| OPINIÃO | ||
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Nattércia Damasceno * |
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| A história de Tutti Era uma vez uma gatinha. Era uma vez uma gatinha chamada Tutti. Não, não, ela ainda não se chamava Tutti. Ela era apenas uma gata. Tudo isso começou quando a Xuxa, a gata siamesa da vizinha, resolveu se engraçar por um gato de rua. Do romance nasceram vários gatinhos, inclusive aquela que um dia viria se chamar Tutti. Dias depois do parto, Xuxa foi covardemente seqüestrada e nunca mais se soube dela. Seus filhotes tiveram uma vida difícil e um deles foi procurar abrigo lá em casa (aí, sim, ela se tornou Tutti). A Tutti é aquele tipo de gato que se apossa da casa da gente, sabe? Ninguém deu, não pegamos para criar, ela apenas chegou e ficou... E, já que estava ali, tinha que ter pelo menos um nome, não é? Uma gata fria e calculista, que sempre teve a vida baseada em interesses nada louváveis. Nunca teve horário fixo em casa - chegava e saía na hora que bem entendia. Nunca deu nenhuma justificativa de seus romances, mas às vezes fingia ser boa moça e namorava em frente de casa, com a luz acesa. Depois veio o pico da juventude: namorados, muitos namorados. Cada gatinho... Uma das vizinhas, a mais “observadora” da rua, diz que ela pegava todos, mas gostava mesmo era do preto. De fato, ele era um gatão! Foram intermináveis noites de gemidos no forro de casa (e não só no de casa). No outro dia a vizinhança comentava que ela era audaciosa. Queria fazer o “serviço” em todos os lugares. Devassa! Como se já não bastasse a ingratidão, agora sujava o nome da família. Os anos foram passando e nada de Tutti ser mãe. A princípio, pensamos que quando isso acontecesse ela ficaria mais ajuizada e responsável, afinal, diz o senso comum, os filhos sempre mudam os hábitos de vida. Isso nunca aconteceu. Tutti era estéril, só podia ser! Daí a fama e conquista de tantos namorados. (“Uma gatinha linda, branca com manchas pretas e que nunca engravida não iria comprometer o futuro de nenhum parceiro. Não haveria responsabilidades, só um case”.) Tutti foi perdendo o vigor, e a saúde já não era mesma. Começaram a aparecer uns caroços na barriga da bichinha - uma espécie de tumor que crescia e diminuía constantemente. Ainda chegamos a procurar o veterinário, mas o tratamento era bastante oneroso. Nunca nos deu nenhuma demonstração de carinho, nenhuma carícia de leve, nenhum miado manhoso, nenhum motivo de orgulho - caçar catitas, por exemplo -, só sabia exigir! Exigia comida de primeira. Nada de rações desconhecidas, apenas Whiskas. E tinha que encher a tigela, pois era para ela e para o macho. Cretina! Mas não pensem que Tutti morreu. Não ainda. Isso é apenas um prenúncio de morte. Um óbvio pressentimento, mas não o fim de Tutti. Hoje seu estado de saúde requer cuidado. Creio que Tutti contraiu hanseníase. Não seria difícil imaginar essa possibilidade. Foram anos de uma vida promíscua, sem critérios na escolha dos parceiros e sem os cuidados que o Ministério da Saúde não cansa de recomendar. Ela ainda aparece lá em casa para comer, sempre acompanhada do novo namorado, Jack, um simpático exemplar siamês estrábico. Vai ver descobriu o amor verdadeiro. Jack parece um gato sério, disposto a cuidar dela nesses últimos momentos de vida. Enquanto isso, Chinha (o superpedreiro, pintor, encanador, mala, faz-tudo) foi escalado para uma dolorosa missão: dar um fim à moribunda Tutti. Não sacrifício, apenas um novo lar. Apesar de tudo, é duro demais vê-la definhando. Adeus, querida Tutti! * Tutti morreu no dia 6 de março deste ano, de causas naturais. Às vezes tenho a impressão de vê-la na frente de casa me esperando...Quem sabe seja porque anunciei sua morte. * Acadêmica do 8º período de Comunicação/Jornalismo da Ufac Era uma vez uma