ESPECIAL
   PAPO DE ÍNDIO
Txai Terri Valle de Aquino & Marcelo Piedrafita Iglesias

Tempo da Memória: uma homenagem ao velho pajé Carlito Kaxinawá

Txai Terri Valle de Aquino

Próximo de completar um ano do seu falecimento, não posso deixar de homenagear o velho Carlito Cataiano Neto, também chamado Inka Muru em hãtxa kuin, a língua verdadeira de seu povo Huni Kuin, ou Kaxinawá. Carlito foi um dos primeiros Kaxinawá que conheci no Acre, quando, em 1975, iniciava os primeiros levantamentos demográficos e socioeconômicos das populações indígenas que viviam nos rios Envira, Tarauacá e Jordão, nos municípios de Feijó e Tarauacá.

Marcelo Piedrafita
Carlito Cataiano com o menino João Manuel Tui Tavares Piedrafita

Na mesma época em que ele fez a sua passagem, em abril de 2007, aqui em Rio Branco, estava em Manaus me curando de uma doença chamada hidrocele, água no testículo, que me fazia andar literalmente de “saco cheio” por longos sete anos. Enquanto ele viajava para o astral, eu recebia o sonho da cura, em que meu espírito andava viajando pelo espaço, olhando a Terra de longe. De repente, sentia que o aparelho, uma nave antiga e diferente, nada lembrando um avião, começava a descer lentamente em direção ao nosso Planeta. Abria uma velha e surrada cortina e me postava diante de uma janela. Comecei a ver paisagens terrestres mais próximas. E, calmamente, a aparelho aterrizava. Saia da nave e tinha uma pessoa me esperando. Caminhava em sua direção e, quando chegava bem pertinho, via que era eu mesmo. Dava-me então um forte abraço, como se meu espírito, que estava ausente por longo tempo, de repente se fundia no meu próprio corpo. Ao acordar, tive a certeza da cura, porque Carlito havia me ensinado que, quando o corpo está doente, o espírito se afasta, porque não convive com um corpo poluído. E que o trabalho de cura de um pajé indígena é justamente trazer o espírito de volta ao corpo para que a cura possa se realizar. Assim era o Carlito, um velho pajé cheio de prosa!

Aldeia Morada Nova - Conheci o velho Carlito em Morada Nova, dos então chamados “caboclos Katukina”, hoje denominados “povo Shanenawa”. À época, a aldeia era chefiada pelo velho Inácio Brandão, o patriarca daqueles “caboclos”. Morada nova era então constituída basicamente por sua família extensa, formada por seus numerosos filhos e filhas casados, com seus genros, noras, sobrinhos e netos, além de agregados, como Carlito Kaxinawá. Ainda hoje a ela está situada nas proximidades da cidade de Feijó.

Em Morada Nova passei a residir na casa do Cristóvão Brandão, bem ao lado da casa do seu pai, o velho Inácio, com quem fiz uma grande amizade. Gostei muito daquele velho, que me dizia que seu povo morava antigamente nas cabeceiras do igarapé Paturi, no alto rio Gregório, e que lá no seringal Caxinauá eles eram conhecidos como Iskunawa (povo do japó). Disse-me ainda que por causa de acusações de feitiçaria, eles haviam saído do Gregório, porque o velho cacique Yawanawá, Antônio Luiz, queria matá-lo e a outros membros de sua família extensa.

Por conta disso, havia fugido junto com todos os seus parentes para um seringal no rio Tarauacá, onde foram atacados pelos capangas do velho Antônio Luiz. E que ele só havia escapado por pouco, porque o tiro acertou no cano de seu rifle, desviando a bala que deveria tê-lo matado. Logo depois, fugiram novamente para as cabeceiras do rio Envira, onde passaram a trabalhado para o famoso matador de “caboclo brabo”, Pedro Biló, tido como “chefe das correrias nas cabeceiras do rio Envira, a mando da família Prado, proprietária e patrão do seringal Califórnia no alto rio Envira”.

