OPINIÃO
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Tião Gomes Pinto *

 

Lula foi ótimo. Só devia ter ido na Globo, no Rio

Comentários sobre a entrevista do presidente Lula à dupla William Bonner/Fátima Bernardes, o casal implacável do JN.

Primeira constatação: Lula enfrentou durante 9 minutos e 12 segundos perguntas sobre a “questão ética”, o ponto que seus estrategistas achavam mais delicado da entrevista. Enfrentou e saiu-se bem. Lula, pela primeira vez, teve de responder à pergunta sobre o “caso” Paulo Okamoto, outro tema sempre evitado. Bonner dividiu a pergunta em duas. Primeiro estranhou o pagamento de uma dívida de Lula por Okamoto sendo que o candidato teria condições de pagar a dívida feita junto ao PT. Resposta perfeita de Lula. Disse que achava que não devia nada ao PT na época. E continua achando que não deve. Okamoto pagou porque quis pagar. E, segundo Lula, admitiu o erro. Ponto para Lula. Placar 2 a zero para o candidato!

Quando Bonner volta à carga, indagando por que razão Paulo Okamoto resistiu às pressões para abrir seu sigilo bancário, Lula responde que era um direito dele, Okamoto. Disse que essa questão de quebra de sigilo pode acontecer com qualquer pessoa, inclusive com ele Bonner. O entrevistador poderia ter oferecido a quebra do seu sigilo. Não o fez.

Enfim , o presidente poderia sair de campo com uma goleada sobre a dupla do JN. Inclusive enfrentou outra pergunta complicada, quando Bonner disse que, mesmo depois das denuncias de corrupção, Lula declarou publicamente sua solidariedade a membros da sua equipe. E ao mesmo tempo disse que foi traído. Resposta mais uma vez perfeita. Onde está o José Dirceu ? E o Palocci. “Eu afastei todos”, disse o presidente.

Pode não ter sido exatamente assim, mas teve bom efeito junto ao eleitorado. O homem tem autoridade. Outro golaço de Lula.

Menos convincente e dúbia foi a resposta de que expressou sua solidariedade a companheiros que ainda não foram julgados em instância definitiva.

Em compensação fez um gol de placa quando respondeu o que achava do Procurador-Geral da República ter qualificado vários de seus auxiliares como membros de “uma quadrilha”.

Lula disse, primeiro, que foi ele quem escolheu o Procurador-Geral para o cargo. Segundo, que ele nem conhecia o procurador. E terceiro, que o procurador estava cumprindo a sua missão. O ultimo “chapéu”, antes do arremate final, foi lembrar que o “outro” procurador engavetava tudo.

Em resumo, a vitória seria por goleada. Pena que Lula tenha insistido demais no trabalho competente da Policia Federal e afirmado que está investindo pesado na área de inteligência da PF, o que tem permitido a ela desbaratar quadrilhas “históricas”, que vinham praticando crimes há anos. Essa historia de investimento pesado na PF é menos verdade. Ou “menas”, como diria o outro Lula, o metalúrgico.

Os nossos “federais” têm feito um belo trabalho apesar da falta de recursos materiais. Para o eleitor, que não sabe do dia-a-dia da administração, fica valendo a versão do presidente.

Foi tudo perfeito, inclusive a escorregada final, quando Lula disse que os salários estão baixando, quando queria dizer que a inflação está baixando. Lapsos desses acontecem com qualquer ser humano. Mostra que Lula não funciona como uma máquina.

Aliás, embora disfarçando o máximo, percebia-se que o candidato estava nervoso. Mais uma dado para “humanizar” o personagem.

Houve só uma grande e lamentável falha, e dela o presidente pode nem ter culpa. A entrevista deveria ter sido feita nos estudios da Rede Globo, no Rio. Lula deveria sentar-se na mesma cadeirinha onde sentaram Alckmin, Heloisa Helena e Cristovam Buarque. A solenidade do Palácio da Alvorada, com aquela biblioteca virgem e imaculada ao fundo, deu ao evento uma solenidade que Lula não precisava. E não merecia.

* Jornalista, editor e fundador da revista Veja e do Jornal da Tarde. Foi articulista e repórter da Folha de S. Paulo e de O Estado de S. Paulo

 

 
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Rio Branco-AC, 12 de agosto de 2006
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