OPINIÃO
   CRÔNICA

José Cláudio Mota Porfiro *

 

Pompeu das artes

O risco que corre o pau corre o machado. Da mesma forma que o sujeito pode bater, também pode apanhar, e muito. Quem não pode com o pote não pega na rodilha. Se você não agüenta a pancada, fique quieto e deixe que os que têm reais condições resolvam o problema.

Volto, pois, a tratar mal e bem da vida peripatética, exagerada, do bom Pompeu de Adélia, professor, poeta e dublê nas horas vagas, posto que, nas outras, ocupava-se de ir acima e abaixo levando, caprichosamente, uma vidinha cheia de artes e aventuras, notadamente, naquilo que Epicuro, o filósofo, pregou com tanta contundência, o hedonismo (epicurismo), doutrina que considera o prazer individual e imediato o único bem possível, princípio e fim do bem viver.

O venturoso Pompeu, aqui denominado Das Artes, vendeu aulas a preços módicos em colégios de garotos ricos e em escola de menino pobre, no singular mesmo!

Charles Aznavour, então, era garoto humilde, acreano de Rio Branco, residente e domiciliado numa periferia à época denominada Cadeia Velha. É claro que, como boa parte daquela casta crassa, trazia um nome estrangeiro e carregava uma alcunha em bom acreanês... Codinome CABRITO! Jogava futebol vistoso e era considerado craque de mão cheia nas peladas e presepadas no campo do Senai. Magro como a cotovia do agreste, achava a si próprio muito elegante a ponto de fazer investidas, até poéticas, nas poucas cabrochas, meio feias, meio belas, que dele se acercavam. A fulana era fã do nosso herói; a sicrana arreara os quatro pneus de tanta paixão pelo futuro bode, e assim por diante...

E Pompeu de Adélia conheceu o Charles Aznavour “das barrancas do Rio Acre”, aí pelos idos de 1973, quando este era estudante do Grupo Escolar Georgete Kalume, vizinho do Senai. De certa feita, contou a mim o gentil professor, poeta e dublê das artes, uma ocorrência singular. Aznavour era aluno da quarta série do primário, dizia a todos saber ler muito bem, mas nunca, em tempo algum, jamais, alguém o tinha ouvido ler em voz alta. Anthony Bernard, um colega de sala, negrão espadaúdo metido a goleiro, correu e foi contar à Professora Sandy McDowell o boato não tão maldoso. Esta, por sua vez, entendeu a mensagem “na boa” e, como estavam no final do ano, inventou, ali mesmo, um teste de leitura que ocorreria dali a uma semana.

Passou o período e Charles nem aí!... Então, no dia do exame, Sandy, a mestra, chamou o nosso herói à mesa. Tremeu e tremeu, lá foi, mas não conseguiu ler uma palavra sequer. Com pena, a professora pediu que ele dissesse ao menos o nome do autor do texto e já estaria garantida a tão desejada nota cinco. Foi aí que Aznavour sapecou: “os cabrito vieru du matu!” É claro que ninguém entendeu nada. Todavia, em seguida, todos entenderam tudo. O nome do autor era Oscar Brito Vieira de Matos. Por isto, ainda hoje em dia, Aznavour, um príncipe, membro da Police de France, atende por codinome de tanta singeleza. Um mimo!...

Em uma outra ocasião - segundo relato que me fez há poucos meses - Pompeu era estudante da grandiosa University of Acre, onde estudava letras mortas e fonemas apagados. A turma era composta por uns três machos, uns quatro nem tanto e umas duas dúzias das mais belas mulheres que o sol já cobriu. Coçando a cabeça e rememorando aqueles tempos bons, o velho mestre fez questão de dar ênfase a uma tirada mui jocosa segundo a qual “uma das melhores dádivas que a mãe natureza (lhe) proporcionou foi ter convivido tão prazerosamente com estas maravilhosas mulheres e suas fantásticas máquinas de fazer xixi”. Muito sem graça!.

Foi por esta época que conheceu uma jovem mulher largadaça do maridão piegas. Tiveram um caso de cama, mesa e banho. Ela, de nome Estelita (do acreanês “estrelinha”), apresentou-lhe gentil e meiga senhorita que acabara de chegar de Belém para continuar os estudos no mesmo período. A toda boa atendia pelo leve nome de Estela, daí a aproximação fácil e rápida.

Pompeu sentava-se no fundo da sala, no mais das vezes dormindo por trás de uns óculos rayban, estilo delegado de polícia. Engraçado é que o bom Aramô Pascoal, mestre do Latim, recitava “Lupus et uva”, de Cícero, fazia três ou quatro declinações olhando para o dorminhoco, como se ele estivesse acordado...

Numa calorenta tarde, depois do sono das catorze, corria uma aula de Estilística muito bem orquestrada pelo grande Luciano Levy. Pompeu, para tirar uma onda, acendeu um Hollywood. Fumou a metade porque sequer sabia fumar. Olhou para o basculante alto e, numa caçuleta, atirou o cigarro. Este, caprichosamente, bateu no ferro que move a peça e caiu pela parte de trás da gola do vestido de Estela, ainda aceso. Estelinha, ao sentir o drama ardente, saiu correndo para o banheiro mais próximo que ficava a uns quarenta metros acompanhada por toda a mulherada e pelos demais que não eram nem uma coisa nem outra. Resultado: acabou-se a aula e começou a farra... Era sexta!

Estas são apenas mais duas dentre tantas peripécias do nobre Pompeu de Adélia no mundo do cuspe e do giz... Qualquer relação com fatos ou nomes da vida real terá sido mera coincidência.

 

 
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Rio Branco-AC, 13 de maio de 2007
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