Depois de trabalhar vários anos com Pedro Biló, decidiram descer o Envira “porque ninguém dava mais valor a borracha nos altos rios”. Disse-me ainda que ele e seu povo trabalharam alguns anos no seringal Canadá, colocando roçados e abrindo os campos de gado nas proximidades do barracão, onde também viviam. Alguns de seus parentes também trabalhavam como caçador e pescador para os patrões daquele seringal, mas em decorrência da crise da borracha decidiram baixar para as proximidades da cidade de Feijó, indo se fixar em Morada Nova, em terras do antigo seringal Liege, que havia sido comprado pelo governador Geraldo Mesquita, com a finalidade de fixar os seringueiros que estavam migrando para a cidade de Feijó por conta justamente da crise da borracha.

Quem me apresentou o Carlito, se não me engano, foi o Cristóvão Brandão, filho do velho Inácio e um de seus principais ajudantes. Cristóvão foi logo me dizendo que Carlito gostava muito de tomar cipó, que era um pajé formado, sabia “chupar a doença” e conhecia muito bem quase todas as colocações e seringais do rio Tarauacá e de seus afluentes, onde viviam as famílias Kaxinawá.

Diante disso, procurei logo fazer amizade com o Carlito, perguntando-lhe por que vivia entre os “Katukina” de Morada Nova? Bom de papo, alegre e expressivo, foi logo me dizendo que estava passando apenas “um verão por ali”, visitando uma de suas enteadas, filha apenas de sua esposa Nazaré, que era casada com um sobrinho do velho Inácio Brandão. Mas que logo iria retornar à Tarauacá, de onde recentemente tinha vindo. “Lá é o lugar onde vive a maioria dos Kaxinawá do Acre”.

Seringais onde viveu

Disse-me, naquela ocasião, que tinha nascido no seringal Ocidente, no alto rio Muru, no dia 24 de fevereiro de 1933. E que ainda muito novo, com apenas cinco anos de idade, acompanhou sua família que havia varado pela mata das cabeceiras do Muru para as cabeceiras do rio Tarauacá, vindo morar por três anos na colocação Cachoeira Grande, no seringal Independência. Dali mudou-se depois para a colocação Boca do Patuá, no seringal Boca de Pedra, no alto rio Tarauacá, onde aprendeu a cortar seringa. Dali havia baixado o rio com toda sua família, passando a residir no seringal Massapê, no médio curso do Tarauacá, tornando-se caçador de uma turma de madeireiro, que extraia aguano (mogno) no igarapé Mato Grosso, de 1953 a 1955. E que quando acabou a madeira, mudou-se para o seringal Xapuri, onde cortou seringa por cinco anos na colocação Trovão.

Afirmou ainda que, em 1962, havia baixado novamente o rio Tarauacá, indo cortar seringa na colocação Vai Quem Quer, no seringal Universo, casando-se pela primeira vez com uma enteada do famoso pajé Julião Rodrigues da Silva, com quem aprendeu a ser um “pajé curador e ayahuasqueiro”.

Por se dedicar pouco ao corte da seringa, foi expulso daquela colocação pelo novo patrão do Universo, o famoso Pedro Correia. “Porque a gente fazia pouca borracha, o novo patrão do Universo foi logo dizendo que não queria caboclo preguiçoso no seu seringal”. Foi dali do Universo que veio morar, no início de 1975, na aldeia Morava Nova, onde o encontrei em fins daquele mesmo ano.

Fiquei muito impressionado com o jeito desinibido e falante de Carlito e mais ainda com o seu conhecimento sobre os Kaxinawá que viviam nos rios Muru, Humaitá, Tarauacá, Jordão e Breu. Logo me convidou para tomar cipó, um chá feito da mistura de um cipó chamado huni e de uma folha denominada kawa, que ele acabara de preparar ali mesmo na Morada Nova. De noite, fui até a casa de seu genro, onde armei a minha rede e tomei pela primeira a bebida sagrada da ayahuasca. Carlito cantou a noite inteira e, de vez em quando, vinha me perguntar o que eu estava sentindo, se estava de “porre do cipó” e vendo “cinema de caboclo”. E ficou muito decepcionado comigo, quando lhe disse que aquela bebida só estava me causando uma profunda náusea.

