OPINIÃO
   UM OLHAR FILOSÓFICO

Paulo Pinheiro da Silva

 

 

Analogia de movimentos

Existe uma grande controvérsia sobre o nascimento da filosofia. Para alguns entusiastas, o advento da filosofia, na Jônia do século VII a. c (atual litoral mediterrâneo da Turquia), é considerado o “milagre grego”. Ela seria passível dessa designação tendo em vista o seu caráter abrupto, a sua dependência de uma genialidade que não podia ser derivada de nenhuma característica anterior ou exterior à Grécia, ou seja, esse advento seria uma manifestação que só poderia nascer de um povo excepcional. Nessa visão, a filosofia seria a mais elevada expressão da grandiosidade de toda a cultura grega. A escultura, a tragédia, a democracia seriam manifestações irmanadas e fruto dessa mesma genialidade. Mas essa é uma leitura que hoje não tem nenhum fundamento. Ela foi mais fruto de uma auto-imagem atribuída pelos alemães aos gregos que, dessa forma, preparavam o esplendoroso século XIX, em que a filosofia, a psicanálise, a economia política alemãs representaram o cume e, portanto, o ponto descendente de toda uma linha de pensamento europeu. Com essa leitura, os alemães recriaram um ideal para si e pintaram uma imagem inconsciente para uma nobreza acalentada, mas, com certeza, por esse meio, não conheceram os gregos melhor. Talvez mesmo essa sensibilidade aguçada para o “elevado” tenha tido bons frutos como um Kant ou um Nietzsche que, paradoxalmente, não podiam concordar com essa visão vulgar e entusiasta; mas teve também expressões baixas de um etnocentrismo que hoje eles não gostam mais de se lembrar...

O que nós sabemos hoje é que houve uma mudança no mundo grego e que a filosofia surge um pouco como fruto, um pouco como reação a esse movimento; às vezes participando, às vezes se afastando, outras sendo, os filósofos, perseguidos, expulsos e até mortos por essa sociedade nova. Esse novo mundo surge da generalização e publicidade de aspectos que antes eram restritos aos palácios, que antes eram privilégios e fonte de poder para alguns. A participação no exército era fonte de legitimidade de poder para “os melhores”; essa função muda de natureza (agora é a igualdade e a disciplina do hoplita e não a coragem individual do herói que faz o exército) e passa a ser desempenhada por um maior número de pessoas que assim eram considerados cidadãos: quem tem lugar no exército tem lugar como cidadão. Da forma sincrônica, a religião (fonte de poder) e as divindades passam a ser da cidade e não de alguns grupamentos familiares: os objetos saem do recesso do palácio para irem para templos públicos.

Mas o principal foi a mudança da função da palavra. Ela deixa de ser oracular, divina e oral, ou seja, expressão de um poder divino que legitima a imobilidade do poder e da estrutura social para ser tornar instrumento de poder, no debate, na discussão dos destinos da cidade, dos valores e suas possíveis interpretações: ela se torna escrita (a oralidade era elitista), púbica (a privacidade beneficiava alguns), deliberativa (perdendo seu caráter oracular e divino) e, no limite, interrogativa. Tudo agora se movia por si. Não havia mais a ilusão de que toda a série de acontecimentos tinha um lastro não humano, ou seja, divino. Era no âmbito humano e terreno que os destinos eram traçados. Os primeiros filósofos foram uma reação e tentativa de apreender a origem e dinâmica desse “trem sem maquinista” que era o mundo.

Talvez nós estejamos no limiar de algo, ao mesmo tempo, análogo (da privacidade para a publicidade) e oposto (não do topo para a base, mas da base para o topo) a esse movimento. Existe sem dúvida um mundo para o qual alguns não têm olhos e outros não têm palavras. Quanto da nossa subjetividade múltipla foi (e ainda é) formada silenciosamente? As manifestações mais essenciais para a compreensão do não-ser que nós somos foram, antes, celebradas à noite, nas senzalas, nos quilombos, na capoeira, através de uma mistura e comunhão entre o mineral, o vegetal, o animal, os índios e os negros! Esse mundo silencioso tinha a necessidade de sê-lo para se proteger, para expressar uma outra escala de valores que não era oposta, mesmo que antagônica á dominante e colonial, mas que era simplesmente outra; muitas das nossas mais levadas manifestações beberam dessa água: o samba e seus duplos sentidos em que se deixa ver uma outra escala, uma outra perspectiva; Vila Lobos e a sua apropriação e radicalização das músicas populares; Guimarães Rosa e a apropriação de uma subjetividade cabocla, sertaneja; Tarcila e o seu “Abapuru”, Portinari e “Os retirantes”. Mas isso foi apenas um prenúncio e já se começa a perceber que essas manifestações devem sair do silêncio, devem vir para a praça em forma de dança, de conhecimento, de arte, de religião. Não certamente para serem engessadas, imobilizadas e transformadas em modelos, mas para que a energia gastas nela possa ser potencializada, compartilhada, para que finalmente nós rememos à favor da maré, à nosso favor e, assim, um hierarquia unívoca seja substituída por outra multipolar e policêntrica...

Mestre em Filosofia
@: ppinheirodasilva@yahoo.com.br

 
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