os assuntos agrupados em cinco temas: “Panorama da nossa região”, “Nós, os povos da floresta”, “A nossa Universidade da Floresta”, “Nós e o poder público” e “Nossos próximos passos”.

Muitas conquistas nos últimos anos

Segundo o secretário de Estado dos Povos Indígenas, Francisco Pianko, uma constatação importante deve ser mostrada: os povos da floresta avançaram muito nos últimos anos na procura de seu espaço. "Hoje somos reconhecidos e os problemas que temos estão sendo trabalhados. Ser da floresta não significa mais ser incapaz ou ser ignorante. Mostramos que não somos inferiores, mas diferentes, temos nossas necessidades, nossa cultura. Nossa vida e nosso relacionamento com a floresta nos deu saberes que acabaram sendo valorizados".

Para ele, as forças dominantes e mesmo o poder público deixou de olhar para os povos da floresta apenas como mão-de-obra barata. Não foi uma conquista rápida - segundo recorda- antes, demandou anos de luta envolvendo os povos indígenas, as pessoas que tinham uma visão diferente da dominante e se engajaram na luta indígena e por outro lado a luta dos seringueiros, com destaque para a história de Chico Mendes na luta pela preservação da floresta. "Até o Governo da floresta é conseqüência desse processo"- analisa.

Ocorre, no entender de Pianko, que depois de várias conquistas como a demarcação das terras indígenas e a crescente valorização de suas culturas, a implantação das reservas extrativistas, o movimento dos Povos da Floresta viu-se momentaneamente esvaziado, alguns se acomodaram um pouco, tanto os índios nas aldeias ou os seringueiros nas reservas. Cada um ficou na sua.

Daí, a importância deste terceiro encontro, segundo Pianko. O momento é de reflexão e os objetivos são garantir as conquistas e fortalecer todos os segmentos dos povos da floresta. Na sua opinião chegou o momento de mudar o conceito da maneira como as coisas acontecem. É preciso unir e fortalecer os variados segmentos de maneir a que eles próprio possam refletir de que maneira tomarão parte ativa no desenvolvimento do estado. "Não dá mais para ficar esperando pelo governo. Temos que nos organizar para sermos instrumentos ativos deste desenvolvimento desde que seja respeitada a etno-bio-diversidade. Assim participaremos do processo econômico do Acre com nossas riquezas culturais e as da natureza".

Pianko vê um grande futuro no turismo cultural, no ecoturismo, na exploração de produtos não-madeireiros, etc, mas adverte que não se deve ficar esperando as encomendas, como sempre foi até hoje. A intenção, segundo ele, é abrir os mercados, através de produtos que tenham valor agregado, possibilitando assim gerar renda e qualidade de vida para todos os povos da floresta.

Também diz que o importante é mudar a forma como as coisas são feitas. Ele explica que geralmente quando se formula um projeto ele é feito de cima para baixo e exige uma contrapartida da aldeia indígena. Agora, o objetivo é considerar a aldeia como maior que qualquer projeto, mas se o projeto aparecer ele será incorporado como mais um elemento no contexto geral da programação da aldeia e não o contrário quando o projeto era considerado mais importante que a própria aldeia.

Pianko ainda comenta que esta análise é feita a partir de sua condição de cidadão da floresta. Como secretário de Estado ele orienta no sentido do fortalecimento dos povos indígenas de maneira que eles sejam os donos de seus projetos, atinjam a independência e possam perpetuar sua cultura com qualidade de vida.

“É hora de se firmar”

Para o secretário-geral da SOS Amazônia, Miguel Scarcello o encontro dos povos da floresta reveste-se da maior importância para o movimento social e para o desenvolvimento, especialmente, da região do Juruá. Para ele, o encontro deverá formalizar uma atuação mais compacte dos povos da floresta em torno de cobranças de políticas públicas. "É o momento de se afirmar como movimento"- diz.

Ele informa que 65% do território do Vale do Juruá é área federal, sejam as terras indígenas, as reservas extrativistas ou as unidades de conservação. Desta maneira é importante a união dos povos para saber articular junto aos gestores federais as cobranças para trazer os benefícios existentes. Para ele, o momento é de fortalecer o movimento, tornar os povos da floresta auto-suficientes. "Os governos passam e o movimento fica. A hora é de aproveitar e fortalecer os povos da floresta, torná-los independentes para que não fiquem à mercê de outras concepções no futuro" concluiu.

