| MARCELA BARROZO
Fotos: Marcos Vicentti

Em Cruzeiro do Sul, tudo é diferente. A começar pelo relevo da cidade, cravejado de colinas, que confere ao lugar um aspecto singular. Para quem anda pela capital do Vale do Juruá de carro, a sensação é a de que se está percorrendo a maior montanha-russa do mundo. Já se o passeio for a pé, é bom chegar lá com um bom condicionamento físico, do contrário a viagem poderá se tornar uma penosa maratona.
Vivendo sob forte influência dos rios Juruá e Moa, boa parte da população de Cruzeiro tem nas pequenas embarcações seu principal meio de transporte. Quem mora em bairros na margem oposta ao centro da cidade, como Meritizal, Mutirão e Boca do Moa, precisa atravessar o rio no mínimo duas vezes por dia, uma vez que a maioria trabalha ou estuda do outro lado.
Um fluxo menor de gente, aqueles que trabalham na zona rural, faz o trajeto inverso - Centro-Meritizal (ou qualquer outro bairro do outro lado). Só para atravessar de uma margem à outra do Juruá os catraieiros cobram R$ 1. “Quando o movimento tá bom, a gente chega a faturar R$ 70 a R$ 80 por dia”, relata Francisco José de Oliveira, 37 anos, catraieiro há 22.
Além de pessoas, os barcos também transportam toda sorte de mercadorias - desde a produção agrícola do dia até peças inusitadas, como caixões. Nesta época do ano, o preço dos produtos atinge valores estratosféricos devido ao isolamento terrestre com o restante do Estado. Interessante observar que até mesmo a produção local acompanha a alta dos preços das mercadorias dos municípios adjacentes - tanto do Acre, como do Amazonas.
A famosa carestia
O quilo do tomate “cubiu” (ou tomate de índio), produzido em terras cruzeirenses, chega a custar R$ 7 nesta época do ano. Chama atenção também a variedade de feijões, de todas as cores e sabores, produzidos nas margens do rio Juruá e na zona rural - gorutuba (ou “gorgotuba”, de tonalidades vermelha e amarronzada), peruano, manteiguinha, verde, branco, entre tantos outros. Os preços variam entre R$ 4 e R$ 7 o quilo.
“Compramos mais dos produtores de colônias e sítios próximos ao aeroporto. Este ano, as plantações da beira do rio alagaram com a cheia, prejudicando os produtores”, comenta Sueli de Lima Queiroz, vendedora de hortifruti há 30 anos.
Segundo a comerciante Elizângela Ferreira da Costa, 26, a renda pode chegar até R$ 400 por mês. Além do ponto de venda no mercado, os comerciantes também preparam bacias recheadas de verduras e legumes para serem vendidas de porta em porta.
Produtos que compõem a cesta básica, como óleo, manteiga e leite em pó, custam, no momento, R$ 4, R$ 7 e R$ 7, respectivamente. “Quando a estrada abre, tudo ‘barateia’ - a manteiga, por exemplo, vai pra R$ 4”, relata o comerciante Darci Lopes da Silva.
Ele era agricultor, mas, devido a um problema na coluna, precisou mudar de profissão. Em um cubículo de madeira, construído na região dos mercados dos colonos - “Minhocão”, Mercado do Agricultor, Mercado Municipal -, Silva é um entre os diversos microvendedores de produtos de primeira necessidade do consumidor cruzeirense.
Só para quem pode - “Eu costumo brincar com as pessoas que chegam aqui reclamando das coisas caras dizendo para elas voltarem à cidade delas, que só vive em Cruzeiro quem pode”, ri a funcionária pública Eliana de Sá.
Pelas ruas da região comercial de Cruzeiro do Sul, encontra-se de tudo um pouco. De vendedores ambulantes de palha de aço por R$ 1, vestuário e produtos da Zona Franca de Manaus. As mercadorias chegam nas balsas, vindas do Amazonas, e são compradas pelos grandes empresários da cidade. É deles que os pequenos comerciantes compram os produtos para revender. “A balsa é deles, então temos que comprar, não tem jeito mesmo”, lamenta Silva. “Pode ser que um dia a gente se livre desse monopólio doido.”
Nomenclaturas diferentes
Em Cruzeiro do Sul dificilmente se encontra ou se utiliza açúcar mascavo. Mas se o visitante perguntar por “gramichó”, vai encontrar em qualquer ponto de venda dos mercados dos colonos. Esse produto é essencial para se fazer um “arabu” de qualidade, iguaria conhecida no Vale do Acre como “mujangué”. Suco de uvalha (ou uvaia) também é muito apreciado por lá - em Rio Branco, a mesma fruta é chamada de apuruí.
Terra dos Nauas
O acreano que nunca bebeu guaraná nauense, atire a primeira pedra. E ele vem diretamente de Cruzeiro do Sul, não à toa. A cidade também é conhecida como a “Terra dos Nauas”, etnia indígena conhecida por sua bravura, que chegou a ser considerada extinta na década de 1970. Entretanto, em 2003, cerca de 400 remanescentes foram reconhecidos judicialmente e obtiveram o direito de ter uma terra na Serra do Moa.
As referências a esse povo não se resumem ao refrigerante. Seu nome batiza ainda o Teatro Municipal e a primeira equipe de futebol profissional do Juruá, que debutou este ano no Campeonato Acreano de Futebol.
Principais pontos turísticos
Catedral de Nossa Senhora da Glória
Datada de 1957, construção em estilo germânico, com forma octogonal. No seu interior, um painel representando a mãe de Jesus, abrangendo todo o Fundo do Altar-Mor.
Fórum Civil Caio Valadares (Comarca)
Em estilo neoclássico. Funcionou como o primeiro Tribunal de Apelação do Alto Juruá. Na Biblioteca, obras estrangeiras raras e mobiliário do começo do século XX.
Estação do Porto
Estilo colonial inglês, com arco moldado em ferro fundido na Inglaterra, no ano de 1912.
Igarapé Preto
Localizado às margens da rodovia que liga a cidade ao aeroporto. Tem uma praia muito agradável, de areias claras e finas, contrastando com a água escura, límpida e transparente.
Instituto Santa Terezinha
Muito visitado por sua arquitetura colonial. Abrigou a primeira escola de 1° e 2° graus de Cruzeiro do Sul.
Parque Nacional da Serra do Divisor
Localiza-se no extremo oeste do Brasil, às margens da Bacia Hidrográfica do Alto Juruá. O Parque foi criado em 16 de Junho de 1989 com uma área de 843.012 hectares. É considerado Unidade de Conservação, pois abriga 17 tipos de vegetação protegida e 1.233 espécies de animais, além de 102 espécies de roedores. Representa uma zona biogeográfica, bem definida pelo seu eudenismo (ocorrência de espécies em área restrita). É, provavelmente, a região de diversidade máxima do Brasil e do mundo. Contém a maior diversidade de palmeiras do país. (Fonte: Portal de Cruzeiro do Sul) |