VARIEDADES

A 3ª idade em cena

III Festival de Teatro no Acre abre com grupo que mostra a triste realidade do abandono

Divulgação
No primeiro dia de festival, os
atores mostraram que na arte
de interpretar não há idade


Andréa Zílio

Ao som de violino e violão, o palco do Teatro Plácido de Castro se tornou um retrato vivo das frustrações, angústias, medos, alegrias e doces lembranças de nove vidas com duas coisas em comum: a velhice e o abandono. O espetáculo Abrigo dos Esquecidos, encenado pelo grupo de teatro da 3a idade, com participação de Tancredo Silva, que tem entre tantos personagens o conhecido Velho Justino, abriu o III Festival de Teatro do Acre (Fetac) ontem, mostrando todos os sentimentos de pessoas que vivem a triste realidade do abandono quando chegam a idade em que são considerados inúteis pela sociedade.

A escolha da temática para abrir o evento segundo o presidente da Fetac Lenine Alencar, faz parte da política adotada pela federação em trabalhar, principalmente, a questão da inclusão social durante as atividades deste ano. Ele fala que as pessoas precisam parar de olhar para os idosos como se fossem coitados e buscar neles a capacidade e experiência de vida que cada um possui.

Com exceção de Tancredo, os atores Manoel de Souza, Maria Rita, Nazaré Moraes, Linda Barbari, Tancredo Silva, Leda da Silva, Maria da Conceição, Cecília e Dionina, são todos integrantes do grupo da 3a idade e mostram em cada gesto, palavra e sorriso, as mudanças que o convívio e atividades com outras pessoas fizeram em suas vidas.

O espetáculo tem duração de cerca de 40 minutos. O texto de Abrigo do Esquecidos foi criado pelo Sesc de Alagoas, mas neste caso, Lenine, que é o diretor da peça, fez algumas adaptações. Ele será todo apresentado ao som de violino e violão, tocados por Antonio Carlos e Mikéias. Encenando o personagem de um idoso Tancredo inicia o show fazendo um relato onde fala de sua vida, ao que se dedicou, suas experiências, as conquistas e derrotas e mostra que recebeu em troca apenas o abandono da família. Abrigo dos Esquecidos mostra ainda a situação daqueles que dedicam sua vida a profissão e terminam com uma aposentadoria irrisória diante do que fizeram. Os que não tem filhos acabam no abrigo pelo fato de não ter como se manter.

No decorrer do espetáculo, todos questionam o motivo de estarem vivendo em tais condições. Cada um mostra sua história expondo o problema polêmico de maneira sutil. Falam da alegria apenas como lembrança, relatando os momentos felizes que viveram. Ao mesmo tempo, os nove personagens exibem a força e energia dos idosos em querer viver de maneira saudável.

A vida com o teatro

Com 80 anos, Maria Rita diz que anda pelas ruas da cidade com a mesma facilidade de quando tinha 40. O sorriso nos lábios e o brilho no olhar exibem uma mulher cheia de vitalidade, que respeita e ama cada minuto de sua vida. Desde os 13 anos praticava teatro na escola. Mas o casamento e trabalho como auxiliar de enfermagem a obrigou abandonar sua grande paixão. Somente aos 67, quando entrou para o grupo da 3a idade é que voltou a interpretar nas brincadeiras e atividades. Mas foi em 2000 que o grupo de teatro foi criado e então realizou o desejo de atuar. “Hoje me sinto mais jovem. Quando me arrumo tenho a sensação de que sou novinha, só me dou conta da idade quando olho no espelho”, diz Maria em gargalhadas.

A amiga e parceira Nazaré Moraes, 71 anos, é uma das fundadoras do grupo da 3a idade. Foi observando sua animação e facilidade em contar histórias e brincadeiras, que funcionários do Sesc a convidaram para participar das atividades que promovem. Logo depois surgiu a idéia de se criar o grupo no Estado. Hoje ela atua na bibliotecas do órgão como contadora de história e é uma das integrantes do grupo teatral. “A minha vida mudou completamente. Antes viva para os filhos e trabalho, depois que eles cresceram e me aposentei fiquei sem fazer nada. Agora me sinto livre para participar das atividades. ME sinto aquela jovem que era na época do colégio”.

 
© Copyright Página 20 todos os direitos reservados    -      Imprimir       -       TOPO
 COTIDIANO
 COLUNAS
 ENTREVISTA
 ESPECIAL
 ESPORTE
 POLÍTICA
 OPINIÃO
 VIA PÚBLICA
 EDIÇÕES
 EXPEDIENTE
 E-MAIL
 
Rio Branco-AC, 13 de janeiro de 2004
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Com Leonildo Rosas
   ANCELMO GÓIS
Com Ancelmo Góis
 
 
Google