Embora tenha sido uma experiência decepcionante, pois não consegui ficar “de porre”, tampouco ver nenhum filme do “cinema de caboclo”, foi muito interessante ouvir suas intermináveis “cantorias de cipó”. Lembro-me, vagamente, que logo após aquela cerimônia, convidei-o para viajar comigo pelo Envira, Tarauacá e Jordão, já que ele conhecia muito bem esses rios onde brevemente iríamos navegar.

Paredão e Paroá - Em vez de subirmos o Bariya ou “rio de muito sol”, como o Envira é chamado em hãtxa kuin, Carlito sugeriu que o baixássemos ainda mais para iniciar os trabalhos pelas “colocações Paredão e Paroá”, onde viviam várias famílias Kaxinawá. Disse-me ainda que nas proximidades de Paroá viviam duas famílias norte-americanas da Missão Novas Tribos do Brasil. E que eles, certamente, “por serem muito desconfiados com estranhos”, não iriam me receber bem em suas casas. Dito e feito!

Subindo o Envira - Logo no primeiro dia de viagem, dormimos no seringal Curralinho, onde viviam várias famílias Kaxinawá, que ainda hoje lutam pelo reconhecimento de uma terra indígena naquele local.

No outro dia, continuamos a subir o rio até o seringal Nova Olinda, onde moravam outras famílias Kaxinawá lideradas pelo velho Nilo. Viviam numa miséria lascada. As mulheres vinham nos pedir sal, porque estavam comendo insosso “feito onça”, como disse uma delas. Dormindo nessa aldeia recebi até um sonho “bebendo coca-cola”, símbolo urbano por excelência, e acordei com a sensação de que para ver tanta pobreza assim, não precisaria ter ido tão longe, bastava andar pela periferia das cidades satélites de Brasília. Dias depois do nosso retorno das cabeceiras do Enviara foram tantos os pedidos, que resolvemos dar todo o rancho que tínhamos para aquelas pobres famílias Kaxinawá. Tomei, então, uma decisão que iria influenciar todo o restante do nosso trabalho nos rios Tarauacá e Jordão, andar com pouca ou nenhuma comida, só para se livrar de tantos pedidos: “pelo amor de Deus, me dá sal, me dá isso, me dá aquilo”.

Nos poucos dias que passamos na Nova Olinda, Carlito preparou novamente a sua bebida sagrada da ayahuasca, porque fora convidado por um chefe de família Kaxinawá a curar a doença de uma de suas filhas menor. Assisti a cerimônia e só depois de muita insistência del, tomei novamente o cipó. Novas náuseas. Vomitei mais do que urubu novo. Foi então que decidi que nunca mais tomaria aquela bebida, que me fazia lembrar o amargor mais profundo.

Três dias depois, continuamos subindo o Envira. E nas proximidades da sede do seringal Califórnia havia velhas barracas de paxiúba e palhas ocupadas por “caboclos” Kulina, também vivendo numa precariedade de dar dó. Fiquei muito impressionado de como seres humanos viviam assim tão despojados na vida. Não tinham nada, mas viviam tocando flautas, cantando e numa alegria contagiante. “Como podem ser felizes assim tão despojados de tudo?” Pensei com meus botões.

Continuamos subindo o rio até a sede da Fazenda Califórnia, do grupo Atalla-Coopersucar. Lá encontrei o velho Enzo Pizano, servidor do antigo Serviço de Proteção aos Índios (SPI) que era o administrador da fazenda. Ele era o “grande chefe” de mais de 400 peões, que derrubavam a grande floresta, abrindo uma pista de pouso para pequenos aviões e campos de pastagens para o gado. Entre eles destacavam-se os “caboclos” Katukina, liderados pelo Bruno Brandão, filho mais velho do velho Inácio, e ainda índios Kulina e Ashaninka. Estes últimos viviam nas proximidades da foz do igarapé Xinane, bem acima da sede daquela fazenda.

