| ESPECIAL | |
| PAPO DE ÍNDIO | |
| Txai Terri Valle de Aquino & Marcelo Piedrafita Iglesias | |
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| V Festival de Canto, Dança, Expressão Artística, Manifestação Cultural e Espiritual do Povo Yawanawá Txai Terri Aquino
De Brasília, vieram o Chico Aquino (engenheiro florestal, DJ e baixista da banda Ha Ono Beko - “Siga o Sol e Vá em Frente”) de 30 anos, a princesa Isabel Panteani, 19, atualmente se preparando para o vestibular no curso de ciências sociais, e o Caetano Banê, 23, estudante de psicologia no CEUB. Daqui de Rio Branco, o Lucas Maná, 27, estudante de biologia na UFAC, estagiário do IMAC e vocalista da banda Dona Chica. E de Tarauacá, os mais novos, a Rosália Ayani, uma linda mocinha de 11, e o Jorge Luan, um moleque pretinho e danado de apenas seis. Só faltou mesmo o Irineu Yubê, um indiozinho de verdade, de quase 15, que só fala hãtxa kuin, a “língua verdadeira” de seu povo Kaxinawá, porque ele tem muita vergonha de falar português como um gringo. Lá na sua aldeia só se fala o nosso idioma com os cachorros. “Passa cachorro. desce! Me respeite cabra sem vergonho!”. Nosso “pequeno” grupo familiar, acrescido de pessoas lindas e cheio de vibrações como o Junai (Luis Gonzaga da Costa Júnior, vocalista da banda Ha Ono Beko e do grupo Kelu Kesso, que fabrica instrumentos sonoros com meninos de rua na periferia de Brasília), responsável pelo registro das cantorias do V Yawa, a Júlia Thainá, o Marcel e a Stéfhane, também integraram nossa pequena tribo dos “Txaiwanawa”, de 11 membros. Os Yawanawá como sempre, souberam fazer a festa à altura das dificuldades de se alcançar sua longínqua aldeia. Só para chegar lá passamos quatro dias viajando, dois dos quais pela BR 364 dentro de um toyota-gaiola, que nos levou da Estação Experimental, onde moro em Rio Branco, às margens do rio Gregório, na localidade São Vicente. Pelo frete de seu gaiola, o seu Raimundo de Sena Madureira, assustado com a quantidade de filhos, me cobrou mil e quatrocentos reais. De São Vicente viajamos outros dois dias, subindo o rio em dois pequenos barcos de madeira tocados por motores Honda de 13 HP de rabeta, mais adequados para se navegar nos altos rios de nossas fronteiras. Nesse verão amazônico, o Gregório estava bem seco e cheio de balseiros e pausadas. Só alguns motoristas fluviais conhecem muito bem os canais mais fundos por onde descem suas águas rasas. É perigoso navegar essa época nos rios. Toda a atenção é pouca. O Biraci Brasil Nixiwaka, às vésperas do festival, sofreu um grave acidente numa pequena voadeira, porque seu motorista, um rapaz Arara do Riozinho Cruzeiro do Vale, desconhecia os canais do rio e bateu num banco de areia, fazendo com ele caisse de cara numa quina da embarcação. Perdemos apenas a abertura do festival na tarde de 25 de julho, dia anterior à nossa chegada. Agora, finalmente, em Nova Esperança, cenário da grande festa, passamos outros quatro dias intensos, quase sem dormir, porque os Yawanawá simplesmente cantam, dançam e encantam de manhã até o amanhecer do outro dia. Os mais animados foram os velhos pajés Tatá e Yawarani. Quase sempre pegavam o sol com a mão. E gostavam de dizer, assim meio zumbi, sem dormir há vários dias, que ficariam acordados durante todo o festival, com alguns cochilhos nos intervalos, “porque ninguém é de ferro”. Nunca vi um povo com tanta disposição para cantar e dançar. Conta um mito de origem dos Yawanawá, narrado pelo Biraci Brasil, que o grande Criador, quando fez os povos de língua Pano, deu a cada um deles um dom específico e uma vocação diversa. Assim aos Katukina, seus vizinhos nos rios Gregório e Campinas, deu o dom de ser os mais finos pajés, “rumeya”, que curam com os espíritos das cobras sucuri e da jibóia. Por sua vez, aos Kaxinawá, que os Yawanawá chamavam antigamente de “Xanenawa, o povo do pássaro azul”, como diz Nixiwaka, pois bem, para eles o Criador deu o conhecimento e a ciência de todas as folhas medicinais perfumosas da floresta. E aos Yawanawá justamente o dom de cantar muito, “sem uso de instrumentos musicais”, como diz o Joaquim