VARIEDADES

Festival Varadouro

 


O jornal Página 20 continua trazendo informações e entrevistas exclusivas com as bandas que participam do Festival Varadouro, que vai acontecer no dia 19 de novembro, em Rio Branco, onde 10 bandas de rock vão se apresentar. O evento é uma iniciativa do selo fonográfico Catraia Records em parceria com a Pop Show Eventos e a Festa Boa Produções. O Festival Varadouro é um projeto aprovado pela lei municipal de incentivo à cultura, tem o patrocínio do Banco do Brasil e conta com o com o apoio do Governo do Estado. A banda de hoje é a Quilomboclada, um dos maiores expoentes da responsabilidade social da música na região norte.

Cedida

Sobre a Quilomboclada

Na língua dos negros, ‘quilombo’ significava povoação, capital, união; no Brasil, teve por significado local de refúgio. A salada de ritmos, as influências tão absurdas quanto originais resultaram num som diferenciado, íntegro às suas raízes “beiradeiras”, de onde origina a inspiração de seus integrantes. A batida que vem do boi-bumbá e dos batuques dos terreiros, as guitarras do rock, os vocais falados do hip hop, com a poliritmia sincopada do samba de roda, da música de raiz, é tudo misturado, numa coesão que extrapola os limites da compreensão, como mesmo afirmam seus principais articuladores, Boca e Samuel (vocalistas e letristas), é algo que dá certo, uma química que combina em perfeita harmonia. “O nosso som não é uma revolução, mas uma ‘devolução’ cultural”, disse Boca.   A Quilomboclada busca transmitir essa musicalidade afro-indígena, em sua gama de influências, com uma cara urbana, na linguagem do hip hop, priorizando sempre a valorização da cultura beiradeira, no linguajar próprio da região, envolto pela sua “química sonora e poética”, que lembra o vigor de Chico Science e a percussividade do Cascabulho. A banda é formada por Samuel, Mc Radar e Boca (vocais), Mestre Xoroquinho, Tino (percussão), Laureano (bateria), Flamarion (guitarra), Foca (baixo), DJ Vilson (Pick-ups e base), Flávio (roudie) e Fábio Simões (produção).

Soul Quilomboclada

De um lugar muito distante
Vem surgindo a caboclada
No estilo viajante
Na bagagem a pancada
Demarcando território
Fé em deus e pé no chão
Se o passado não foi justo
Vai virar revolução
 
Soul Quilomboclada
Segura o peso
Agora é Sou Quilomboclada
 
Conheço gente fina
Se suja se “alimpa”
Na fuga de um passado de esquinas
Na luta pela vida se supera
Faz o clima, adrelina da pura música de rua
Agulha de costura na boca de pagar sapo
Pra ser irmão tem que
E nessa guerra somos todos aliados
Pequenos soldados, de pensamento blindados
Ligados, sintonizados
Na quantia de “malungos’ por metro quadrado.
Espaço aéreo fechado pro inimigo
Se eu abrir mão de você renego a Cristo
Se, só o seu corpo vale mais do que você tem no bolso
Sua alma caboclo vale mais do que o mundo todo
 
Faça a coisa certa pra você prosperar
Faça a coisa certa pra você caminhar
 
Eu me apresento, sou negro e caboclo
Afro-indígena daqueles bem louco
Se você gosta de tudo que é pouco
Eu e você somos apenas o oposto
Já caí, já chorei, sofri
Pelo meu corpo tenho as marcas de Caim
Eu sigo em frente
Minha aldeia é diferente
O meu povo é consciente
Por que sabe a dor da gente
Já quebramos a corrente que você me colocou
Paulo Freire me ensinou, no passado ele lutou
Hoje eu sei a diferença do oprimido e o opressor
 
Eu tô na proa, eu tô de boa
Se vacilar, eu viro essa canoa

Serviço

O que: Festival Varadouro com as bandas Automas (RJ), Vanguart (MT), Quilomboclada, SucodinoiS e Coveiros (RO), Los Porongas, Camundogs, Caricatus, Pia Vila e Nicles (AC). Vários DJ´s.
Onde: Mamão Café
Quando: 19/11, a partir das 20:00
Informações: www.festivalvaradouro.com e www.popshoweventos.com.br

ENTREVISTA

Que som vocês fazem?

O som do Quilomboclada é um som eclético, onde a gente procura fazer um som com a cara da juventude cabocla amazônica. Nós fazermos sempre um som local, mas com uma visão futurística, e nossa tentativa é que ele seja universal.

Sobre o que falam as músicas de vocês?

Nossas músicas têm cunho social, dá pra perceber nas letras, mas nossas letras falam também do resgate da auto-estima do povo beradeiro, do negro, índio, que sempre é discriminado, tirado. A gente luta para que a nova geração se orgulhe e levante sua auto-estima através da nossa música.

Qual a importância de participar do Varadouro?

Eu acho muito mais importante participar de um festival como o Varadouro, do que de uma festival no sudeste ou no centro-sul do país, porque lá a gente sabe que são cartas marcadas, o público vai para ver determinado artista que já é conhecido. O Varadouros é uma opção nesse sentido, como foi Festival Beradeiros, em Porto Velho, é uma maneira de estar criando e organizando um espaço onde se fortaleça essa cena. Além do que é muito mais fácil o público se identificar com o som que a gente faz do que o cara que ta lá no sul.

Na opinião de vocês, o que é essa tão falada cena alternativa?

Nós sermos os autores das músicas, das letras, organizadores dos eventos, é avançar nos sentido de criar selos, produzir, distribuir, gravar e fazer nossos shows. Chega de atravessadores que nunca trouxeram retorno para os artistas locais.

O que vocês esperam do público acreano?

A gente espera muita receptividade, até porque temos músicas que falam do povo acreano, como “Valha” (... na boca de quem não presta, eu não valho nada), onde a gente fala sobre o Chico Mendes. Quando a gente fala da que nossa música é amazônida, é falar um pouco do Acre. Falar de Chico Mendes é falar do povo acreano. Porque quem está indo cantar lá é uma pessoa do nariz achatado, do cabelo arrepiado, igual eles.

O que o público pode esperar do show?

Muito instinto coletivo, muita espiritualidade, que é o que tem na nossas músicas. E o mais importante, é um balanço, é transmitir a musicalidade dessa nova geração de músicos da Amazônia. Uma coisa eles podem ter certeza: eles vão entrar nessa aldeia de sons que a gente quer fazer lá.

 

 
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Rio Branco-AC, 12 de novembro de 2005
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Com Leonildo Rosas
 
 
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