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Elson Martins

O poeta do Hotel Madrid

Elson Martins

A novelista Glória Perez garimpou e encontrou junto à escritora Lúcia Helena Pereira, sobrinha-neta de Juvenal Antunes, a jóia rara que é esta foto do poeta que fez história no Segundo Sistrito de Rio Branco, nos anos 20. A foto está na internet, no blog de Glória e também do jornalista Altino Machado, que a recebeu de presente. Decidi pirateá-la para Almanacre, por acreditar que um registro dessa natureza deva ser socializado. Personagens como Galvez, Plácido de Castro, Juvenal Antunes e Chico Mendes, entre outros, constituem patrimônio dos povos da floresta.

Nascido no Rio Grande do Norte, Juvenal Antunes veio para o Acre para exercer a função de promotor público. Os que o conheceram nas duas primeiras décadas do século 20 se renderam à sua genialidade. O promotor (e poeta) recebia seus salários por exercício findo, ou seja, no fim do ano, quando tinha acumulado contas a pagar. Permanecia a maior parte do tempo de pijama (e bêbado) à porta do badalado Hotel Madrid, na rua da frente do Segundo Distrito

O também poeta, escritor e advogado acreano Océlio Medeiros, 94, conviveu com Juvenal e o transformou em personagem do livro “Represa”, difícil de encontrar nas bibliotecas e sebos. A obra, publicada em 1942 pela editora Irmãos Pongetti, do Rio de Janeiro, foi e permanece amaldiçoada pela sociedade que a inspirou.

No capítulo 13, que publico a seguir, Océlio narra uma visita que o oficial de gabinete da Prefeitura de Rio Branco, Felipinho, fez ao poeta Juvêncio (na verdade, Juvenal) pedindo apoio para a criação da Academia Acreana de Letras. O escritor pode ter se excedido na descrição do contemporâneo, mas, pelo que se sabe, Juvenal Antunes apreciava o excesso.

No prefácio de um livrinho de sonetos que publicou em 1922, em Rio Branco, Juvenal Antunes (1883-1941) declara: “Amo, sinceramente, a ignorância, que é, quando acompanhada do bom senso e da probidade, a situação mais conveniente à inteligência e ao coração”.

MEU CORAÇÃO

Meu coração é monstro multiforme,

É urze e girassol, pomba e serpente,

Ora, insone, no berço, ou chora ou dorme,

Ora mostra, a ranger, canino dente.

Quantas vezes, d´um nobre sentimento

Sente presa, em plácido abandono,

Mas, é pomba a serpente um só momento,

Enganando e mentindo ao próprio dono.

Vê si o seu jugo, ó meu amor, sacodes!

Foge de mim e odeia-me, se podes!

(Juvenal Antunes)

Represa (Capítulo 13)

Océlio Medeiros

Muita coisa houve em Rio Branco nos últimos meses. Preto Limão morreu. Casou-se a Osvaldina, filha do seu Ângelo, com o Joça, filho do Pereira, o par mais falado de Rio Branco. Suicidou-se o Pedro Morais num domingo. Nessa tarde não tocou a retreta. Nasceu na segunda quinzena a filha do sírio Fecury. A Marina foi deflorada. A Lindalva arranjou um novo amante. Mas o acontecimento principal foi a idéia do Felipinho fundar a Academia Acreana de Letras. Só a existência do poeta Juvêncio justificava a existência da Academia.

Felipinho resolveu ir pedir o apoio do Juvêncio. O poeta já namorava as glórias acadêmicas. O Felipinho botou a roupa que usava sempre quando ia empreender alguma coisa. Era um fato amarelo, de linho barato comprado no Safa, que harmonizava perfeitamente com a pele palustre. O Pai Irineu, chefe da Uasca, disse a Filipinho que o amarelo era a cor que lhe daria êxito em tudo.

O “Hotel Madri”, parte integrante das tradições de Rio Branco, fica do lado da Perdição. Um anúncio novo, afixado numa das prateleiras, melhor o define:”hotel familiar”...Outro, escrito em letras vermelhas, completa: “Só é permitida a entrada de mulheres depois das dez horas...”E ainda há um na parede do mictório, com esses caracteres reservados: “Por favor, não jogue o algodão na bacia...”

O Felipinho, sacudindo com a costa das mãos o pó das ruas que sujava o seu fato canário, entrou por uma ala de bilhares, cumprimentando academicamente um antigo contrabandista de cocaína. No quarto, o último do corredor, o poeta, sentado numa rede de varandas vermelhas, continuava o primeiro e o último pifão da sua vida, começado aos 18 anos, quando aluno faltoso da Faculdade de Direito do Recife, onde se bacharelou, vindo daí para o Acre afim de ser promotor público de Abunã. A sua voz arrastada recitava:

- Bendita sejas, preguiça amada,
tu que não queres que eu me ocupe em nada!

- Teu filho é belo, é forte, é louro?

Mais uma rês votada ao matadouro!...