Tashkã. O V YAWA foi, sem dúvida, a realização e atualização desse mito de origem do “povo das queixadas”. Foram cantos de mariri, da caiçuma e do cipó da ayahuasca. Danças de todos os tipos, de roda, de fila indiana, de cobra, além das fantásticas brincadeiras de yuxin (espíritos da floresta), da abelha, em que todo mundo é jogado dentro de uma poça de lama, enlameado até alma naquela base de “querendo ou não querendo, tem que querer”. Surpreendente foi a dança em que eles imitam o bater de queijo das queixadas. Parecia de verdade! E ainda aquelas provocações saldáveis entre homens, numa fileira, e mulheres na outra, tentando pisar nos pés dos outros. Uma mulher Yawanawá me deu uma rasteira, que acabei deitado no pátio da aldeia. Meu amigo Joaquim Tashka, um dos mais animados nessas brincadeiras, chegou até emagrecer sete quilos de tanto maestrar seus parentes nos cantos e danças, imitando os bichos e almas penadas do outro mundo. Só não virou todas as noites, porque a Laura Soriano Yawanawá, como ela gosta de ser chamada, como uma decidida índia mexicana, descendente de Sapoteca e Mixteca, não deixou que ele amanhecesse em todos os dias de festa. Os destaques foram as crianças e adolescentes Yawanawá que participaram ativamente de todos os cantos e danças tradicionais, resgatadas a partir das memórias dos mais velhos, especialmente do velho Raimundo Luis e dos pajés Tatá. Yawarani e, mais recentemente do Nixiwaka, das irmãs Kátia e Raimundinha Luis, do Nani e da Fátima, do Luizinho e de outros. A sensação durante todo o festival era a de que eles estavam atualizando conhecimentos antigos, como se estivessem numa sala de aula de sua cultura tradicional. Foi fascinante ver a alegria estampada nas caras e nos corpos pintados de vermelho do urucum e do negro do jenipapo e do sepá, com suas saias de palhas de buriti, seus chapéus de penas de arara, papagaio, gavião real, cantando antigas canções e participando alegremente de todas as danças. Pude também vislumbrar uma cultura viva de um povo alegre e inteligente, que a cada festival vem reafirmando suas antigas tradições culturais. E que também vem contribuindo efetiva e positivamente para o movimento de reafirmação étnica e cultural, hoje partilhado por todos os povos indígenas no Acre. Isso me dá a certeza de que a diversidade étnica das culturas indígenas, em suas diferentes manifestações, estão aí bem vivas e que elas vieram para ficar no novo século e milênio, apesar dos “cem anos de solidão” no interior dos seringais, de correrias e massacres, de carrancismos e cativeiros dos antigos patrôes dos seringais estabelecidos em seus territórios tradicionais desde fins do século XIX e início do século passado. O V YAWA também se destacou pela participação de representantes e embaixadas indígenas de dentro e fora do estado, como a dos Ashaninka do rio Amônia, a mais numerosa, todos vestidos com seus tradicionais cusmas coloridos, pintados de urucum, que os embelezam e protegem. No dia certo, acho que no terceiro, fui tomar ainda cedo um delicioso piarentsi com o seu Antonio Pianko e a dona Peti, que completou seus 58 anos em plena festa, e ainda com os seus filhos Francisco Pianko, secretário da SEPI, o pajé Moisés, o Bebito, e sua esposa Yawanawá, o Cláudio e outros. Os Ashaninka também tocaram seus tambores e flautas fazendo a festa em determinados momento do festival. Eu e meus filhos dançamos e cantamos ao som de seus instrumentos musicais e de suas canções tradicionais. Outra embaixada indígena importante foi a dos Marubo das aldeias do alto rio Ituí, na TI Vale do Javari, no oeste do Amazonas Vi também a embaixada dos Arara do Riozinho Cruzeiro do Vale, de Porto Wálter, lideradas pelo Anchieta, candidato a deputado estadual pelo PT e a Frente Popular do Acre. Revi também meu velho amigo Siã Kaxinawá, expressiva liderança política do município de Jordão, onde até recentemente era vice prefeito, que também é candidato a deputado estadual pelo PV, na mesma Frente Popular. Espero que eles sejam eleitos, embora em meu entendimento deveria haver um só candidato indígena para não dividir o voto