| OPINIÃO | ||
| CRÔNICA DE DOMINGO | ||
José Augusto Fontes |
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O HOMEM VELHO O homem velho viu a vida, repetiu, olhou de novo, passou a enxergar o que não via. Experiente, até hoje faz falta. O velho via mesmo muito longe. Parece-nos, ainda, que ele está aqui e ali, olhando. Olhar bastava. Só lembrar, parece muito pouco. Ele dizia com os olhos. Via o que não estava, o pensamento pra adiante, seguindo, como passando as várias curvas dos rios, o estirão da vida, lembranças que queriam turvar os olhos, sem abalar os gestos, que o menino vigiava, e agora relata, aos poucos, a saudade que puxa o fio vem como as peças de tecido infestado que ele vendia. A descendência do homem velho veio vindo do nordeste, com a coragem na frente, e ele brotou no Amazonas, chegou no Acre, revolucionário, desbravou o Chandless, estabeleceu-se no Purus, passando pelo Acre, pelo Yaco, desencantou Manuel Urbano da Encarnação, fez florescer Sena Madureira. No Alto Purus, fez história no Seringal Novo Porto, no Samaúma, era o coronel Lauro, do Purus, dos barrancos, do regatão, o velho Lauro, nos nossos registros e sentimentos, roupa sempre branca, chapéu panamá, o guarda-chuvas. Garapa ferrada, “ora muito obrigado!”. Rude e doce, o velho vivia adiante do que havia, orgulhoso de ser comerciante. Não havia empresários. No começo, regateava com os filhos, dentre eles o Chico, pai do menino. Depois, as lojas em Rio Branco, a Praça da Bandeira, a Epaminondas Jácome, sobretudo, a Estação Experimental, o Cajueiro, o ponto final da Cantina Rex, o ônibus Lameira, o velho “fretando um carro”, um Willys. Agora, a lembrança. O velho reunia, decidia, contagiava. Relatando passagens, fatos, desafios. Contando casos, na hora do almoço, todos na mesa, os adultos, claro. Menino não se metia (camisa de onze varas), mas um via, sentia, guardava tudo. Haveria a hora certa de estar na rede com o velho, de acompanhá-lo no comércio, de sentar ao lado da cadeira de embalo e ouvi-lo conversar com o seu Antão, dentre vários outros amigos. O Purus continua lá, passando pelo porto, ainda novo, mas já sem o velho, sábio comandante, simples mas firme, olhar comprido, um mistério para o menino, que ainda não entende como o tempo, esse ancião peralta e disfarçado, pode passar adiante do velho avô, um ídolo imbatível, forte, constante. Tanto assim, que deve mesmo estar aqui e ali, atrás da fumaça do cigarro sem filtro, olhando, pronto para, a qualquer instante, comandar: “meninooooo...!!!”. |
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