ESPECIAL
   ALMANACRE
Elson Martins

Rafael Bonamim
Prefeito recomenda tijolo, madeira e palha nas obras públicas

Praça dos tocos

Pelo menos no papel, não é esse o nome que os políticos escolheram. Nem praça da Catedral, como os religiosos apelidaram pelo fato dela localizar-se em frente à matriz Nossa Senhora de Nazaré. Podia até chamar-se praça dos Três Poderes, porque fica imprensada entre a Igreja, o Tribunal de Justiça e a Assembléia Legislativa. Ou dos Quatro Poderes, já que a Rádio Difusora se mantém ali por perto, faz mais de 50 anos.

Mas vai permanecer, por bom tempo, conhecida por Praça dos Tocos. Porque, ao ser construída em 1973 (vade retro!), seus bancos foram feitos com troncos das árvores nativas que existiram no terreno inclinado, de cerca de 2 mil metros quadrados.

A praça, que já passou por ameaças e decisões administrativas ridículas, foi reinaugurada sexta-feira num clima quase lúdico, no fim da tarde. Estavam lá o prefeito Raimundo Angelim, que investiu R$ 430 mil em sua recuperação, o governador Binho Marques e outras autoridades, além da imprensa, assessores oficiais e muita gente mais.

Percebi algo de sagrado no ambiente. Ou de respeito pela história daquele pequeno recanto urbano agredido mas resistente. Ah! Cada orador tinha uma ou várias histórias vividas ali. Everaldo Maia, filho de Antônio Maia (que deu nome oficial da praça, aprovado na Câmara Municipal por indicação do ex-vereador Marcos Afonso), confessou-se emocionando ao rememorar advertências do pai para que preservasse e amasse a minifloresta da vizinhança.

O governador admitiu que fez traquinagens na praça, mas não quis narrá-las. Já o prefeito Raimundo Angelim, também com boas histórias do tempo de menino, manteve a postura oficial que o cargo recomenda (embora não exija). Elogiou a equipe de obras pelo trabalho bonito que fez utilizando madeira e tijolos, preservando as árvores e construindo bancos sob a sombra delas... E enfatizou:

- O que é público deve ter mais qualidade que o que é privado. Hoje temos mais de 14 frentes nos bairros trabalhando com essa orientação. E nós não vamos abandonar o centro.

Angelim falou algo que não é raro a gente ouvir da boca de um político. Ele disse que as crianças de hoje, que serão os técnicos e os políticos de amanhã, precisam valorizar a utilização da madeira, do barro e a palha (materiais abundantes no estado) na construção de obras públicas e até particulares.

O recado serve aos atuais engenheiros e arquitetos, muitos dos quais preferem ambientes que abusam do ferro, do aço e do cimento, sem falar no design estilo caixote que aprendem nas escolinhas de engenharia do sul maravilha. Será tão difícil construir solidez com beleza e conforto de um modo amazônico?

Falei no inicio do texto que a Praça dos Tocos (perdão, Antônio Maia) foi agredida muitas vezes. Teve um tempo em que quase virou lixeira pública. Depois, enfiaram nela (nem reparei se a retiraram agora) uma estátua do Epitácio Pessoa, originalmente fincada no Mercado velho que agora está novo de novo, entre as duas (aliás três) pontes na beira do rio Acre.

Mas a pior ameaça aconteceu nos anos oitenta, quando um energúmeno cujo nome esqueci e não me agrada lembrar, quis transformar a praça num estacionamento. Ainda bem que, naqueles tempos, as comunidades de Rio Branco estavam organizadas e mobilizadas o suficiente para enfrentar governos e policia truculentos. O movimento para salvar a praça foi tão grande que gerou um filme, segundo soube ontem, premiado internacionalmente.

Olha, a praça ficou acolhedora, bucólica, linda. Dá vontade de ficar lá horas, protegido pelo tom natural e sagrado preservado. Aparentemente, é um espaço que não se deixa invadir pelo entorno desatento à sua singeleza.

