OPINIÃO
   UM OLHAR FILOSÓFICO

Paulo Pinheiro da Silva

 

 


Por que filosofia?

Existem questões que denotam uma grande incompreensão a respeito do objeto indagado. Quando perguntamos, por que filosofia, o que esperamos obter como resposta? A utilidade geral dessa disciplina na economia geral de uma época, povo, classe, disciplina? Então se pergunta pela utilidade da filosofia. Mas o que significa essa busca por um sentido prévio expresso na utilidade? Significa procurar uma definição geral e prévia para toda e qualquer expressão filosófica. Significa também nortear e dar um sentido único à função exercida pela filosofia. Mas, dessa forma, se domestica a filosofia e se retira dela a sua maior característica, ou seja, o seu caráter sintético. Toda a filosofia que queira exibir com vigor os seus “direitos senhoriais” como ex-mãe de todas as ciências, nunca se bastará com definições prévias que sirvam de leis anteriores, de princípios fundadores.

Se a filosofia tem ainda um sentido forte, ele só poderá se manter na medida em que ela continue a legislar desde o início sem nenhuma coação de disciplina, ou seja, apenas na medida em que ela seja legisladora desde o início. Uma filosofia, que seja digna desse nome, será sempre invenção de si mesma. Por isso não haverá nenhuma determinação prévia, nenhum sentido prévio, nenhuma irmandade com outros saberes de forma geral. Ela pode e terá afinidades com outras filosofias e ciências, mas não dentro do mesmo gênero, mas sim dentro de uma relação de consonância, dentro de uma relação de singularidades ente si.

É de causar risos a afirmação de que “não é mais possível filosofia”! Mas quando ela foi de fato possível? Ou o que significa dizer que ela é possível? O que é essa possibilidade referida à filosofia que é e sempre foi criadora de possibilidade e não dependente dela? Ela nasce de uma incompreensão, de uma série de impossibilidades, antes que de possíveis significados prévios. Quem concebe algo como possível, na verdade, já criou a coisa inteira através do seu aprisionamento numa malha de alternativas visíveis conceitualmente. A filosofia, ou melhor, cada filosofia cria o seu possível pela afirmação de que não se tinha ido, longe bastante, no campo das possibilidades, e, portanto, se coloca num campo (ou numa caverna, como diz Nietzsche) mais profundo, onde novas possibilidades se abrem. Para que haja filosofia é necessário, portanto, alguma temeridade, um pouco de cegueira sem a qual o filósofo nunca seria capaz de dizer o que disse, pois se ele pudesse prever as conseqüências...

Hoje a grande tarefa que se abre para o filósofo diz respeito à superação de velhas e inúteis dicotomias. Diversas contraposições como ideal e real, sensível e intelectual, temporal e atemporal, já se comportam como tentativas de ideologia e não de filosofia. Alguma coisa nós deveríamos poder tirar do fato de que o mundo hoje, mais do que em qualquer outra época, se apresenta como uma construção abstrata empreendida pelas forças de valoração das manifestações materiais de uma vontade geral que chamamos de mídia. Não se trata de idealizar, mas de perceber que entre o que chamamos de ideal, como um irrealizável de fato, e o que chamamos de real, como um vivido de direito, a divisão se esgarçou. A insatisfação abstrata e generalizada que temos com o real (insatisfação que era “privilégio” de poucos em época recente) nos mostra como já não o separamos de um irrealizável de fato e que exigimos dela para a nossa satisfação mais corriqueira algo que ela nunca poderá fornecer. A felicidade que hoje é quase um direito e um fim a que todos devem buscar não é algo que comporta elementos contraditórios entre si (como nos mostra Kant com muita propriedade na fundamentação)? Mas a nossa visão da realidade e a própria realidade, de forma quase inconsciente, ou seja, de forma que a ninguém é dado o direito de colocar isso em questão, não são sempre construídas á partir desse ideal? Poderíamos dizer, numa fala moralista, que teria como intenção reconstruir velhas demarcações, que “não conseguimos mais diferenciar o sonho da realidade!”. Mas isso é nostalgia, pois o que devemos notar é que o mundo é um sonho (nem sempre bom, é verdade), ou seja, que ele é construído no nosso olhar, ao mesmo tempo que constrói a nós e ao nosso olhar que fazem parte do mundo.

Da mesma forma, não faz mais sentido, frente a uma causalidade conceitual tão profícua, continuar separando dois planos: o sensível e o inteligível. Os conceitos não se situam num plano exterior, chamado de mundo das idéias ou mundo inteligível! Entre as coisas e os conceitos talvez exista uma diferença apenas de grau e tudo esteja num mesmo plano, ou seja, os conceitos são na verdade as próprias coisas (não a representação de coisas) em estado mais selvagem, com maiores possibilidades e estabelecendo relações de consonância e dissonância entre si. O que nós chamamos de matéria nada mais é do que a contração de um estado de coisas que está muito distendido nas idéias e conceitos. Mais ainda, tanto um quanto outro, são na verdade, grandes buracos para nossa compreensão. Poderia ser objetado que as coisas estão no tempo e os conceitos fora dele. Mas essa é apenas uma forma de colocar as coisas de acordo com uma escala de tempo: da mesma forma que rochas podem parecer fluídas dependendo da escala de tempo (geológica) que se adota. As idéias têm também um tempo e uma causalidade... As coisas têm também algo de incompleto e eminentemente selvagem no seu âmago... Talvez seja isso que Nietzsche queira dizer quando diz que se rasgou o véu entre a luz e as trevas... talvez.

Existe, ou antes insiste, como uma névoa, mas sem corporeidade, uma memória, como diria Bérgson, que na verdade se contrapõe com a matéria de forma diversa. Não se trata mais de conceber o “mundo inteligível” como uma imobilidade reguladora sempre acessível ao entendimento e passível de esquemas que norteiem o devir da sensibilidade. Não! É o próprio inteligível que comporta o grau mais elevado de mobilidade. As idéias, conceitos, sensações e sentimentos neles impregnados são mobilidade pura, dinamismo puro, mas um dinamismo difícil de apreender. Entre as coisas e as idéias, portanto, devemos conceber uma escala de gradações e não uma contraposição. As coisas seriam apenas as oportunidades para que as idéias se regrem...

 

Mestre em Filosofia
@: ppinheirodasilva@yahoo.com.br

 
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Rio Branco-AC, 13 de agosto de 2006
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