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Estamos matando o rio que nos faz viver O aumento populacional, a poluição e os desmates formam o tripé que aniquila a fonte que dá nome e vida ao Estado |
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Ao longo dos últimos anos, muito se tem falado em salvar o rio Acre, despoluir suas águas e até virar a cidade de frente para o rio, mas pouco ou quase nada se tem feito de prático para que isso aconteça. Assim, suas águas estão ficando cada vez mais sujas, águas que diminuem e se tornam mais poluídas a cada dia, sinal de que a cidade continua dando as costas para o rio e despejando nele o que há de pior. Nada mais triste a ser discutido nesta semana quando, se comemorou o Dia Mundial do Rio. A data foi marcada por atividade escolar no quilômetro 40 da rodovia Transacreana (AC-90) e contou com a presença de estudantes, autoridades e entidades da capital. Ali está localizada uma das principais nascentes do igarapé São Francisco, o maior de Rio Branco e à margem do qual vivem mais de 70 mil pessoas. A maioria dessa gente despeja nele seu lixo e esgotos, que somados aos da indústria estão matando essa que seria uma das reservas de água para a população da cidade. As informações acima podem parecer duras, mas expressam um pouco do que tem constatado o geógrafo e climatologista Claudemir Mesquita, especialista em meteorologia e planejamento de uso de bacias hidrográficas, ou seja, no uso dos rios. Técnico da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Rio Branco (Semeia), há quase 20 ele anos estuda o fluxo de enchentes e vazantes do rio Acre e outros aspectos de seu comportamento influenciado pelas mudanças climáticas e, especialmente, pela ação danosa do homem, que na sua busca por riqueza não considera o valor da vida. Nesses últimos dias, a morte do rio Acre está sendo chorada pelas “carpideiras” de ocasião porque perceberam que suas águas atingiram o nível mais baixo dos últimos 30 anos. As altas temperaturas e o ar seco vêm para agravar ainda mais o problema. O rio quase seco causa sé-rias dificuldades até para a água ser captada pelo Saerb a fim de ser tratada e distribuída para uma cidade onde pelo menos três em cada dez moradias há muito não sabe o que é receber água tratada em suas torneiras. Morte anunciada “Desde 1982, a gente vem avisando que como está não dá para ficar. No começo era um problema grave, hoje a situação é crítica e estamos entrando no caos. O rio está quase seco e a tendência é de que seque ainda mais. Mas, em vez de medidas práticas, continuamos discutindo teorias para criar instrumentos e meios alternativos para captar água, enquanto deixamos morrer nossa fonte principal, o rio Acre”, desabafa Claudemir. Ele que vinha estudando o comportamento do rio desde o início dos anos 80, mas só em 1997 conseguiu apoio suficiente para instalar estações de observação meteorológicas em Assis Brasil, Brasiléia, Rio Branco, Xapuri e Sena Madureira. Os equipamentos servem para verificar o regime de chuvas e sua relação com os níveis e o fluxo do rio Acre. Suas conclusões são bastante preocupantes. O que ele diz não é profecia, mas conclusão científica de quem sabe que em 1980 o volume de água que escorria pelo rio Acre era de nove mil metros cúbicos por segundo, agora ele está em quatro mil e continua diminuindo. “Isto é assustador quando levamos em consideração o fato de que em 1980 tínhamos uma população de 140 mil, em Rio Branco e, hoje ela está na casa dos 300 mil. Mais que dobrou o número de pessoas que bebem e dependem de suas águas, enquanto o volume do rio que deveria nos abastecer já caiu para menos da metade. Isso é uma situação insustentável”, declara . Menos de três em cada dez casas da cidade está ligada a uma rede regular de esgotos, o que faz com que a maior parte dele acabe se infiltrando através de fossas e sumidouros dos quintais para contaminar com fezes e produtos químicos a água que ainda está guardada no subsolo da cidade. Estudo feito pelo Imac, em parceria com a Ufac, há poucos anos constatou que muito mais da metade das cacimbas da capital estava com suas águas contaminadas por coliformes fecais, o que as torna impróprias para o consumo humano sem antes receber um tratamento adequado. Igarapés onde até a poucos anos a meninada se banhava e até pescava foram transformados em valas de esgoto fedorento que se arrasta para despejar uma média de 886 mil metros cúbicos de sujeira por dia no rio Acre. “As pessoas precisam saber que um único litro de esgoto despejado no rio polui pelo menos dois metros cúbicos de água, ou seja, torna dois mil litros desse precioso líquido impróprio para o consumo humano até que a natureza tenha conseguido degradar tamanha sujeira. Isso leva à conclusão de que chegamos a uma situação na qual precisamos repensar nosso modo de viver na cidade ou os gestores