Fiquei impressionado com o grande desmatamento e uma moeda própria com que o velho Enzo pagava aqueles peões “cariús e caboclos”. Diante daquele grande empreendimento dos “paulistas”, como eram conhecidos na região os novos donos dos seringais acreanos, fiquei com a sensação de estar assistindo uma transformação histórica. No futuro, os povos indígenas acreanos deixariam de ser seringueiros para se transformariam em peões das grandes fazendas agropecuárias, que estavam se instalando àquela época no Acre.

Também fiquei chocado com essa constatação, ainda mais porque tinha que conversar com todos os índios que encontrava, perguntando-lhes seus nomes e dos integrantes de suas famílias, idades, graus de escolaridade, documentos de cidadania, situação econômica e de saúde, vacinação, como conseguia se tratar quando ficasse doente, como conseguia remédio, a situação da terra, as relações com os patrões seringalistas acreanos e fazendeiros paulistas. E assim por diante. Foi um choque para minha expectativa de querer conhecer os índios da minha terra vivendo em aldeias e em harmonia com a floresta, aprender suas línguas, conhecer seus mitos e festas tradicionais, seus sistemas de parentesco e político. Percebi, desde logo, que não dava para ser um antropólogo clássico, aquele que vai longe para estudar o outro, apreender o exótico e o diferente, conhecer sua cultura e rituais. E que se meu trabalho tivesse algum fôlego e utilidade social tinha que me engajar como um mensageiro desse novo tempo dos direitos que se avizinhava. E o pajé Carlito era o meu guia. Só que demorei muito para entrar no seu cinema. E me encontrar com os espíritos da floresta. O mundo dos homens ainda me assombrava.

Caminhando pela BR-364 - De volta à cidade de Feijó, fomos bem recebidos pelo prefeito Palheta, amigo do governador Geraldo Mesquita. Aliás, essa minha viagem ao Acre para realizar os tais levantamentos socioeconômicos e demográficos das populações indígenas dos rios Envira, Tarauacá e Jordão para a Funai decorreu justamente de uma carta do então governador Mesquita à presidência do órgão indigenista federal, denunciando a precária situação em que se encontravam as populações indígenas no estado, face às transformações econômicas e fundiárias decorrentes da implantação da nova frente agropecuária dos “paulistas”, que haviam comprado quase metade dos seringais acreanos, inclusive com índios e seringueiros dentro que não tinham direito a nada. E o próprio governador tinha comprado o antigo Seringal Liege para dividi-lo em lotes familiares de 50, 80, 100 hectares, mas os Katukina e Kaxinawá que ali viviam não aceitavam lotes individuais, mas terras coletivas.

Por sugestão de Carlito, decidimos viajar de Feijó a Tarauacá por terra, na nova estrada de terra batida da BR-364, levando apenas o necessário em nossas mochilas, porque decidimos imitar os Kulina que viviam com pouco ou quase nada. Uma viagem de pobre, despojado de tudo que fosse supérfluo. E assim fomos. Era verão e a estrada estava boa para caminhar. No final do dia, chegamos a um acampamento do Sétimo Batalhão de Engenharia e Construção do Exército (7º BEC) que estava abrindo aquele trecho da BR-364 entre Tarauacá e Feijó. Almoçamos no acampamento e, depois de apresentar o documento que o presidente da Funai me apresentava às autoridades locais, fomos bem recebidos pelo oficial de plantão, que nos arranjou uma carona numa caçamba para o dia seguinte, pois voltava descarregada para Tarauacá.

