| OPINIÃO | ||
| CRÔNICA DE DOMINGO | ||
José Augusto Fontes |
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Era tempo de ver filmes e trocar gibis pela Getúlio Vargas, avenida e cenário principal da minha infância. O percurso dos cines e das trocas de gibis iniciava no Cine Acre, na primeira sessão matinê. Giuliano Gemma dava tiros para todo lado e a pipoca se transformava em refúgio. Sabe-se lá, tanta bala, melhor encher a boca de pipoca. A meninada batia nas cadeiras de madeira, torcia e gritava, quando “o artista” vencia os bandidos, os mexicanos, os índios e tudo que não fosse mocinho. Nenhum tinha tempo para ver que não poderia ser diferente. Meninos que seguem lembrando a música do Django. Mesmo estando hoje distantes e calados, como esquecer? Naquele tempo, apesar de furado, o dólar já fazia sucesso. Bang-bang era o apelido do filme, uma espécie de rótulo, de senha, para todo mundo entender do assunto e acessar os próprios registros de alguma cena espetacular. O genérico era faroeste, tão longe oeste. Enquanto Fernando Sancho ia perguntando: “como te llamas, Chico?”, os gibis do Tex, Fantasma. Tio Patinhas e Zé Carioca já estavam separados para a troca. Compondo o ato, o Chico respondia: “Miguel, señor...”. Era o fim dele e a confirmação da fama de mau do “bandido”. Ouvia-se o tiro. Bum. “Llamavas!”... Outro “bandido” mau, pouco falante, era o Klaus Kinsky, com olhos que jamais poderiam ser de “artista”, de bom moço. Ninguém torcia por ele. Quem imaginaria que dali viria a Natashja? Dos gibis, Mandrake, Lothar, Zorro, Tonto, Silver, todos ouviam os gritos do Tarzan vindo das telas dos dois cinemas, enquanto a Chita comia bananas, que já eram exportadas a preço peculiar. O Acre era terra fértil para investimentos. O país parecia que ia endurecer, era amar ou deixar. Ninguém queria saber disso. Exceto um ou dois, todos iam ficar por aqui. Mudando a conversa, hoje, quase ninguém fala disso. Por onde andam aqueles meninos, que seguiam adiante, com os gibis empilhados no braço? Havia a Praça do Hotel Chuí, também chamada de Praça do Quartel, de Praça da Escola Normal, ou de Pracinha. Dali pra frente, a gente dizia que “ia descer”. “Você já foi lá embaixo hoje?”, “vou descer agora”... Descia-se para o Cine Rio Branco, para o comércio, para o Palácio, para a loja Pernambucanas, para o rumo da ponte. De volta, subia-se, na direção do Cine Acre. Parece que ninguém notava que, logo depois, vinha a Ladeira da Maternidade. E, nesse rumo, primeiro vinha a descida. Mas o subir ou descer concentrava-se no trecho entre a Pracinha e as imediações do Palácio Rio Branco. A conversa descia beirando a Casa Zeque, abicorando A Garota, mas ela nem notava. Era fácil chegar à Esquina da Alegria. E ir adiante, para o Cine Rio Branco, onde Dio Come Te Amo passou mais que gente pela roleta. O gordo, na entrada (até hoje ele é porteiro, lá pelo 14 Bis), fingia que era mau, mas sempre foi mole, coração mole. Era da turma que gostava de livrinhos sem gravuras, só texto de fantasia abundante. Hoje, a gente sabe, fantasia não é imaginação, Popeye.não é Asterix. A Pracinha rendia, entre as sessões, depois delas, antes da missa e na saída, até a hora da boateca e no intervalo, até a tentativa de entrar na boate do Rio Branco, que não era para fedelhos. Mas a gente tentava, de três ou quatro, uma dava. “Esse cara, até pra cá traz gibi...”. “Será que não sabe dançar? Tem que chegar junto!”. Mas era assim, os mais tímidos insistiam em algo que pudessem participar, comentar, fazer afirmação. Dançar é diferente de ler, e nosso assunto é gibi, é cinema, sem esquecer alguma aventura. Hum, que saudade, O Último Tango em Paris tinha cenas raras, mas a idade não permite revelar. Quem imaginaria? Olhar pra frente e fantasiar, mas fantasiar muito, ainda não chegaria no que chegou. Não estava escrito em nenhum gibi. Agora, a gente vê que só é fácil olhar para trás. E mesmo olhando, ficam poucos para dizer, do muito que havia, que há para lembrar. Mas fantasiar não é lembrar. Assim, a gente imagina, finge que lembra, às vezes até acerta. Tanta fita, rolos e rolos, mas nenhum Ben-Hur trilhou essa fantasia. Ninguém mais diz que vai descer, os cines já não existem, e ainda há quem fale nisso, mesmo sabendo que o tempo dos gibis era outro. A vida veio contando esses quadrinhos, veio criando essas tantas cenas e enredos, que a gente não pode mais reproduzir. Quase nem é possível imitar. Ficaram poucos meninos. As muitas lembranças, a gente faz-de-contas que são relatadas para outros meninos, mesmo sendo ditas para dentro de nós. Quem iria esquecer? Se fiquei falando quase só, é porque não pude ver olhos calados, até distantes, quem sabe? Se não for assim, finjo que falo para mim, vou imaginando. A vida encena cada coisa. A gente vai duelando, a lembrança contra o tempo, mesmo sabendo que o tempo dos meninos era outro. jafontes@osite.com.br |
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