OPINIÃO
   CRÔNICA

José Cláudio Mota Porfiro *

 

Alô, polícia!

Segunda, seis de novembro, dezoito e quinze. Rudney Cato, médico, é chegado ao consultório da clínica de cardiologia, aqui. Dá um sorriso tímido e cumprimenta a todos, para o meu espanto. Bacana! Nunca vejo pessoa dessa eminência descer ao rés do chão da humanidade perdida e dizer palavra alguma. Parecem deuses vestidos de branco, acima do bem e do mal, a não ser pela meiguice de Dilza Ambros, que beija os filhos meus, apesar de não ser comadre minha. Fecha o pano!

Um certo discípulo de Hipócrates, antipaticíssimo, disse que sou contra os médicos. Um procurador federal desdentado tem certeza de que este cronista é inimigo dos advogados. Um tenente medroso afirmou que não gosto da polícia... Estão todos irrefutavelmente enganados. Eu não aceito é que a grande maioria dos agentes da medicina se desumanizem. Assim como não tolero rábulas de porta de cadeia que sequer aprenderam a procurar palavras no dicionário. Na polícia, é claro, há, sim, uma minoria de humanóides que só pisa no chão porque a lei da gravidade não permite o contrário.

Todavia, é preciso dizer que, aqui, a minha intenção maior é levar uma mensagem de amor ao próximo que precisa, no mais das vezes, de apenas um bom dia, ou de um sorriso, ou da mão amiga que afaga o peito às vezes tão condoído. Em verdade, vejo com muita nitidez a necessidade inadiável de melhorias nas nossas relações humanas tão deterioradas.

Dia desses, então, com um grupo de amigos idealistas de esquerda, fui a uma reunião para tratar sobre políticas de desenvolvimento na zona rural e outras questões do gênero. Lá, crianças e adolescentes tomaram conta de todos os bancos. Depois, vi reportagem televisiva segundo a qual, nos ônibus urbanos de Rio Branco, apesar de alguns assentos serem reservados exclusivamente aos idosos e/ou portadores de deficiência, rapazolas meio imbecilizados pela formação familiar aleijada sentam e de lá não saem nem com os apelos dos motoristas e cobradores; só se alguém se dispuser a distribuir alguns sopapos entre os micro meliantes.

Pois bem... Dia de Finados, às oito, fui assistir à Santa Missa no cemitério São João Batista. É claro que, lá, a grande maioria dos presentes era composta por idosos que ali estavam para rememorar tempos em que os seus entes queridos perambulavam por este vale de lágrimas. Fiquei sentado sobre um jazigo, posto que, numa pelada do dia anterior, houvera recebido pancada na perna. E, mais uma vez, bem próximo de mim, nas cadeiras colocadas pela Prefeitura, à sombra das mangueiras e debaixo de uma grande tenda branca, estava mais ou menos uma meia dúzia de jovens, dentre os quais uma moça, ocupando lugares indevidamemte, uma vez que os mais velhos sofriam sob sol forte, em pé ou ajoelhados, atentos à palavra de Deus.

Não sou ranzinza nem conservador. Até sou um tanto moderno, a não ser por algumas poucas manias sertanejas mais radicais que rótulo de maizena. Certo é que, há algumas décadas, os mais argutos têm notado que a instituição casamento está em plena decadência. (Igual a submarino, nasceu pra afundar, no dizer de alguns.) A modernidade do divórcio findou por afrouxar os nós que atavam os casais que, hoje, na hora das partilhas, quase findam por dividir os filhos ao meio. Do mesmo modo, fica também muito claro que a célula familiar, na sociedade moderna, perdeu muito dos seus melhores valores, como o respeito aos mais velhos, o cumprimento na hora devida, a bênção aos pais, a compreensão e a urbanidade, dentre outros. São filhos que se evadem de casa em busca de horizontes perdidos porque os pais também partiram em debandada. Um não respeita o outro e o outro tem medo do um.

Restam, sim, algumas organizações humanas que podem fazer muito mais em meio ao caos que da modernidade. A escola pouco ensina para a vida real de possíveis cidadãos ou possíveis crápulas do futuro. A justiça está assoberbada de processos que julgariam o resultado da tormenta social dos nossos dias.

Mas tem a polícia! E viva a polícia! Em um século inteiro, no Brasil, ninguém teve idéia melhor, em termos de segurança pública, que a criação dessa tal polícia comunitária, aqui inteligentemente denominada Polícia da Família. Seria apenas uma incumbência a mais que ficaria sob a responsabilidade, também, dos policiais, fardados ou não. Em qualquer situação que seja, inclusive o fato de o mais moço desrespeitar ao mais velho ao não lhe ceder o lugar, qualquer agente de polícia poderia aplicar-lhe reprimenda inesquecível, uma vez que, em casa, o pai, na maioria dos casos, não passa de mais um crápula solícito e amofinado diante dos maus comportamentos dos filhos imbecis.

Polícia neles!

 

 
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Rio Branco-AC, 12 de novembro de 2006
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