Chegando a Tarauacá, conhecemos o seu Jaime, que tinha uma grande baleeira no porto de frente a sua casa, onde ele vendia gasolina e óleo lubrificante. Compramos logo os combustíveis, porque já estavam em falta na cidade e pretendíamos subir logo o rio Tarauacá no rumo do Jordão. Fizemos amizade com seu Jaime, que nos ajudou a arranjar canoa e motorista e nos ofereceu o seu barco para que pudéssemos descansar e dormir. Tínhamos que subir sem demora o rio. Dessa feita, compramos rancho apenas para chegar até a Vila Jordão.

No dia seguinte, Carlito me alertou que precisaríamos conhecer a Colônia 27, na periferia de Tarauacá, onde viviam várias famílias Kaxinawá que haviam migrado para aquela cidade com a crise profunda na economia da borracha nos altos rios daquela região. Fomos lá e conhecemos o velho Cabral Kaxinawá, chefe daquelas famílias, e ele gentilmente nos apresentou a todos os moradores indígenas. Fizemos o censo demográfico e o levantamento socioeconômico daquelas famílias, retornando no final da tarde para a cidade, porque no outro dia já íamos subir o Taraya, “rio de muito balseiro ou pausado”, em hãtxa kuin, como me ensinara Carlito.

Na Vila Jordão - Como o rio estava muito seco, estávamos em pleno verão amazônico, decidimos alugar uma pequena canoa sem toldo, com capacidade para apenas 200 quilos. Mesmo assim a viagem foi demorada. Fomos direto para Vila Jordão, navegando de 6 da manhã às 6 da tarde, parando apenas para dormir e nos locais onde Carlito indicava que havia famílias Kaxinawá, como na sede do seringal Alagoas, onde dormimos, e na sede do seringal Massapê, onde passamos o resto do dia fazendo os levantamentos da família extensa do Reginaldo Paulo, pai do professor Joaquim Maná, e de seus irmãos Severo, Adalto e outros que não me lembro os nomes agora.

Cinco dias depois, chegamos a Vila Jordão, na margem direita do rio Tarauacá, bem em frente à foz do rio Jordão, que, na época, tinha apenas cinco casas. A maior parte de seus moradores vivia na margem oposta, onde estava os dois barracões dos Farias e dos Melo. Nas proximidades do barracão dos Farias morava o seu Carlos Farias, o “patrão chefe” e arrendatário de quase todos os seringais do Jordão, e os seus irmãos Turiano (que viria a ser prefeito do novo Município de Jordão no início deste novo século, suicidando-se no último dia de seu mandato) e Didi Farias. Do lado do barracão dos Melo, vivia o velho Hilarino Melo e o seu filho, ainda solteiro, Hilário Melo, atual prefeito de Jordão. As mesmas famílias que dominavam o Jordão, em 1975, são as mesmas que se revesam no poder do novo município criado a partir de 1992. Não mudou nada, desde então.

Seu Hilarino nos recebeu muito bem em sua casa, nos hospedando na barraca de um de seus empregados e nos convidou para almoçar em sua casa. Já o seu Carlos Farias nos recebeu com muita desconfiança, até porque tínhamos a intenção de subir o rio que ele e sua família controlavam através de uma rede de “gerentes aviados”. Quase desisti de subir o Jordão, porque o dono do barco que viajávamos decidiu regressar a Tarauacá, e os patrões locais diziam não dispor de ubás indígenas para subirmos aquele rio, que mais parecia um riozinho cheio de pausadas e leito seco. Só dava para navegá-lo nessas ubás, que passa até no seco com ajuda de casca de imbaúba.

Sueiro e sua Fortaleza - Diante dessa dificuldade, Carlito tinha uma grande firmeza e sempre me animava. “Olha, Txai, vamos subir o Jordão a pé mesmo, porque se chegamos até aqui, não podemos deixar de conhecer os caboclos do Sueiro, que é dono de um seringalzinho chamado Fortaleza; e esse rio Jordão é a força do povo Kaxinawá desde o tempo do Felizardo Cerqueira, o maior amansador de índio dos altos rios de nossa fronteira, que trouxe os Kaxinawá do Envira para o seringal Revisão nas cabeceiras do rio Jordão”. Lá fomos nós caminhando novamente, não mais por uma estrada de terra batida, mas pelo leito de um riozinho seco e por suas praias, e aqui e acolá por uma varação.