gatinha. Era uma vez uma gatinha chamada Tutti. Não, não, ela ainda não se chamava Tutti. Ela era apenas uma gata. Tudo isso começou quando a Xuxa, a gata siamesa da vizinha, resolveu se engraçar por um gato de rua. Do romance nasceram vários gatinhos, inclusive aquela que um dia viria se chamar Tutti. Dias depois do parto, Xuxa foi covardemente seqüestrada e nunca mais se soube dela. Seus filhotes tiveram uma vida difícil e um deles foi procurar abrigo lá em casa (aí, sim, ela se tornou Tutti). A Tutti é aquele tipo de gato que se apossa da casa da gente, sabe? Ninguém deu, não pegamos para criar, ela apenas chegou e ficou... E, já que estava ali, tinha que ter pelo menos um nome, não é? Uma gata fria e calculista, que sempre teve a vida baseada em interesses nada louváveis. Nunca teve horário fixo em casa - chegava e saía na hora que bem entendia. Nunca deu nenhuma justificativa de seus romances, mas às vezes fingia ser boa moça e namorava em frente de casa, com a luz acesa. Depois veio o pico da juventude: namorados, muitos namorados. Cada gatinho... Uma das vizinhas, a mais “observadora” da rua, diz que ela pegava todos, mas gostava mesmo era do preto. De fato, ele era um gatão! Foram intermináveis noites de gemidos no forro de casa (e não só no de casa). No outro dia a vizinhança comentava que ela era audaciosa. Queria fazer o “serviço” em todos os lugares. Devassa! Como se já não bastasse a ingratidão, agora sujava o nome da família. Os anos foram passando e nada de Tutti ser mãe. A princípio, pensamos que quando isso acontecesse ela ficaria mais ajuizada e responsável, afinal, diz o senso comum, os filhos sempre mudam os hábitos de vida. Isso nunca aconteceu. Tutti era estéril, só podia ser! Daí a fama e conquista de tantos namorados. (“Uma gatinha linda, branca com manchas pretas e que nunca engravida não iria comprometer o futuro de nenhum parceiro. Não haveria responsabilidades, só um case”.) Tutti foi perdendo o vigor, e a saúde já não era mesma. Começaram a aparecer uns caroços na barriga da bichinha - uma espécie de tumor que crescia e diminuía constantemente. Ainda chegamos a procurar o veterinário, mas o tratamento era bastante oneroso. Nunca nos deu nenhuma demonstração de carinho, nenhuma carícia de leve, nenhum miado manhoso, nenhum motivo de orgulho - caçar catitas, por exemplo -, só sabia exigir! Exigia comida de primeira. Nada de rações desconhecidas, apenas Whiskas. E tinha que encher a tigela, pois era para ela e para o macho. Cretina! Mas não pensem que Tutti morreu. Não ainda. Isso é apenas um prenúncio de morte. Um óbvio pressentimento, mas não o fim de Tutti. Hoje seu estado de saúde requer cuidado. Creio que Tutti contraiu hanseníase. Não seria difícil imaginar essa possibilidade. Foram anos de uma vida promíscua, sem critérios na escolha dos parceiros e sem os cuidados que o Ministério da Saúde não cansa de recomendar. Ela ainda aparece lá em casa para comer, sempre acompanhada do novo namorado, Jack, um simpático exemplar siamês estrábico. Vai ver descobriu o amor verdadeiro. Jack parece um gato sério, disposto a cuidar dela nesses últimos momentos de vida. Enquanto isso, Chinha (o superpedreiro, pintor, encanador, mala, faz-tudo) foi escalado para uma dolorosa missão: dar um fim à moribunda Tutti. Não sacrifício, apenas um novo lar. Apesar de tudo, é duro demais vê-la definhando. Adeus, querida Tutti! * Tutti morreu no dia 6 de março deste ano, de causas naturais. Às vezes tenho a impressão de vê-la na frente de casa me esperando...Quem sabe seja porque anunciei sua morte. * Acadêmica do 8º período de Comunicação/Jornalismo da Ufac |
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| GIRO GERAL |
| Com Moisés Alencastro |
| NA TRIBO |
| Com Roberta Lima |
| PORONGA |
| Da Redação |
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