OPINIÃO
   MIOLO DE POTE

Marcos Vinícius Neves

 


Esta semana estamos inaugurando uma nova coluna semanal aqui no Página 20. A idéia é de nos primeiros textos divulgar algumas informações sobre a arqueologia acreana, que anda sendo tão maltratada ultimamente. Ressaltando que, depois dessa série inicial, poderemos tratar aqui de qualquer outro tema histórico. Isso começa a explicar o nome da coluna: “Miolo de Pote”, que em “acreanês” significa papo furado, conversa à toa. Ou seja, esta coluna não tem compromisso com formatos ou temas obrigatórios, em contraposição às colunas que assinei anteriormente e tinham características bem definidas previamente.

Por outro lado, é importante ressaltar que, para os arqueólogos, a presença de urnas, potes ou cacos de cerâmica é sempre reveladora de um sítio pré-histórico. E o que para o leigo é apenas um pote vazio, para o arqueólogo é um manancial extraordinário de informações e significados.

Lembro bem da primeira urna arqueológica que coletamos em Sena Madureira. Assim que levantamos a tampa da urna funerária de grandes dimensões, que hoje integra o acervo do Palácio Rio Branco, o dono da área fez uma enorme cara de decepção e disse: “Que pena, está vazia!” (acho que ele contava achar algo valioso ali dentro). Ao que respondi: “Olhe direito, está vendo aquelas cinzas no fundo do pote? São as cinzas do indivíduo que foi enterrado aqui”. Ou seja, o que parecia apenas miolo de pote (vento!) era um extraordinário achado científico...

Por isso tudo, o primeiro texto desta coluna trata das características pré-históricas de Sena Madureira, onde semana passada foi localizado um novo sítio arqueológico, como noticiado aqui neste jornal e que devemos vistoriar na próxima semana.


Patrimônio Histórico

Terra sagrada

Nas terras em volta da cidade de Sena Madureira existem vestígios de um passado longínquo e ainda misterioso. São diversos sítios arqueológicos localizados nos ramais do Cassiriã, do Xiburema e na antiga estrada Lobão. Em todos esses sítios existem grandes urnas funerárias que não são encontradas em nenhum outro lugar do Estado. O que seriam essas urnas cerâmicas que resistiram ao longo de tantos séculos passados? Por que só aparecem em Sena Madureira? E o mais intrigante: por ue em volta de Sena todos os sítios possuem urnas funerárias e não encontramos sítios com vestígios de habitação ou mesmo de sítios-acampamento? Temo que ainda não possamos responder completamente a essas e outras perguntas. A ciência se desenvolve lentamente e serão necessários muitos anos de pesquisa para alcançarmos um conhecimento satisfatório sobre a pré-história acreana.

Na verdade, pouco sabemos sobre os primeiros seres humanos a habitar a região de Sena Madureira. É possível que esse passado remoto se estenda a, pelo menos, 10.000 anos. Entretanto, ainda não encontramos sítios arqueológicos que atestem essa presença mais antiga. As pesquisas científicas até aqui realizadas somente localizaram sítios de agricultores ceramistas de um horizonte bem mais recente, por volta de 2.000 anos passados.

Segundo o Prof. Ondemar Dias - do Instituto de Arqueologia Brasileira, que desde o final dos anos 70 vem realizando pesquisas arqueológicas no Acre -, os sítios arqueológicos localizados em Sena Madureira fazem parte da “Fase Iaco”: povos ceramistas vinculados a uma grande tradição cultural denominada “Tradição Quinari”, que se estendia por todo o vale do Purus, incluindo os rios Iaco, Acre e Iquiri.

O principal traço diagnóstico dessa fase ceramista pré-histórica é a forma característica de seus potes cerâmicos, que é constituída por um cilindro em baixo com um globo no meio do vaso e outro cilindro em cima, e pode ser identificada em outras fases da mesma tradição como nos vasos-caretas da “Fase Quinari”.

Essa forma característica também pode ser observada nas grandes urnas funerárias que localizamos nos sítios arqueológicos do Cassiriã, do Xiburema e do Lobão. Todos, provavelmente, sítios-cemitérios devido ao grande numero de urnas que foram sendo localizadas por moradores ao longo do tempo.

As urnas funerárias de Sena surpreendem pelas grandes dimensões e pela técnica apurada com que foram fabricadas, que as tornam muito resistentes. Tanto que, normalmente, essas urnas só são encontradas quando a tampa de uma delas se quebra, fazendo um grande buraco no chão, que logo é localizado por agricultores ou fazendeiros.

Em 1997, durante o trabalho de salvamento de uma dessas urnas que havia aflorado e estava na eminência de ser destruída no sítio Lobão (AC-SM-05) tivemos a oportunidade de coletar material que foi datado em trabalho de Doutoramento na UFF obtendo uma idade de cerca de 1.000 anos passados. Como esse mesmo sítio arqueológico possuí uma estrutura circular de terra, daquele tipo que ultimamente tem sido errada e perigosamente chamada de geoglífo, é possível se aventar que tenha relação com outros sítios semelhantes que ocorrem nos vales do Acre e do Iquiri em período de cerca de 2.000 anos passados. Idéia que é reforçada, como já dissemos, pela forma característica dos vasos típicos das fases arqueológicas dessas regiões.

Graças a essas informações passamos a ter um quadro um pouco mais claro da pré-história do rio Iaco e, portanto, de Sena Madureira. Entre 2.000 e 1.000 anos atrás os vales do Purus, do Iaco, do Acre e do Iquiri e seus afluentes intermediários foram ocupados por diversos grupos indígenas que compartilhavam um modo de vida característico. Não sabemos que línguas falavam, nem como se chamavam. Mas sabemos que eram ceramistas e, portanto, semi-sedentários, que mantinham contatos e assim trocavam cultura, produtos, conhecimento e que, à semelhança dos grupos indígenas atuais, definiram uma territorialidade própria em toda essa vasta região do vale do Purus.

Assim começamos a especular que não era de todo impossível que uma área das terras firmes que margeiam o Iaco, ali próximo de onde está situada a cidade de Sena Madureira, pode ter concentrado uma área especial, sagrada, destinada aos antepassados, onde eram realizados ritos funerários que nos legaram esses ricos sítios arqueológicos. Daí a concentração de sítios com urnas funerárias em Sena e a inexistência dessas urnas em outros sítios conhecidos nos vales do Acre e do Purus.

Por enquanto, essas conclusões não passam de hipóteses e podemos vir a descobrir outras evidencias que contrariem as suposições acima alinhadas. Mas graças às pesquisas científicas realizadas com seriedade pelo Dr. Ondemar Dias e pela Dra. Betty Meggers começamos a vislumbrar um pouco mais acerca de um tempo longínquo e misterioso e, por isso mesmo, fascinante.

* Trecho de um texto escrito para o centenário de Sena Madureira, em 2004, que ainda estava inédito.

 

 
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Rio Branco-AC, 12 de novembro de 2006
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