OPINIÃO
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Sandra Starling *

 

Para não dizer que não falei de flores

Em meio a desmandos, escândalos, mentiras e hipocrisias, procuro me ancorar na esperança de que dias melhores virão, senão para a minha geração ou a de meus filhos, pelo menos para meus netos. Vem à minha mente, nessa hora de tanta angústia, um trecho do testamento de Trotski: “a vida é bela, que as gerações futuras a limpem de todo o mal, de toda opressão, de toda violência e possam gozá-la plenamente”.

Enquanto esse futuro não vem, debruço-me sobre as análises que aqui e ali buscam explicar “a tragédia do PT”. Em especial, o brilhante artigo de Renato Janine Ribeiro, publicando no caderno “Prosa e Verso” da edição de O Globo do último sábado, sob o título “A crise que nos constrange”, nos convida à reflexão. Peço licença ao leitor para reproduzir aqui duas observações daquele filósofo no referido ensaio. Diz ele, inicialmente: “não se resolve a crise da esquerda no poder, que hoje vivemos, sem uma grande limpeza pública de roupa suja. O PT, mesmo na maior crise de sua história, é ainda o partido mais escolado na discussão interna, custe-lhe ela o que custar. Não pode desperdiçar esse patrimônio – que, aliás, não lhe pertence mais: é da sociedade brasileira. Aliás, ele deve se antecipar, e apurar por conta própria o que se fez de errado”. E acrescenta: não adianta nos refugiarmos na solução default dos brasileiros para as crises políticas, que é fugir para os valores da vida privada, mais uma vez renunciando a construir um espaço público, uma res publica. Está mais que na hora de cessarmos o movimento pendular entre as declarações de grande honestidade – mas a preço de não conseguirmos agir – e uma prática que renega toda teoria, toda idéia, todo ideal. É hora de criticarmos as práticas a partir das idéias, e as idéias a partir das práticas. O erro da “realpolitik”, talvez no próprio PT, foi valorizar uma prática sem ideais ou idéias. O erro de alguns críticos de esquerda ao atual governo é valorizar idéias e ideais sem compromisso prático”.

Não posso deixar de confessar que, a cada dia, cresce o meu desejo de esquecer que a política foi, em vida, a minha grande paixão. A letargia da direção petista quanto a levar a sério o chamamento de Janine Ribeiro me irrita e alimenta em mim, ainda mais, o desejo de apagar da memória o partido que ajudei a fundar e que parte dos “companheiros dirigentes” ajuda a afundar. Penso em meu refúgio, no meio do mato, em Santa Luzia do Rio das Velhas... Mas a isso se sobrepõe um pensamento ainda mais forte. Lembro-me, nesta hora de aflições, de Joaquim de Oliveira, o velho metalúrgico negro, semi-analfabeto, líder das greves de 68, em Contagem, que se candidatou ao Senado, pelo PT de Minas Gerais, em 1982, desafiando ninguém menos que Itamar Franco. Nas poucas horas vagas, durante a campanha eleitoral, “Seu” Joaquim saía de porta em porta, vendendo tempero, para pagar o dízimo devido ao PT. Cumpria a obrigação com a mesma dedicação evangélica de quem, seguindo as palavras do profeta Malaquias, entregava ainda um outro dízimo à Igreja Batista.

“Seu” Joaquim conseguiu pouco mais de cem mil votos, naquelas eleições; pouco mais de um por cento dos votos válidos. Mas lançou as sementes. E para não dizer que não falei de flores, delas falo, como falo das sementes, recordando as maravilhosas palavras de meu saudoso amigo Henfil, em face do fracasso do PT naquelas eleições: “Se não houver frutos, valeu a beleza das flores; se não houver flores, valeu a sombra das folhas; se não houver folhas, valeu a intenção da semente”. Ante a tragédia do PT, reafirmo que valeu a intenção da semente. Sempre valerá a intenção da semente, até frutifique um Brasil em que a dignidade prevaleça.

* Bacharel em Direito, mestre em Ciência Política, ex-deputada federal (PT-MG) e assessora do senador Tião Viana (PT-AC)

 

 
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Rio Branco-AC, 12 de agosto de 2005
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