Dormimos na casa de um velho seringueiro, que nos recebeu muito bem, oferecendo um farto jantar de carne fresca de caça. No outro dia, subimos em sua velha ubá, que alugamos por um mês, porque não tínhamos pressa de voltar, como alertara Carlito.

Levamos três dias até chegarmos ao pequeno grande Fortaleza, onde finalmente conheci Sueiro e muitas famílias Kaxinawá. Foi amor à primeira vista. Chegar naquele “seringal de caboclo”, como era conhecido o Fortaleza, era como estivesse num lugar há muito tempo sonhado. Adorei tudo, a ampla barraca de Sueiro, sua família extensa e todos os seus moradores.

Passamos uma semana extremamente agradável naquela Fortaleza, conversando com Sueiro. Aonde ele ia, eu ia atrás. Se ia limpar seus roçados de terra firme ou de praia, também ia, só pra ficar conversando com ele sobre o modo de vida dos Kaxinawá. Foi ele quem me ensinou que os Kaxi se dividiam em duas metades: inubake e duabake; que essas metades eram exogâmicas, que um homem dua só podia se casar com mulheres inani, da metade oposta, e um homem inu só podia se casar com mulheres banu, da outra metade, e assim por diante; que eles tinham seus nomes indígenas transmitidos por gerações alternadas e por linha paterna; que eles ainda praticavam alguns de seus rituais tradicionais, como as festas do mariri, ou Katxanawa, de batismo, ou nixpupima, do gavião real, ou tirin, da abelha, ou buna. Com seu jeito calmo de um bom professor, conversador, mas bem diferente de Carlito, que era um pajé imodesto e farofeiro, Sueiro me cativava com seu jeitão humilde e modesto. Falava-me ainda da vida dos seus parentes nos seringais dos cariús e de como ele herdou o pequeno Fortaleza de sua madrinha Marcolina do Forno; ora se dizia filho de Felizardo Cerqueira, ora de Chico Curimim; que os três Chico (Curumim, Mirim e Menezes) deram origem às famílias Kaxinawá que viviam ali no Jordão; falava ainda do patrão Ribamar Moura que sempre lhe chamava pra descer os rios Jordão e Tarauacá em grandes balsas de borracha; do significado da renda das estradas de seringa, dos barracões dos patrões cariús e do aviamento.

Enfim, depois de navegar quase três meses por três rios acreanos, finalmente havia descoberto o lugar onde poderia realizar o trabalho de campo para elaborar da minha dissertação de mestrado no Programa de Pós-graduação em Antropologia Social, da UnB.

Por questão de espaço nesta coluna vou ficando por aqui, mas antes quero agradecer ao velho Carlito que me levou até aquela Fortaleza dos Kaxi e também por ter me trazido de volta a Tarauacá, varejando todo o rio Jordão numa velha ubá, enquanto ardia em febre alta e a boca amarga pela malária que havia contraído durante uma epidemia que grassava naquele rio em fins de 1975. Um ano depois, novamente com Carlito, retornei ao rio Jordão e com ele fiz outras inúmeras viagens pelos rios Jordão, Tarauacá, Breu, Humaitá, Tarauacá, Envira, Amônia, Riozinho Cruzeiro do Vale, Moa e Juruá, encaminhados projetos para as cooperativas indígenas e integrandos Grupos Técnicos constituídos pela Funai para identificar e delimitar terras indígenas naqueles rios.

Onde você estiver velho Carlito, que Deus lhe receba em sua morada. Muito obrigado por tudo. Sem você não teria conhecido tão bem o Acre pintado de urucu e jenipapo. Valeu Txai!

A melhor homenagem que posso lhe fazer a agora, Inka Muru, é navegar na minha memória e relembrar a nossa viagem inaugural pelos rios e seringais onde vivia e ainda vive o seu povo Huni Kuin/Kaxinawá.

 
 
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