Rafael Bonamim

CARTAS DO ACRE

Quando estou inspirado, escrevo cartas ao jornalista Antônio Correa Neto, de Macapá (AP), que possui um blog muito lido. Corrêa é uma boa referência de jornalismo experiente e confiável. Ele me ajudou a conduzir por alguns anos o jornal Folha do Amapá, fundado em maio de 1991. Eu enumero as cartas que envio: esta é a de número 6 e foi publicada no blog dele em 2005.

Caro Corrêa:

Peço desculpas aos seus leitores por ficar tanto tempo sem escrever neste canto a mim reservado. A justificativa recomendada por velhos jornalistas, neste caso, é que se trata de “ problema de coluna”. Ou seja: Quem escreve uma coluna aqui, outra ali e outra acolá acaba sem assunto. E eu não sou nenhum Rubem Braga ou Zuenir Ventura para produzir pérolas sobre a falta de assunto. Mas esta semana você aplicou-me puxão de orelhas cobrando minha contribuição: “Escreva antes que o Amapá acabe”. Sendo assim...

Meu caro Corrêa, embora esteja observando de longe, imagino que o Amapá não vai acabar tão cedo! Prefiro acreditar que desaparecerão antes os políticos que promovem a imagem desesperadora que você descreve. Motivo para a desesperança não falta, admito. Tenho lido sua página na Internet, também o jornal “Folha do Amapá” e nos últimos dias, nos jornais e revistas nacionais, toda a tramóia do PMDB local para cassar os mandatos de Capi e Janete no Senado e na Câmara Federal. Presumo que pessoas como você e tantas que vivem por aí, sabendo como se armam essas coisas para impedir que prevaleça o bem nessa terra, precisam de muito estômago e perseverança.

Outro dia escrevi um texto na Folha no qual citei o filósofo e escritor francês Edgar Morin, que apresentou numa entrevista o princípio de Hölderlin: “Lá onde cresce o perigo, cresce também o que salva”. Morin acrescenta que “o perigo crescente leva a uma tomada de consciência que provoca um sobressalto”. Na seqüência, ele arremata: “Creio, portanto, que, de um modo trágico, quanto mais nos aproximamos do perigo, mais teremos chance de sair dele”.

Não estamos falando de nenhuma novidade, não é mesmo, Corrêa? A contradição não esteve presente nos textos dialéticos dos gurus da esquerda, sempre? Tenho pensado que um dos graves problemas da atualidade é a pressa com que estamos vivendo nossos dias hodiernos. A pressa e o volume monumental de informações, códigos, “verdades” a serem seguidas etc. – nos empurram para o esquecimento das coisas boas e essenciais que já sabíamos. Eu tenho mania de cultuar alfarrábios e não me queixo nem me arrependo disso. Há mais de 30 anos recorro, aqui e ali, à leitura de textos do Krishnamurti, filósofo indiano-inglês que levita sobre a dúvida.

Recentemente, comprei seu “Diário” editado pela Editora Cultrix, de São Paulo, encontrando afirmações sublimes como esta: “A força e a beleza da flor estão em sua total vulnerabilidade. Os ambiciosos desconhecem o belo”. Gosto também desta outra: “Não se pode definir ou interpretar o sagrado”.

Estou convencido, Corrêa, que ao caboclinho amazônico das beiras de rio e das entranhas da mata essas mensagens são percebidas e apreciadas como manteiga em pão quente. Vejo mais dificuldades na percepção dos letrados, geralmente, mais preocupados com as definições que com os fatos que mudam a toda hora no espaço e no tempo.

Nossos seringueiros acreanos são mestres na percepção dos fenômenos naturais que a vida expõe. Bem como de algumas artimanhas políticas. Muitas vezes eles inovam se passando por bestas: ouvem, com a mão no queixo, durante horas e horas algum sabichão falando e dão a impressão que estão aceitando tudo. Mas mal o sujeito dá as costas, eles se entreolham, riem e desabafam num grunhido seco: “Gua!” – desaparecendo nos varadouros da floresta.

Estou falando essas coisas para demonstrar minha crença de que a situação do Amapá não vai permanecer como os “sabidos” de plantão imaginam. Não se pode subestimar a consciência, a sabedoria, vontade e sobretudo a capacidade de arrebentar grilhões - de um povo como o nosso com implacável instinto de sobrevivência.

 
 
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Rio Branco-AC, 13 de maio de 2007