OPINIÃO
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José Cláudio Mota Porfiro *

 

Da corrupção

Não sou economista. Negocio tão somente algumas idéias, principalmente, no campo dos estudos filosóficos. Como a Filosofia é por demais abrangente, cabe-me, aqui, fazer abordagens apriorísticas, iniciais. Preferiria, é claro, que um especialista tratasse o tema. Afinal, sou apenas um livre pensador com algum vínculo epistemológico com a Academia.

Não é da minha índole a inércia ou o pacifismo, assim como não estou aqui para justificar corruptos ou corruptores. Aquele que for julgado e condenado, dentro dos mais legítimos preceitos legais, deve ter o castigo do tamanho do crime. Se o corrupto pode ser acusado de, indiretamente, matar uma criança de fome, que se lhe apliquem a pena máxima do homicida... E amanhã de manhã estará o arrependido fervoroso a mendigar o perdão de Deus já tornado pastor de mil almas endemoniadas.

O terceiro mundo, em seu processo de desenvolvimento inconsistente, é afetado sobremaneira pelos compromissos financeiros externos e pelos juros exorbitantes das dívidas para com os mais ricos, de quem nunca consegue abater parcela mínima que seja do principal, com raríssimas exceções.

Então, conseqüência avassaladora ocorre em nível psicológico. As consciências atônitas, na busca de saídas para os impasses da vida pessoal, considerando notadamente problemas financeiros, se lançam na aventura que é apossar-se daquilo que não é exatamente seu, mas de outrem, ou do grande grupo de pagadores de impostos que quer o bem público erguido ou preservado. Esses são os corruptos que, no mais das vezes, têm como base para os seus abusos a influência nefasta dos corruptores. Estes ganham muito mais que os primeiros. Pior é notar que tribunais e corregedorias levam meses ou anos para chegar à origem dos crimes.

Assim, justos e acordados, cada qual cumprindo o seu papel, o roubo é perpetrado segundo justificativa quase óbvia. A idéia é locupletar-se e tirar do erário público o proveito máximo, enquanto não vem o gringo cobrador dos juros de uma dívida que a nossa geração não fez. É tudo na base do salve-se quem puder. Enquanto o banqueiro não rouba a Nação-povo no vencimento da parcela, o corrupto aproveita a ocasião e, em alguns minutos, frauda um programa de informática e rouba o cobrador nefasto e o povo necessitado.

No caso brasileiro, notadamente depois que FHC comprou os acreanos que votaram a favor da sua reeleição, a ação dos corruptos foi quase legitimada por uma tradição segundo a qual o caixa dois sobrexistirá a todo e qualquer solavanco. Vem da Colônia e do Império. Qualquer plantador de cana podia e pode financiar a campanha de um apaniguado seu, como fizeram as empreiteiras de obras civis, as montadoras de carros, dentre outras, desde a época de Juscelino.

Dentro dos quadros do PT, já podemos apontar um bom número de agentes da sabotagem eleitoral. É claro que há, hoje, um verdadeiro massacre promovido pela oposição. Como disse Luis Fernando Veríssimo, há certos políticos e certa imprensa que nunca aceitaram um ex-metalúrgico que fala errado na Presidência. Querem aproveitar para depô-lo, “no que seria uma vitória do preconceito sobre o bom senso”. É claro que devemos ver que, por trás da crise, há o auto-emporcalhamento do PT, mas há também o pavor que a elite tem do povo. “Querem acabar com a raça da esquerda, como disse, com exemplar honestidade Jorge Bornhausen, o senhor do PFL”.

Enquanto o dinheiro da dívida do terceiro mundo não cai nas garras do FMI, a canalha se sente até no direito de roubar o que poderia vir para benefício da Nação. Pensam os corruptos que é melhor dar pros gatos que são de casa, que pros ratos americanos que são de fora.

* Doutor em Filosofia e História da Educação / Unicamp. Pesquisador do Depto. de Filosofia e C. Sociais / Ufac.

 

 
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Rio Branco-AC, 12 de novembro de 2005
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