étnico. Encontrar o Ailton Krenak, atual coordenador dos povos indígenas de Minas Gerais, foi ainda um grande privilégio. Ele e seus dois amigos cineastas filmaram parte desse festival para um documentário que estão fazendo sobre os povos indígenas que enviaram embaixadas aos festivais que ele organizou na Serra do Cipó, como ocorreu com os Yawanawá do Gregório, Kaxinawá do Jordão e Ashaninka do Amônia. Essa série será exibida futuramente no Canal Futura. O Ailton também comandou a festa e a dança da sucuri, a cobra grande d´água. Ele é uma pessoa cheia de luz própria, um pajezinho espiritualizado, assim meio guru da galera indígena acreana. Por lá também pintaram o Perfeito Furtuna, produtor cultural carioca (“e, nas horas vagas, bandido de novela de TV”, como ele mesmo disse) e o seu amigo Rolando Monteiro, especialista em quase todas as “ervas de poder” do planeta Terra. Perfeito, que é compadre do Biraci Brasil, quer levar cem índios e índias Yawanawá, como uma homenagem aos centenário da Revolução Acreana, para apresentar o próximo YAWA no Circo Voador do Rio de Janeiro. Poucos políticos compareceram à grande festa, a não ser uma comitiva de grandes líderes do PCdoB acreano, liderados pela combatente deputada Pérpetua Almeida, a quem, até hoje, os Yawanawá reconhecem o seu trabalho de articulação política, junto ao Ministério da Justiça e à presidência da Funai, no sentido de fazer avançar a fase inicial do processo de revisão de limites da TI Rio Gregório, uma terra exuberante onde nascem importantes rios acreanos, que eles compartilham com os Katukina. Também presentes os deputados Edvaldo Magalhães e Moisés Diniz, além do Chagas Batista. O Bruno Filizola, do PROBEN/MMA de Brasília, também era um dos mais animados da festa. Dançou e cantou, todo pintado de urucum e jenipapo e sepá. Ele é um dos articuladores no PROBEN/MMA no “Projeto Kampo”, uma pesquisa sobre o uso da “injeção de sapo Kapun” entre os Katukina, Yawanawá e Kaxinawá, que brevemente acontecerá nas aldeias desses povos, inclusive em Nova Esperança. O Dr. João Guerreiro e sua inseparável esposa Sirlei também participaram ativamente da festa. Só reclamaram da falta de cipó, que só deu para as duas primeiras noites de festa. Não poderia esquecer as meninas do Rio, que dançaram e cantaram de verdade. Algumas delas tiraram a roupa e vestidas apenas de saias de palhas de buriti, como todas as mulheres da aldeia, pintaram seus lindos corpos de urucum e jenipapo. Dentre as mais animadas, destaco a Maíra, Lúcia Jaber, Paloma Sol, Marcela Zarur, Carolina Xavier, Thaís, Luiza e Marcela Colombiana. Junto com elas, o João Carlos e o Rodrigo Falabela. Quase todos estudantes de geografia, que viraram o Acre “de cabeça pra baixo”, antes e depois do Encontro Nacional de Geografia (ENG), ocorrido em Rio Branco no início de julho passado. O festival Yawanawá, realizado nos últimos cinco anos, desde que o Joaquim Tashkã e sua esposa Laura Soriano produziram e dirigiram o excelente documentário YAWA, vem se constituindo de fato “numa importante escola de educação de nossa cultura”, com bem assinalou o cacique e pajé Nixiwaka, em depoimento dado a antropóloga Ingrid Weber no IV Yawa do ano passado. Finalizo o papo com a poesia da letra de uma música recebida pelo meu filho, Lucas Maná, durante o V YAWA. Foi composta nas rodas de viola à beira de um fogo em que a jovem galera das meninas do Rio, lideradas pelo Macilvo Yawanawá, se reunia para celebrar a vida e as estrelas. nas noites frias de lua crescente. No meio da mata tudo pode acontecer/Tem florestas e paisagens que não há como esquecer, não há/Yawanawá, não há como esquecer, não há/Conhecer Macilvo e sua viola,/introduzindo uma cultura nova/Podes crer, vai acontecer/O preto azul do jenipapo/O vermelho vivo do urucum/Povo que canta, canta e encanta/Não existe em lugar nenhum/ Uni, huni, união/O cipó e o rapé dão força e inspiração pra escrever essa canção/ Yawanawá, não há como esquecer, não há (Lucas Maná, que aniversariou de seus 27 anos em pleno festival). Parabéns leãozinho Maná! |
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