OPINIÃO
   CRÔNICA DE DOMINGO

José Augusto Fontes

 

Arquivo pessoal

Campo de ilusões

Atravessava outro campo conduzindo o mesmo sonho, o velho menino de sempre, ora com toques breves e alegres, ora com disparos arredios e penetrantes, cadenciando a velocidade do pensamento com o tamanho das passadas, que parecia não estar relacionado com o peso das pernas, nem com a rapidez do tempo e do jogo. A meta estava mais adiante, a ilusão estava perto, mais uma trapaça no tempo, outra ginga original, tudo ali era fácil, a grande área da vida não dava acesso, mas para a pequena área do jogo faltavam só alguns aplausos, abriu os braços, orquestrou o lance, soltou os ouvidos, procurou a glória.

A vontade de vencer goleou a necessidade de acordar pobre. Pela ponta-direita poderia ser visto, reconhecido, chamado pelo nome, invadiria a felicidade, deixaria para trás a escola que não lhe dava a mínima, a farda que não o convocou, a fome que não lhe ouviu o choro. Conquistaria o tênis importado, a camiseta com aquela marca registrada, todos os comentários da galera, dos caras da outra rua, das meninas do outro bairro. Agora só entregaria passes, depois andaria de carro, parece que foi ontem, entrou na peneira, passou, foi escolhido, subiu, saiu pelo túnel, jogou os quinze minutos finais, aprovou e marcou, ninguém vai esquecer.

Correu para o meio, entrou na meia-lua, o céu inteiro levantou com a arquibancada, o ataque de flashes trazia estrelas enciumadas de como aquele astro conduzia a mesma lua branca, desde os tempos de pequenos palcos, campinhos de subúrbio, desde quando pisou o tapete para deitar e rolar, até chegar no agora, agorinha, como titular do meio-círculo do sucesso, viajando no tapete um vôo sem conexões, acima dos pés que tentam derrubá-lo, além das tramas de outro mundo que tentaram deixar a alegria em impedimento. Essas coisas vão passando, outro zagueiro foi ficando, está bem ali o prazer, o gol está se oferecendo.

Era chegado o título, a periferia da vida foi sendo driblada, tabelou com disposição para ganhar da evidência de perder, já havia nascido mesmo numa rede furada, já havia crescido aprendendo a livrar-se da marcação, correr para o abraço tornou-se simples e agradável, quem via até achava fácil. Levou no peito o jeito para a arte, levou na raça o sem-jeito para a fama, o gol foi virando parceiro, cúmplice da sensação, correr nos campos tornou-se passear pela existência, tudo muito fácil diante de antes, havia um tempo sempre agora, agorinha, fotografado e emoldurado para não passar. Há um tempo para ficar na consagração do lance.

Já aqui o grito, bem ali a mesma meta, basta soltar a vocação que afastou a quase-certeza da miséria, basta, outra vez, vencer aquela linhazinha na sombra do travessão, um limite de vida, linha de passe que costura a paixão, que tece a decisão, o chute sai da imaginação para o gesto de realização, o goleiro passou da hora, a rede balançou a criação, a invasão insubstituível da comemoração venceu a realidade e embalou a vida programada para perder. Foi assim, foi gol, foi e também vai passando, correndo pelo meio do campo, na velocidade do momento, até driblar a desilusão, até deixar o jogo botar a faixa de eterno campeão.

O tempo escalou-se para ganhar, o instante quer vencer, agora que a memória está no estaleiro, agorinha, que a lembrança perde gols feitos no pensamento. Será que o tempo ganha? A serenidade da saudade também vence, trocar figurinhas com o futuro e receber lançamentos do passado fazem parte do jogo. Enquanto isso, mais um craque corre para a alegria, outra grande jogada deixará fotografia nos olhos da multidão, e é nisso que a emoção vai saindo da marcação da vida e entrando na grande área da ilusão para fazer o gol, outro gol que passeia pela existência e pelo momento. O velho menino de sempre ainda conduz o mesmo sonho.

 

 
© Copyright Página 20 todos os direitos reservados    -      Imprimir       -       TOPO
Rio Branco-AC, 13 de maio de 2007
 COTIDIANO
 COLUNAS
 EDITORIAL
 ENTREVISTA
 ESPECIAL
 POLÍTICA
 OPINIÃO
 VARIEDADES
 EDIÇÕES
 EXPEDIENTE
 E-MAIL
 
   GIRO GERAL
Com Moisés Alencastro
   NA TRIBO
Com Roberta Lima
   PORONGA
Da Redação
 
 
P E S Q U I S A