OPINIÃO
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Luciana Mendes Cavalcante *

 

No Acre também tem terremoto

Há algum tempo a idéia de que no Brasil não ocorriam terremotos foi deixada para trás, mas ainda assim é preciso certa cautela ao se tratar do assunto para informar corretamente a população sobre o que é, como, por que e quando acontece. Muitas pessoas dizem estar presenciando o “final dos tempos” em que catástrofes de diversas origens e grandezas assolariam o mundo, exterminando a raça humana; outros culpam o aquecimento global seguido da ausência de políticas públicas do governo para combatê-lo.

O fato é que a Terra não é estática, ela é constituída de um mosaico de placas em sua crosta (parte mais externa e sólida onde vivemos) que “flutuam” sobre um material viscoso chamado magma (o mesmo material expelido pelos vulcões), se organizando continuamente desde sua formação. Nos limites das placas ocorrem os mais intensos fenômenos geológicos (terremotos, vulcanismo, maremotos, formação e destruição de rochas, entre outros), resultando em grande atividade sísmica (relativa a terremoto). Internamente, essas placas apresentam sismicidade mais suave, porém ainda assim pode haver sismos de grande intensidade onde há “cicatrizes” de antigas placas que se uniram configurando áreas de fraqueza crustal.

Como o Brasil encontra-se no interior de uma placa, a Sul-Americana, haveria uma suposta estabilidade, mas os freqüentes abalos no País, mesmo que não catastróficos como aqueles que ocorrem na Califórnia-EUA, na Turquia e no Japão, mostram outra realidade. O Acre localiza-se próximo a um limite de placa e a capital do estado, Rio Branco, dista cerca de 1.300 km, em linha reta, do Oceano Pacífico, onde há um encontro de placas; já em Cruzeiro do Sul, cidade a oeste do estado, essa distância se reduz para 900 km, fator que torna esta área com maior quantidade e intensidade de abalos (segundo dados do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo e da Universidade Nacional de Brasília).

Não vivenciamos catástrofes no Acre pelo fato de os focos dos terremotos de alta intensidade ocorrerem a grandes profundidades, e os mais rasos serem de baixa intensidade. Ainda assim, já houve episódios em que casas foram sacudidas e até mesmo danificadas, além de desmoronamentos de materiais nas encostas de rios e igarapés trazendo danos e desabrigando as populações que vivem nesses locais. Em setembro de 2005, um sismo de 7,5 na escala Richter (essa escala varia de 0 a 9 graus e mede a energia liberada pelos sismos) ocorreu no Peru e foi sentido em Cruzeiro do Sul. Freqüentadores da Expo-Juruá, evento cultural daquela região, sentiram a terra tremer. Recentemente, em julho deste ano ocorreu um sismo de 6,1 graus, na divisa dos estados do Acre e Amazonas, a 165 km de Cruzeiro do Sul. O foco do terremoto foi a uma profundidade de 630 km e, de acordo com notícias divulgadas pela Defesa Civil do Acre, várias pessoas sentiram as casas tremerem, mas não houve danos ou feridos. Com a intensidade relatada acima, se o sismo ocorresse mais próximo da superfície terrestre, a situação seria bastante grave, como a que ocorreu agora em agosto no Peru. Tal sismo foi sentido no Acre e Amazonas criando certo pânico, pois a movimentação de prédios, casas e estabelecimento foi mais forte.

Estudos sobre a Geologia do Acre, conduzidos pela Embrapa Acre e pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, no âmbito da segunda fase do Zoneamento Ecológico-Econômico do Estado do Acre tiveram entre seus produtos um mapa geológico do estado indicando a localização dos epicentros (pontos na superfície onde a energia liberada pelo sismo incide) registrados até hoje. Esses pontos localizam-se no Vale do Juruá (oeste do Acre), nas cabeceiras do Rio Moa (Município de Mâncio Lima), do Rio Juruá-Mirim (Município de Porto Walter) e no Município de Marechal Thaumaturgo. Esse é um primeiro passo, mas demanda por parte das prefeituras e do estado, a curto e médio prazos, maiores investimentos em mapeamento de áreas de risco geológico. O detalhamento dessas informações no município é fundamental, uma vez que o crescimento das cidades implica a construção de grandes obras de engenharia e assentamento de pessoas em novas áreas e isso deve estar baseado em princípios de segurança para as populações.

* Geóloga, M.Sc., Pesquisadora Embrapa Acre

 
 
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Rio Branco-AC, 13 de setembro de 2007
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