públicos terão de gastar muito, mas muito dinheiro em sistemas de captação e tratamento de uma água cada vez mais suja. O custo disso, é claro, será pago por cada um de nós”, diz Claudemir. A Organização Mundial de Saúde (OMS) constatou que pelo menos oito em cada dez pessoas que procuram atendimento nos serviços públicos de saúde de países como Brasil, onde o saneamento (distribuição de água tratada, coleta e tratamento de esgotos) é muito precário, foram contaminadas por doenças transmitidas através da água. Isso vale para males que vão de verminose às mortais hepatites e leptospirose, entre dezenas de outras não menos perigosas. Ainda há esperança Mas nem tudo são más notícias. Segundo Claudemir, a morte do rio Acre e a contaminação de suas águas podem ser solucionados com medidas que exigem uma mudança de comportamento de toda a população e algum investimento público eficiente. “Precisamos fazer um saneamento ambiental. A primeira coisa, enquanto não temos condições de instalar redes de coleta e estações de tratamento de esgotos em toda a cidade, é construir fossas, que custariam uma média de R$ 300 por casa.” Suas sugestões se estendem também pelas soluções urbanísticas, como a de relocar moradias que hoje se posicionam em situação de risco sobre os cursos de igarapés por onde escorrem esgotos que adoecem seus moradores. “O poder público precisa desapropriar e tomar posse dessas calhas de rio e igarapés, recuperar sua mata ciliar e transformá-los em parques e jardins amazônicos que sirvam para o lazer e descanso às pessoas. Isso tornaria a cidade mais agradável.” Falando de água sem tirar os pés da terra, ele faz questão de destacar: “É preciso entender que o poder público não pode nem deve fazer isso sozinho. E necessário o envolvimento da comunidade, é preciso chamar nossas universidades, as ONGs, os voluntários e as empresas privadas para que também colaborem para a revitalização da cidade. Todo o problema começa na necessidade de conscientizar as pessoas sobre a importância da colaboração de cada um de nós nesse processo. Senão, não vai dar certo.” Água no campo e na cidade Quem pensa que o problema da poluição e da falta de água afeta apenas a população urbana está muito enganado. Neste ano, pela primeira vez na história, os batelões e canoas do ribeirinhos do Riozinho do Rôla já conseguem passar acima do seringal Espalha. O Rôla tem 208 quilômetros de extensão e o Espalha está no quilômetro 80 para quem ainda consegue subir por suas águas. “Sempre consideramos que o Riozinho do Rôla, por correr em meio a áreas ambientais que deveriam estar sendo protegidas, ajudaria a abastecer com suas águas a capital, mas agora ele está quase seco. Isso por causa dos desmatamentos que foram realizados junto às suas muitas nascentes e pelo desbarrancamento de suas margens. Na verdade, estamos sendo salvos pelas águas do rio Xapuri, o menos afetado de todos porque está quase todo dentro da Reserva Extrativista Chico Mendes, onde há menos desmatamentos”, destaca. Essa situação só vem confirmar que as derrubadas para formar pastagens está impedindo que a água se infiltre no solo. Assim, os reservatórios subterrâneos não são alimentados e sem eles os nossos arroios e olhos-d’água vão secando. Outro complicador é a retirada da mata ciliar do rio, igarapés e nascentes, comprometendo a perenidade dos pequenos cursos d’água que ainda alimentam o rio. Destino cruel As projeções de desenvolvimento para a região apontam que a Rio Branco que, hoje tem cerca de 300 mil moradores, deverá ter pelo menos um milhão de habitantes daqui a dez anos. “Se a água que temos é insuficiente para atender nossas necessidades de hoje, como é que ficaremos dentro de dez anos?”, indaga. Lembrando que o problema não é meramente urbano, ele destacou: “Hoje temos um rebanho de 1,8 milhão de cabeças de gado. Considerando que cada animal desses consome pelo menos 40 litros de água por dia, precisamos de 72 milhões de litros por dia só para que nosso gado não passe sede. Digo isso sem levar em conta os demais tipos de criação nem mesmo a agricultura, que utiliza a irrigação para produzir os alimentos que nós consumimos.” Para alimentar animais e irrigar lavouras, já foram construídos 980 açudes somente nos municípios de Brasiléia, Epitaciolândia e Xapuri. Nos municípios do Baixo Acre foram localizados, por satélite, 1.220 açudes. “Quanto maior o número de açudes, menor será o número de nascentes que estarão alimentando o rio Acre porque essa água vai ser consumida na própria propriedade. A continuar o modo de vida que temos hoje, em dez anos, talvez menos, o rio Acre só sobreviverá por um período do ano ou quando a estiagem for bem menor. Com isso, a qualidade de vida em nossa região vai cair muito e só sobreviveremos se tivermos boas reservas de água da chuva.” |
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