O ambiente do cubículo, que Amadeu Aguiar nos seus artigos chamava de Tebaida, causou um asco secreto ao Felipinho. Uma cama de casal, velha e imunda, mostrava à guisa de lençol uma riquíssima pele de vicunha, que tinha sido presente de rico ganadeiro da Bolívia. Uma cômoda tosca, com coluna de tripé, servia de pedestal ao busto do cantor das Acreanas, feito em barro bruto pelo seu colega de letras e de farras Amanajás Santiago. No chão, como cuspidelas de mulher grávida, várias pilhas de livros se espalhavam . Em cima de uma mesinha, o retrato da colação de grau, de borda e capelo, caindo a cabeça e o bigode sobre o punho da mão direita fechada, numa atitude de pensador profundo. Dispostos sobre um pano de rendas que nunca tinha sido lavado, viam-se inúmeros postais de mulheres nuas, Na parede, repousando sobre dois pregos, o espadim com que Juvêncio namorava a futura Academia Acreana de Letras: uma lâmina de pau lavrado, feita talvez de caixão de cebolas, com uma capa de couro de boi...

Felipinho tornou-se íntimo, puxando uma cadeira furada. Olhou para um dos travesseiros da cama. Viu lá a boneca de pano, dessas que, de passagem para o Rio, se compram em Fortaleza.

- Que história é essa, Juvêncio. Então depois de velho você já deu para brincar com boneca?

- Que nada, rapaz! Essa boneca é a presença, é a saudade de Laura! – suspirou o Juvêncio, num sorriso safado em que exibia as suas gengivas desdentadas.

- Mas quem é essa Laura de que você tanto fala? Perguntou Felipinho.

- É essa monstruosidade que está aí! - respondeu o poeta, apontando para um retrato em que se via uma cara de quitandeira, gorda como um balaio. Ela hoje está velha, - desculpou-se Juvêncio – está acabada, está como eu...Mas debaixo de toda essa gordura, de toda essa feiúra e de toda essa velhice, eu sinto a Laura de ontem, aquela Laura que era três vezes mulher!....

Felipinho ainda deu uma prosinha. Juvêncio mostrou-lhe as últimas produções. Versos em que o álcool trabalhava tanto como o talento. Os nomes mais imorais, como pinceladas de piche, cortavam a conversa. Felipinho aproveitou a oportunidade:

- A propósito, Juvêncio, venho pedir o seu apoio para a fundação da nossa “Ad immortalitatenzinha” ...Você já está para morrer e precisa entrar na Academia....

- Eu, morrer?! Engana-se quem pensa que eu depois de morrer queira entrar na Academia ou no Céu! Jamais suportaria o ambiente chato do Céu, com S.Pedro fazendo rabujices e doze mil virgens entoando cânticos sacros. Jamais!...Quando morrer, quero é ir para o Inferno! Isto sim! Aí encontrarei todas as almas devassas, todas as pecadoras, todas as mulheres perdidas, todas as prostitutas do mundo! E é aí que eu vou gozar de verdade!....

A figura de Juvêncio fez o Felipinho experimentar a emoção do romancista que encontra um tipo. Baixo e magrelo, desdentado e franzino, talvez não fosse capaz de resistir ao discurso do Prof. Cazuza, se esse fosse escolhido para saúda-lo...Sardas e pinguinhos azuis salpicavam-lhe o rosto encarquilhado. E, pelo canto dos lábios sórdidos, escorriam como um arco de ferro incandescente as pontas ruivas do bigode.

Amadeu Aguiar escreveu nesse dia na primeira página de “O Acre”, um esboço crítico-biográfico onde dizia que o poeta Juvêncio se deixara levar pela sedução dos barrancos do Acre. “Remanescente de maior talento de uma geração, - afirmou ele - plagiou a glória das cigarras, sempre cantando, e viveu o destino dos copos de botequim, sempre se enchendo de álcool, numa bebedeira que só terminará com a morte. Admiravelmente filósofo no seu lirismo, inspirado sempre no ceticismo de uma região onde nem a própria terra inda se fixou, anda agora no refúgio do seu passado e na degradação do seu talento....Somente teve, na vida, dois amigos: um rato branco, que conserva com o maior carinho numa gaiola de arame; e o Coronel Epaminonda Martins. Seu maior desejo é, quando essas duas criaturas morrerem, enterra-las lado a lado. E haverá de escrever, na lápide da sepultura do rato, o seguinte epitáfio: aqui jaz o homem que não me furtou...”

- O Juvêncio recitou alguns dos últimos sonetos de sua lavra. As palavras, ao saírem da bocarra desdentada, adquiriam uma tonalidade cava, como se viessem do fundo de uma montanha. No fecho de ouro colocava toda a sua emoção de ébrio. E, depois da última rima, exaltava-se:

- Que tal, Felipinho?! Formidável, não? Sim, formidável! Então este último verso abafa! Poesia é isso, meu amigo! É filosofia, é calor de gênio!

 
 
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Rio Branco-AC, 12 de novembro de 2006