| OPINIÃO | ||
| MIOLO DE POTE | ||
Marcos Vinícius Neves |
||
Passagens A vida tem coisas incompreensíveis. Por mais que se desenvolva a ciência, por mais que a idade favoreça a aceitação das armadilhas do destino, ainda assim a vida segue incompreensível. Como explicar então que, em meu caminho, o mês de maio seja uma época de perdas sempre muito difíceis e sentidas? Não dá nem pra entender, quanto mais pra explicar. Por isso, essa semana peço licença aos leitores desta coluna pra interromper a história da arqueologia acreana, que será retomada semana que vem, pra publicar dois textos escritos há algum tempo, mas que ainda não haviam sido publicados, e refletem o que se passa em meu coração hoje. Com isso quero homenagear duas grandes mulheres que nos deixaram há alguns anos atrás e honrar um grande amigo que acaba de completar sua passagem, com a convicção de que ainda voltaremos a nos encontrar, todos, seja na memória, seja no que permanecerá sendo incompreensível. Dos tempos e dos deuses Deus tem muitos nomes. Ainda mais nessas brenhas indistintas de mato. Os antigos dizem que cada rio corre pra um céu diferente, pois este pertence aos iguais e não aos outros. Mas, seja qual for o Deus, o céu, o rio, ainda assim a floresta pertence a todos os que nela vivem. Por isso, nos tempos antigos os homens e os animais falavam a mesma língua. Por isso, também, que tudo de bom que o homem conhece foi dado pelos espíritos encantados que nos cercam. Mas o tempo é longo e todos os deuses da floresta foram surpreendidos pela força de um novo deus. Um Deus onipotente que desconhecia a imensa teia de relações que se espalhavam pela vasta floresta. Muitos deuses os nossos, de nomes variados, mas que na verdade formam o comando celestial desse imenso mar verde, vegetal, sempre fresco e úmido em suas águas abundantes. Tupã, Iara, Inti, Tsurá, Pinotié, Kamu, tantos deuses e seres do reino do encanto que ouviam os lamentos que chegavam distantes das florestas do Norte, de onde Quetzacoatl, a serpente emplumada, lutava até suas ultimas forças, ouvindo o canto lamentoso dos sábios, astrônomos e santos que haviam feito florescer cidades magníficas e impérios poderosos. Ouviam, entristecidos, também, o choro longo dos sacerdotes e noivas do Sol, do reino do ocidente, de onde a altura das montanhas imensas dava a ilusão de tudo ver e poder. Mas nem as escarpas inesgotáveis, nem a força dos exércitos e nem mesmo todo poder e sabedoria do muito antigo Huasca, o sol, foi capaz de deter a onda provocada pelo Deus dos Desertos em sua sanha conquistadora, onipotente, onipresente, devoradora. Agora, era chegado o tempo de uma nova luta. Enquanto, lá, no mundo dos homens, onde o cotidiano preenchia todos os dias dos seres da terra, da água e do ar, os espíritos menores da matas, encantos e assombros, sentiam que vinham tremores dos Deuses sempre tão poderosos, mas cuidavam de distrair os homens nas suas infinitas necessidades do comer, do amar, do viver. Os seres viventes, o homem e todos os outros nada perceberiam por muitos séculos ainda. Afinal essa floresta imensa de águas e vidas é por demais poderosa e haverá de esconder bem a seus filhos. Desde os mais largos e avassaladores rios, até as ultimas cabeceiras de onde brotam as primeiras águas, os espaços haverão de permanecer muitos, todos estarão seguros. Mas, é verdade também que um dia esse vento irá alcançar a todos e não haverá nenhum ser vivente que não terá consciência do reinado do novo Deus que fará de tudo para apagar a existência de todos os outros. As dores de hoje serão transformados nas dores de amanhã. Com mais dor porque já não saberemos mais quem somos, porque sendo só um, o céu não há de suportar tantos. Porque esse é o céu deles e nunca poderá ser o nosso. Nosso céu só poderá existir enquanto nossos Deuses fizerem parte de nossas memórias e nossos cantos. Por isso, os deuses estão tristes, mais que atemorizados, mais que irados, mais que tudo, porque sabem que seus céus, seus costumes, suas delicias e mistérios estranhos deixarão o reino dos seres viventes, onde tudo brilha e alimenta a luz que por sobre elas paira. Os deuses da floresta choram e hoje a chuva abundante que trazia tanta festa e alegria são lágrimas que os homens ainda irão derramar. Poucos são os homens antigos e sábios que tem permissão para começar a compreender o tempo que se aproxima e que haverá de ser de esquecimento e solidão. O tempo do Deus dos Desertos, vento incessante e seco a aquecer o mundo, talvez numa louca tentativa de superar e prevalecer sobre todos os outros deuses. Vã tentativa é verdade, mas isso não a faz menos triste. Todos os Deuses provem de um mesmo céu e cada um o enriquece com sua fantasia. O triste e torturado Deus dos Desertos se perdeu em sua própria fantasia e se deixou levar pela ilusão de sua eternidade divina, inventando uma forma de matar os outros deuses. Ele não percebe que quanto mais ele domina mentes e corações trazendo afastamento e esquecimento, mais os outros deuses passam a viver dentro dele e um dia irão modifica-lo tanto e tão completamente que de novo serão os deuses a serem cultuados e esse pobre deus triste acabe sendo esquecido. Pobres de nós homens que só podemos, no fundo dessa floresta, tomar cipó, contemplar as imagens que nos chegam do longo passado ou do futuro longe e cantar o destino dos homens e dos deuses... Cacharari Nas terras intermediárias entre o vale do Abunã e o vale do Iquiri, vivem os Cacharari. Falam Pano e vivem na fronteira entre os domínios Aruak do vale do Purus e o território Pano dos afluentes do Madeira. Vivem na terra firme os Cacharari, Para Dona Wilma, Célia e Cartaxo |
||
|
||
| COTIDIANO |
| COLUNAS |
| EDITORIAL |
| ENTREVISTA |
| ESPECIAL |
| POLÍTICA |
| OPINIÃO |
| VARIEDADES |
| EDIÇÕES |
| EXPEDIENTE |
| GIRO GERAL |
| Com Moisés Alencastro |
| NA TRIBO |
| Com Roberta Lima |
| PORONGA |
| Da Redação |
| |