Uma história de lutas

Em 1996, o governo estadual de então demonstrou falta de respeito com as comunidade tradicionais ao elaborar um EIA-RIMA falho em relação aos trabalhos de asfaltamento no trecho Rodrigues Alves-Tarauacá. Para que não sofressem prejuízos as comunidades tradicionais , as organizações de trabalhadores índios e não índios do Vale do Juruá fizeram o I Encontro do Povos da Floresta que contou com a participação de 22 entidades de trabalhadores de órgãos da esfera federal. Muitas das reividicações da época acabaram sendo pouco a pouco atendidas.

O II Encontro aconteceu entre os dias 28 de abril e 1ºde maio de 2003, quando estiveram presentes sindicatos, associações de trabalhadores rurais e agro extrativistas, entidades indígenas, movimento de mulheres, organizações não governamentais, representações parlamentares e organizações governamentais da esfera municipal, estadual e federal.

Nessa oportunidade o Encontro dos Povos da Floresta se propôs ser um fórum de discussão e de construção participativa sobre a realidade social, econômica, política e ambiental do Vale do Juruá. Para tanto, foram realizados grupos de trabalho temáticos, mesas redondas e plenárias, resultando em um diagnóstico participativo da realidade daquele tempo, além do encaminhamento de propostas concretas para construção do desenvolvimento sustentável, da atualidade e do futuro dos Povos da Floresta do Vale do Juruá Acreano.

Contudo, mesmo por ocasião da primeira gestão do governador Jorge Viana à frente do Palácio Rio Branco, e apesar do interesse por parte do governo para com as populações tradicionais da floresta, as organizações juruaenses não tomaram a iniciativa de se reunir para oferecer propostas de forma conjunta e esta fragilidade significou atraso no desenvolvimento das entidades representativas, a ponto de dificultar seu crescimento. Desta forma, surgiu a necessidade da realização deste III Encontro.

Através do III Encontro, os povos da floresta do Juruá acreano querem recuperar a força positiva que já foi demonstrada por esta aliança em outras ocasiões.

Muita gente envolvida no encontro

Entidades proponentes: Associação dos Seringueiros Agro-Extrativistas da Bacia do Rio Crôa e Alto Alagoinha (Asaebrical), Centro Medicina da Floresta, Conselho Nacional dos Seringueiros Regional do Vale do Juruá, Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (Opirj), Comissão Pastoral da Terra (CPT-CZS), Organização dos Professores Indígenas do Acre (Opiac), Grupo de Trabalho Amazônico (GTA Nacional), SOS Amazônia, Comissão Pró-Índio do Acre - CPI, Associação do Movimento dos Agentes Agro-florestais Indígenas do Acre (Amaiac)

Entidades executoras: Associação dos Seringueiros Agro- Extrativistas da Bacia do Rio Crôa e Alto Alagoinha (Asaebrical), Centro Medicina da Floresta, Conselho Nacional dos Seringueiros Regional do Vale do Juruá, Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (Opirj), Comissão Pastoral da Terra (CPT/CZS), Organização dos Professores Indígenas do Acre (Opiac), Grupo de Trabalho Amazônico (GTA Nacional, SOS Amazônia, Comissão Pró-Índio do Acre (CPI), Associação do Movimento dos Agentes Agro-florestais Indígenas do Acre (Amaiac).

Apoio: Ministério do Meio Ambiente Cnpt, Ibama, Arpa, Governo do Estado do Acre, Secretaria dos Povos Indígenas (Sepi), Imac-Ac, Ministério da Ciência e Tecnologia, Ministério da Saúde, Gabinete dos senadores Tião Viana (PT) e Sibá Machado (PT) e deputado Henrique Afonso (PT).

 
 
© Copyright Página 20 todos os direitos reservados    -      Imprimir       -       TOPO
Rio Branco-AC, 12 de agosto de 2005
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Com Leonildo Rosas
 
 
P E S Q U I S A

 COTIDIANO
 COLUNAS
 EDITORIAL
 ENTREVISTA
 ESPECIAL
 ESPORTE
 POLÍTICA
 OPINIÃO
 VIA PÚBLICA
 VARIEDADES
 EDIÇÕES
 EXPEDIENTE
 E-MAIL