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Rio Acre pede socorro

Placa fincada no afluente parece ser o atestado de óbito do principal manancial do Estado

Marcos Vicentti
Placa fixada no meio do rio alerta para a morte anunciada do principal curso de água da cidade. Pescadores esforçam-se para desencalhar canoa


Whilley Araújo

O rio que deu vida ao Acre agoniza e pede socorro. Uma placa fixada entre as proximidades da passarela Governador Joaquim Macedo e a ponte Juscelino Kubitschek parece ser o atestado de óbito do principal afluente do Estado.

A diversidade de produtos encontrados no rio Acre, principalmente no trecho entre o porto da Cadeia Velha e o Calçadão da Gameleira, chega a lembrar os materiais utilizados para reaproveitamento em usinas de reciclagem. O acúmulo de lixo no local é cada dia maior, embora muitos órgãos ligados ao meio ambiente e autoridades da área preguem discursos e acenem com mobilizações de preservação.

Quem passa pelas proximidades das duas pontes no centro de Rio Branco também pode perceber facilmente o contraste existente entre as belezas do patrimônio histórico acreano e a degradação do rio mais importante da região.

Lá, o lixo é formado por detritos que vão desde troncos de árvores, cadeiras a restos de animais, causando indignação em quem necessita das águas do velho rio para navegar e também sobreviver.

Na manhã de ontem, a decepção marcou duas jovens estudantes que estavam nas proximidades das margens do rio Acre no intuito de pousar para belas fotografias de aparelhos celulares.

Segundo elas, a primeira vista do afluente era bem atrativa, mas a visão mudou quando chegarem mais perto da água.

“Quando observávamos o rio de longe, não tínhamos noção da quantidade de lixo existente nessa parte do afluente. Acredito que é necessário ser feito um grande trabalho de conscientização da população, havendo ainda pessoas que teriam como função única cuidar para que nenhum tipo de lixo fosse jogado na água. Além disso, se houvesse punições mais severas para quem pratica esse delito ambiental a situação do rio Acre poderia estar bem melhor”, frisou a estudante Fernanda da Silva.

Seguindo a mesma linha de pensamento, a amiga Tatiana Cardoso lembrou que um tempo atrás foi feito um trabalho de revitalização do igarapé São Francisco, afluente que corta o bairro onde a estudante mora. Porém, meses após a limpeza, o local foi tomado de lixo.

“De nada adianta ser feita uma grande mobilização em prol da limpeza dos rios e igarapés se a população do Estado não se conscientizar da importância que essas águas têm para nossas vidas e de nossos futuros filhos e netos”, argumentou Tatiana.

Segundo informações da Defesa Civil, além da sujeira que é facilmente vista por quem passa diariamente pelas proximidades do rio Acre, o nível das águas do afluente também é preocupante, pois na manhã de ontem a régua utilizada para fazer a medição do índice das águas cravava 2,02 metros.

“Graças a Deus choveu nas cabeceiras do Rio Acre ultimamente, fazendo inclusive com que o nível das águas subisse 11 centímetros da última segunda-feira para ontem. Mesmo assim, continuaremos de prontidão para atender qualquer ocorrência decorrente da seca do rio”, destacou o coronel José Ivo, chefe de Operações da Defesa Civil.

Ribeirinhos sofrem o drama da estiagem

O longo período de estiagem que o Estado vive todos os anos, principalmente de julho a setembro, é sentido na pele pelas famílias ribeirinhas, que têm o rio Acre como principal via de acesso para o transporte de seus produtos até os mercados da capital.

Muitos deles passam até dois dias inteiros dentro de barcos e batelões para se deslocar de seus seringais e colocações até Rio Branco nessa época do ano, quando o tempo máximo gasto para fazer o mesmo percurso durante o período chuvoso é de no máximo quatro horas.

É o caso do agricultor Gerson Tito, morador do seringal Iracema, nas proximidades de Xapuri. “A maior dificuldade que enfrentamos é pelo fato de haver muitos troncos de árvores e outros paus pelo rio - que já está bastante seco -, fazendo com que temamos que esses entulhos furem as nossas embarcações ou nos deixem encalhados distantes de casa”, revelou Tito.

O pescador José Carlos Nascimento, que navega diariamente pelo rio, contou que todas as pessoas que trafegam pelo afluente no sentindo porto da Cadeia Velha/Calçadão da Gameleira são obrigadas a trafegar pelo lado direito quando se aproximam da ponte metálica, tendo em vista que uma manobra pelo centro ou pelo lado esquerdo pode causar um furo na canoa.

“O lado direito é bem mais fundo, nas outras partes nós podemos até ficar em pé que a água não ultrapassa a altura do joelho”, assegurou o pescador, que ontem precisou da ajuda do companheiro de trabalho para empurrar a canoa que ficou encalhada durante uma manobra pela parte central do Rio Acre.

Pensando o rio Acre de amanhã

Os primeiros desbravadores que tocaram o solo acreano e chegaram à região em grandes navios contemplaram deslumbrados uma floresta de imensas árvores e animais de todas as espécies. Elas formavam um corredor verde que ladeava o rio Acre, antes robusto, profundo, largo e de águas turvas.

Esse mesmo rio era a única via de acesso para o transporte dos produtos que abasteciam os primeiros povoados que se formaram na área do Calçadão da Gameleira. Porém, a ação do homem ao longo dos tempos causou mudanças drásticas nesse cenário, que nada lembra o cartão-postal que encantou os primeiros nordestinos e sírio-libaneses que desembarcaram por essas bandas.

Para Ivanilde Lopes da Silva, que faz parte do grupo Amigos do Rio Acre, o ideal seria que fossem criadas imediatamente políticas públicas de atenção e preservação ao afluente, para que a mesma paisagem vista há dezenas de anos pudesse novamente ser observada atualmente.

“Para evitar que aconteça o pior com o rio Acre, é necessário mobilizar toda a sociedade para que deixe de jogar lixo principalmente nos igarapés que deságuam no rio. Além disso, os órgãos ambientais precisam adotar medidas firmes para que as águas sujas dos esgotos da capital não se misturem com o afluente”, salientou Ivanilde.

Ela sugere ainda que sejam feitos trabalhos educativos e de conscientização nas escolas ribeirinhas, para que assim as crianças já cresçam tendo consciência da importância da preservação dos recursos naturais.

“As pessoas precisam ter bastante cuidado com essas fontes naturais, lembrando sempre que as futuras gerações irão necessitar desse mesmo rio para sobreviver. Se continuarmos poluindo dessa forma, ele não sobreviverá por muito tempo”, alertou.

 
 
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Rio Branco-AC, 12 de setembro de 2007
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