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No coração da floresta Trabalhando em parceria com seringueiros e índios, pesquisadores da Ufac querem desvendar os segredos da natureza |
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Uma visita ao seringal Cachoeira quando ainda era estudante de biologia levou Marcus Athaydes a se apaixonar pela floresta e transformar-se num dos mais ardorosos defensores do manejo florestal. Hoje, professor de biologia da Universidade Federal do Acre no Campus da Floresta, onde está instalado o Centro de Ciências Biológicas e da Natureza, mais conhecido como Universidade da Floresta, ele demonstra preocupação com as práticas de manejo “ditas” sustentáveis quando nem sempre há um estudo mais aprofundado de cada caso. Entre os milhares de espécies da flora da Amazônia, Athaydes está especialmente preocupado com o manejo das palmeiras, com destaque para a exploração comercial cada vez mais intensa das espécies murmuru, jarina e açaí. “Embora haja um discurso de que a coleta das sementes não afetaria a vida na floresta, os que dizem isso não levam em conta o fato de que essas sementes alimentam inúmeras espécies de roedores e insetos que têm grande importância para a renovação natural e, em última instância, para a própria sobrevivência da floresta”, adverte o biólogo. Solução é pesquisar - Mas as preocupações e indagações de Athaydes deverão ser respondidas por ele mesmo e outros cientistas ligados à Ufac, graças à aprovação de R$ 1 milhão da Finep, instituição que financia estudos e pesquisas públicas no Brasil. Os recursos vão bancar a montagem de onze laboratórios do Instituto da Biodiversidade (IB), instituição integrante do Campus da Universidade da Floresta especialmente dedicado à realização de pesquisas etnobotânicas e sócio-ambientais. “Esses estudos serão realizados pelo IB em parceria com outras instituições de pesquisas de todo o Brasil para que possamos ter diagnósticos mais rápidos e precisos sobre os recursos naturais disponíveis em nossas florestas como, por exemplo, novos princípios ativos de medicamentos extraídos de ervas já conhecidas da medicina popular amazônica e sua aplicação com benefícios garantidos para as comunidades descobridoras dessas propriedades”, adiantou Athaydes. De acordo com ele, o projeto dos onze laboratórios foi elaborado de acordo com as especificações e necessidades fundamentais propostas pelos próprios pesquisadores que trabalharão neles, sendo, portanto, mais práticos para o uso em regiões às quais, na maioria das vezes, o acesso é um tanto complicado. “Nossa preocupação está sendo a de garantir primeiro a estruturação do centro de pesquisas da Ufac, e é isso que estamos fazendo, para então disponibilizar condições a que outras universidades e instituições de pesquisas do Brasil venham trabalhar em parceria conosco”, afirmou. Embora o Acre e sua gente, que, por seu modo de vida “seringueiro”, criou o conceito da florestania, Athaydes adverte que a boa vontade é importante, mas não suficiente para garantir a verdadeira sustentabilidade da floresta. Lembra que se fala muito em desenvolvimento sustentável, mas para que isso aconteça de fato é necessário conhecer em detalhes o funcionamento da natureza no próprio ambiente. “Minha preocupação particular está voltada às palmeiras, até porque, se a coleta das sementes, aparentemente não causa danos à floresta, essas mesmas sementes são importantes na dieta de animais e insetos que integram o sistema. Por isso é preciso determinar o quanto de sementes podemos recolher sem causar desequilíbrios que causarão prejuízos à floresta e a nós mesmos no médio ou longo prazo.” Conhecimento tradicional O pesquisador não se envergonha de curvar-se diante do conhecimento acumulado por seringueiros, colonos e índios que embora muitas vezes analfabetos, carregam em si mesmo uma vastidão de conhecimentos sobre como funciona a floresta e de como sobreviver nela. “Eu conheço biologia, o seringueiro e o índio conhecem a floresta, por isso é importante, mais do que respeitar, é unir o conhecimento científico ao conhecimento tradicional para que, trabalhando em parceria, possamos construir um novo modo de compreender as coisas da natureza. Essa é a essência da Universidade da Floresta”. Pesquisar é preciso É cada dia maior a preocupação com a biopirataria, roubo de recursos genéticos e princípios ativos da fauna e flora amazônica, como também da etnopirataria, que é o roubo dos conhecimento milenares acumulados por índios, seringueiros e colonos sobre as coisas da floresta. Isso tudo vem sendo levado por pesquisadores estrangeiros ou brasileiros que a serviço deles roubam produtos e conhecimentos que deveriam estar sendo pesquisados e desenvolvidos por instituições brasileiras, o que raramente acontece de fato. Dentre os dez projetos que estarão sendo executados com os recursos da Finep, está o da venda de crédito de carbono. “A maioria das pessoas não sabe, mas cerca de 90% do corpo da maioria dos organismos vivos é composto de carbono. A floresta captura esse carbono que está poluindo o ar e o transforma em folhas e madeira melhorando as condições de vida no mundo. Por isso os países mais industrializados estão pagando créditos de carbono a quem preservar sua floresta ou fizer reflorestamentos que ajudem a capturar o carbono que está alterando o clima na terra”. O estudo visa determinar o quanto cada hectare de floresta acreana capta e detêm desse carbono, para que o Estado possa ser compensado financeiramente com isso transformando esse recurso em benefícios para a população. Outra pesquisa trata da descoberta de novas proteínas em elementos da fauna e flora regional. Proteínas estas que poderão ser utilizadas no desenvolvimento de medicamentos e outros produtos de importância para a humanidade. Por fim, será também desenvolvido um projeto de criação de peixes nativos, tanto voltados à alimentação humana quanto ao aquarismo ornamental. Já, em parceria com o Ibama, o IB estará desenvolvendo um projeto de identificação de novas espécies madeiras de interesse comercial. |
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