| OPINIÃO | ||
| CRÔNICA | ||
José Cláudio Mota Porfiro * |
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De repente, vimos-nos envoltos por um turbilhão humano que se acotovelava a partir da esquina que estávamos a dobrar. A avalanche que nos inundava a alma era desproporcional ao tamanho das nossas esperanças de antanho. Jamais houvéramos esperado tanto de um tempo antes tão caótico e agora tão feliz, prenhe do júbilo que nos tem tomado conta nestes últimos dias, nestes confins de meu Deus. Ah! O calor que emanava da humanidade dos nativos podia ser sentido já nos primeiros passos da rua seguinte. Tanta felicidade, quanto contentamento. “Triunfantes da luta estamos voltando”. Já não são mais tempos de guerra, a não ser pelas mãos do estrangeiro que teima em ser derrotado a cada manhã, de cada um dos seus dias tortuosos e eternamente envoltos no sonambulismo que o enlouquece e o leva, em prantos roucos, em pesadelo, a proferir impropérios contra os mais justos, dentre todos os justos, trabalhadores reais deste mundo amazônico que me viu em cueiros e, depois, em poeta ou em filósofo. E o que é a vida senão a vã tentativa de compreender e tentar explicar as virtudes dos que fazem o bem e as insanidades dos que vivem na prática do mal? Observamos, de pronto, tratar-se de uma reunião de acreanos ou, mais precisamente, dessa nossa gente humilde, daqui ou não sei de onde, que ama o Acre e se rejubila ante tudo o que nos é dado e assinado em baixo pelo Deus da vida e desta nossa tribo hoje tão emocionada. Esse é, sim, o nosso povo. Ali estavam reunidos os nossos irmãos, as nossas tias, as nossas velhas parteiras, que ainda nos mostram a luz incandescente a partir da saída da caverna aconchegante que nos fez homens e mulheres depois de um curto período de espera... E depois, parado no meio do povo, divaguei muito e muito mais, de braços dados com a minha doce Simone, aquela que cuida bem de mim e dos nossos... Então nos lembramos. Era verdade. Estávamos ali porque houvéramos sido convidados a participar da glória daquele momento. Ficamos deveras felizes com a lembrança e a verve apaixonada me fez colocar em papel estas mal traçadas linhas, como no tempo em que, em Xapuri, escrevia cartas para seringueiros saudosos dos entes queridos que houveram ficado, talvez vivos, nos confins da Meruóca, no Ceará. Há um tempo, vimos atracarem navios dos dois lados do rio da vida nossa. Traziam novidades e levavam borracha, castanha, madeira. Há um tempo, do lado de cá, da Grã-Fina, chegávamos à Casa Araripe. Depois de atravessar a rua, passávamos pela Casa Batista, de passagem. Comprávamos roupas da moda na boutique Dona Flor e doces maravilhosos na Casa do Pão. Depois, no mercado velho, passamos a comprar verduras fresquinhas em mesas toscas sobre um chão de uma lama preta e fina que nos borrava os sapatos esporte. Estava anunciado um tempo de políticos espalhafatosos que prometiam mundos e fundos e nada cumpriam em prol de um povo ciente de que “um dia cumpriria o seu ideal”, como no fado português. E essa coisa de emoção nos invadiu o ser a partir das palavras de um garoto que, como eu, criou asas na Universidade Federal do Acre. As lágrimas do Angelim significaram, antes de tudo, muito mais esperança no futuro dos nossos acreanos de cá e de lá, dos altos rios, do fundo dos seringais. Então, veio a vez do outro rapaz, três ou quatro anos mais moço que este escriba. Citou nomes dentre os quais o do seu Esmerindo, marido da dona Fina... Digo-te, ó irmão ilustre, que a mim e a todos os justos apetece muito homenagear aos homens e mulheres que houveram por bem fazer tanto por esta terra, antes da minha e da tua chegada... Jorge, voa! Voa, Jorge! Vai naquela estrela e busca de lá muito mais fé e muito mais orgulho de ser acreano, na graça de Deus, como diria D. Moacir a Chico Mendes. Ao nosso lado, então, um cidadão humilde dizia que “esse homem fala porque sabe”. E me vi obrigado, pela circunstância e pelo papel de professor que não me foge, a dizer: - Meu caro Horácio! Fala bem aquele que fala com as palavras do coração e este, sim, é um homem apaixonado pela Humanidade. Ouvi o Hino Acreano e lembrei dos meus antepassados que deram todo o sangue em honra desta terra e deixaram a mim a simples tarefa de dar palavras, não mais que palavras... E alguns parcos ensinamentos aos que deles sentem a necessidade. Depois, passeei. Veio-me à lembrança as pesadas refeições do Barriga Cheia e as tapiocas da Dona Biluca. Observei, então, que aquele conjunto, no todo, lembra muito o centro histórico da bela ilha de Florianópolis... A paisagem é deveras parecida, mas salta aos olhos um detalhe invulgar, uma diferença extrema: aqui, tudo é muito mais bonito porque a homenagem maior é ao meu rio que carregou consigo as felizes almas dos nossos ancestrais. Em verdade, é preciso admitir que, no Acre, o espetáculo do desenvolvimento é uma sinfonia doce que embala a alma acreana feliz. * Cronista. www.claudioxapuri.blog.uol.com.br |
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